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OPINIÃO: Temos hospital público e de qualidade

Senso comum sobre má qualidade da saúde pública deve receber contrapontos. Aqui está o meu

Logo que se fala em Sistema Único de Saúde e hospital público, a conversa toma rumo para tratar de grandes filas, atendimento precário e péssimo tratamento para os doentes. Facilmente encontra-se quem reclame dos altos impostos que não seriam compatíveis com o serviço oferecido. Porém, é importante contar histórias que contradigam esse senso comum.

No final do mês de abril, mais precisamente no dia 23, domingo, meu pai foi hospitalizado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, centro de referência em saúde que recebe pacientes de todo o Estado para realizar diferentes tipos de tratamento. É lá no Hospital de Clínicas que ele, há mais de seis anos, faz acompanhamento para o reumatismo do qual sofre. Seguindo recomendações médicas, fomos ao hospital naquele domingo devido a uma febre baixa, que se provou sintoma da sua imunidade também baixa.

Após dois dias de espera na sala de emergência, Fabio Henrique Oliveira, meu pai, foi transferido para o andar quinto, setor norte, onde dividia um quarto com dois pacientes. Ali, em instalações limpas e organizadas, recebeu medicações para controlar a febre e aguardou por mais exames, sempre podendo receber visitas em horário regular e sendo bem tratado. Alguns dias depois, foi diagnosticado através de uma biópsia da medula. O mal do qual sofre atende por leucemia.

Dali, aguardou por uma vaga no andar quinto, setor sul, unidade de tratamento para doenças do sangue e da medula.

A partir da internação nessa nova área, algumas novas regras passaram a valer. A unidade é isolada por duas portas: ao ultrapassar a primeira, o visitante deve higienizar as mãos com água e sabão, seguindo todos os passos do manual, e depois fazer o mesmo com o álcool. Ainda na antessala que precede a ala do quinto sul, o visitante deve higienizar todos os objetos que carrega na mão e também nas bolsas/mochilas com álcool etílico, fazendo uso de um retalho de pano. De todas as prováveis 40 vezes que eu entrei e saí da unidade, em apenas uma não havia os retalhos de pano disponíveis, mas todos os outros itens utilizados na higienização nunca faltaram.

Ali, há mais de 15 dias internado, não temos reclamações sobre o atendimento. Quarto espaçoso, com poltrona para acompanhante, uma cadeira e banheiro privativo para os pacientes. A cama possui controles acessíveis para quem nela está deitado, podendo ser regulada de diversas maneiras, alterando altura e ângulo. No quarto há também um armário duplo, com uma porta para cada paciente ou visitante guardar o que quer que seja.

Dos medicamentos necessários para o tratamento, todos são fornecidos gratuitamente. O único que compramos é uma pomada de R$ 8 para prevenir rachaduras na boca, um dos sintomas provocados pelas drogas que combatem a leucemia. Ao todo, além do soro ininterrupto, o paciente recebe medicações para enjoo, dores e diuréticos, além da quimioterapia.

A qualquer hora do dia, uma corda presa a um botão na cabeceira da cama ativa uma luz que possui dois estágios, um para atendimento sem pressa e outro para emergências. Dali a poucos minutos, uma enfermeira ou auxiliar de enfermagem surge conferindo se está tudo bem, se algo está faltando ou tirando dúvidas. Diariamente, os médicos passam em todos os leitos informando resultados dos exames, alterações nas medicações ou possíveis prognósticos.

As refeições servidas no Hospital de Clínicas incluem pizza no jantar, três vezes na semana (Foto: Johnny Oliveira)

As refeições servidas no Hospital de Clínicas incluem pizza no jantar, três vezes na semana. Foto: Fabio Henrique Oliveira, Arquivo pessoal

 

Aí o leitor pode se perguntar, “mas e a comida do hospital? Comida de hospital ninguém merece”. Realmente, ninguém merece comer no hospital. Mas lá até que não é ruim. Três vezes por semana, meu pai e o seu vizinho de cama podem jantar pizza, feita na cozinha da ala, de frango ou queijo. De almoço, às vezes frango com molho ou carne acebolada, sempre acompanhados de arroz, feijão e algum vegetal cozido. Não há saladas ou alimentos crus por conta da possibilidade de ali haver germes que poderiam afetar pacientes com imunidade baixa. Ao todo, são seis refeições diárias: café da manhã, almoço, café da tarde, janta, lanche e mais alguma bolachinha com chá antes de dormir. Lá, meu pai ficou, inclusive, com medo de engordar, mas há de se preocupar com outras coisas. “Depois de curado tu vê de emagrecer”, sempre repito.

Lá estão meu pai e outros tantos pacientes, recebendo um bom tratamento totalmente gratuito, contrariando o senso comum de que “é difícil depender de SUS”. É possível receber tratamento de boa qualidade e ser bem atendido. É verdade que essa não é a regra, mas também não precisa ser tratada como exceção. Como em qualquer serviço, público ou privado, há bons e maus profissionais, com ou sem recursos.

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Comentários

Um comentário sobre “OPINIÃO: Temos hospital público e de qualidade”

  1. Edelberto Behs disse:

    Johnny, partilho contigo a opinião. Muito do que se fala do SUS gira o moinho dos interesses dos planos privados. Claro que há o que melhorar, mas temos um atendimento universal de saúde a brasileiros e brasileiras. Americano não tem disso, não.

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