Esporte

Terceira idade: cada vez mais ativa e numerosa

A população idosa cresce continuamente no Brasil e no mundo e deve atingir números surpreendentes nos próximos anos. Com isso, o grupo etário mudou seu perfil e adquiriu novos hábitos

A aula nem começou e todos já estão rindo. “Tá faltando pau (sic), professora!”, diz uma senhora de 83 anos. Ela se refere ao bastão usado para fazer a sessão de alongamento, fundamental antes de qualquer exercício. O clima de diversão é contagiante e permeia toda a atividade, apenas para idosos, que tem cerca de uma hora e meia de duração e é dividida em três partes: alongamento, musculação e câmbio: vôlei adaptado para a terceira idade.

O alongamento é a parte mais tranquila e uma das mais descontraídas da aula, no ritmo dos movimentos passados pela professora, saem diversos comentários paralelos e brincadeiras. Em um deles, segurando o bastão em uma ponta e apoiando a outra no chão, fazendo movimentos circulares, duas senhoras relembram um momento na cozinha e cantam: “Mexendo polenta, la bella polenta”.

Em outro momento, ao deitar em colchonetes para fazer alongamento no chão, a senhora que abriu a matéria se dirige a mim e revela. “Nessa idade a gente tem que deitar igual criança”, enquanto desce cuidadosamente, ciente das suas limitações, mas sem se deixar levar pelo sedentarismo.

Turma

Alongamento é fundamental para evitar lesões durante as atividades (Foto: Jacqueline Santos/Beta Redação)

Depois de alongados, cada um recebe da professora a sua ficha com o treino personalizado de musculação. Cinthia Camboim, 28 anos, realiza esse trabalho há seis anos na Opus Academia, que fica dentro do Centro de Esporte e Lazer da Unisinos São Leopoldo.

Ela explica que o treino não é somente para manter os idosos ativos. – Nós fazemos um treinamento de força para retardar e prevenir lesões, e ainda melhorar as Atividades de Vida Diária (AVD), com mais flexibilidade e força. Este tipo de treinamento é primordial para eles.

Segundo a professora, a partir dos 50 anos nós começamos a ter uma queda muscular maior por estar em um processo mais acelerado de envelhecimento. São as chamadas “perdas biopsicossociais”, que também envolvem, por exemplo, mastigação, audição e visão.

Durante a musculação, os idosos se misturam com os jovens na ampla e barulhenta sala, ao som da batida dos pesos. Não há muito tempo para papo, é cada um no seu aparelho, mas entre uma troca de exercício e outra sempre há uma interação com os colegas e professores, seja para falar sobre a atividade ou sobre a vida.

A última parte da aula é dedicada ao câmbio. A participação no jogo é opcional, mas ninguém fica de fora, inclusive Cinthia. A bola não é sacada como no vôlei normal, apenas arremessada para o outro lado da quadra, para evitar o impacto.

Cada ponto na quadra adversária é comemorado de maneira eufórica, mas ninguém marca o placar, pouco importa quem ganhou. Uma lição que com certeza a experiência da vida já lhes trouxe: o importante é competir.

A senhora piadista do começo da matéria é Theresinha Groth, 83 anos, moradora de São Leopoldo. Professora aposentada, ela pratica exercícios na Unisinos desde 1999 e afirma que nunca foi uma pessoa sedentária. “Não consigo parar. Toda a vida dei aula em três turnos, quatro filhos, quê que tu quer? (sic). Eu não consigo ficar em casa parada, apesar da idade. Só que começam as limitações, uma dorzinha aqui, outra ali. Mas, com a atividade, a gente se mantém”.

Theresinha

Theresinha durante o treinamento de força, adaptado conforme suas necessidades e limitações (Foto: Jacqueline Santos/Beta Redação)

A rotina de dona Theresinha não para na academia. Há vinte anos ela também é voluntária no Programa Maior Idade (PROMAIOR), que integra o Centro de Cidadania e Ação Social (CCIAS) da universidade. Usando sua experiência profissional e pessoal, ela dá aulas de História, auxilia nas aulas de Alemão, toca gaita e canta. “Canto com uma turma de oitenta mulheres, canto com a mulherada as coisas da nossa época, coisa moderna não”, sentencia de forma divertida.

A amizade e integração do grupo vai além das brincadeiras e conversas durante as aulas. Com certa frequência, eles se reúnem para fazer um churrasco. Nos finais de semestre, o almoço é proporcionado pelo próprio dono da academia. E não pode faltar uma parada na lancheria após as aulas para tomar um suco.

Enquanto os jovens invadem as academias com seus fones no ouvido, os idosos seguem o caminho inverso, mas, principalmente, por uma questão de necessidade. “O idoso tem que ter amizades, tem que ter convivência, isso é essencial. Idoso que fica solitário em casa é um caminho para a depressão”, afirma a aposentada.

Pela sua experiência de longa data no CCIAS, Theresinha acredita que os idosos estão mais ativos e buscando atividades para melhorar a saúde e a qualidade de vida, porém, o problema é a oferta de atividades gratuitas. “O idoso ganha pouco, a maioria depende de salário mínimo. Por isso o CCIAS está sempre lotado, porque é de graça. Já faz três anos que não entra ninguém”.

Quem tem uma visão diferente sobre o assunto é o seu colega e amigo Danilo Bassani, 79 anos, comerciante aposentado. Ele pratica atividades na Unisinos há 16 anos e acredita que os idosos ainda são pouco ativos. “Eu acho que tem oferta, só que o pessoal não quer procurar, a maioria da terceira idade foge disso. Quando deveria ser o contrário, deveriam abraçar essas atividades, mas tem gente que não quer. De dez véio (sic), oito não procuram”.

Apesar da divergência, uma coisa que Danilo tem em comum com Theresinha é a constante atividade. Ele afirma que sempre praticou outros exercícios antes de iniciar na Opus, mas não de forma regular. – Caminhada, corrida, futebol, vôlei, sempre tinha alguma coisa pra fazer. Mas depois que vim para cá, abracei de vez.

Danilo

Danilo (com a bola na mão) durante o jogo de câmbio (Foto: Jacqueline Santos/Beta Redação)

O senhor carismático, que chegou na sala de alongamento e me brindou com um susto no momento em que fazia uma foto, revela que quando conheceu a academia da universidade, em 2001, não tinha muita expectativa. “No começo não levei muita fé, pois achava que aqui era muito fraco pra mim, sinceramente. Mas depois fui me adaptando e até hoje estou gostando demais”.

A prática de atividade física na terceira idade não beneficia apenas os próprios idosos, mas também quem faz parte das suas vidas. Cinthia Camboim declara que desde quando iniciou a graduação em Educação Física, sempre trabalhou com idosos e nunca quis sair deste grupo. “É um crescimento profissional e pessoal. É gratificante, cada vez que a gente está aqui, esquece que é apenas uma hora e meia. Eles são muito dispostos, muito ativos”.

A cada ano que passa, os idosos integram uma fatia maior da população brasileira e também mundial. Segundo o Fundo de Populações das Nações Unidas, organismo da ONU, a cada nove pessoas no mundo, uma tem mais de 60 anos. A projeção para 2050 é de uma pessoa idosa em cada cinco. Pela primeira vez, haverá mais idosos que crianças menores de 15 anos no planeta. Atualmente, no Brasil, a população de terceira idade representa 8,46% e deve atingir os 13,44% em 2030, segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Theresinha e Danilo ajudam a materializar estes números com seus perfis ativos. Os idosos estão buscando uma qualidade de vida melhor e com isso vem a longevidade, fora do estereótipo do vovô ou vovó que fica sentado na cadeira de balanço. Existem outros fatores importantes que também contribuem, como a queda nas taxas de natalidade e os avanços da medicina, mas a proatividade desta parcela significativa da população também tem seu peso e vai fazer com que ela atinja níveis nunca vistos nas próximas décadas.

Confira abaixo alguns trechos da aula: 

Lida 1552 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.