Cultura

Tanlan: o rock que derruba barreiras

“Mais do que uma banda, a Tanlan é a história de uma ideia.” É assim que a banda gaúcha se apresenta. Eles são músicos, são cristãos, mas decidiram fazer algo diferente da tradicional música gospel. Nas palavras dos integrantes, “a Tanlan é uma banda de rock que tem como principal objetivo fazer uma arte que seja relevante. Que possa contribuir de alguma forma para a cultura, através de músicas que tenham significado para as pessoas, que tenham aderência com suas vidas, nas quais elas se identifiquem de alguma forma”. Mais do que isso, eles querem passar uma mensagem que impacte. “Uma mensagem de esperança em meio ao sofrimento, de alegria mesmo na dor, de poesia em meio a um mundo caótico e falido que nos cerca. Tudo isso com autenticidade, criatividade e honestidade.”

Para entender melhor a história, é preciso voltar aos anos 1990, quando a ideia nascia no coração dos irmãos Tiago e Fernando Garros, que depois se juntaram com o pernambucano Fábio Sampaio e com Beto Reinke.

Antes de nascer a Tanlan, surgiu a Fábio Sampaio e Banda, que reunia Fábio, Tiago, Beto e o amigo Marcus Vinícius. O projeto já chamava a atenção por suas letras que transcendiam o padrão musical da igreja. Continuou amadurecendo, porém Marcus Vinícius saiu da banda. Aí, quem entra para o grupo é Fernando. Assim nasce, oficialmente, a Tanlan.

A partir daí, a banda consolidou seu projeto, sua identidade. Foi um ano de ensaios, processo de criação, composição e discussão, na tentativa de criar algo que fosse comunicável dentro e fora da igreja. Em 2005 eles gravaram o primeiro EP (“extended play”, maior que um compacto, mas com menos músicas que um álbum), com produção e mixagem de Kiko Ferraz. Em 2008, lançaram o primeiro CD, “Tudo que eu queria”, com 12 músicas, produção da própria banda e mixagem de Kiko Ferraz. Através deste trabalho a banda começou a ganhar espaço: foi citada em blogs especializados como o Volume, do ClicRBS, e na Revista Noize; os shows foram aumentando; e a ideia do cristianismo que sai do templo e se comunica com a cultura e a arte foi se espalhando.

A voz da Tanlan se juntou à de outros artistas que tinham o mesmo ideal. Em 2010, a banda apareceu na reportagem “A Nova Reforma Protestante”, da revista Época, como sendo uma dos grupos que transcendem as barreiras do templo. O reconhecimento confirmava ainda mais a missão da banda, ou, como eles preferem, o propósito. “Não sei se temos uma missão, mas talvez um propósito inicial de tentar levar algo relevante para quem jamais escutou esse tipo de mensagem antes. E para quem já está acostumado, algo novo, diferente, mostrando outros aspectos estéticos possíveis dentro da arte feita por cristãos”, explicam.

Em 2012 a banda lançou mais um disco. O “Um dia a mais” foi produzido pela banda, gravado e mixado por seu vocalista, Fábio Sampaio. A masterização foi feita por Ryan Smith, do Sterling Sound, que já masterizou artistas como James Taylor, Talking Heads, Green Day, Strokes e Beyoncé. O som da Tanlan continuou chamando a atenção, e em 2012 eles alcançaram um dos momentos mais marcantes da carreira. Após anos de produção independente, o grupo assinou contrato com a Sony Music, uma das maiores gravadoras do mundo, fato que não ocorria no Rio Grande do Sul desde a década de 1990. “Sem dúvida, tivemos um alcance importante vindo deste fato. Mais recentemente, conquistamos boas posições no ranking do Spotify, com quase 20 mil audições da música ‘O que vai ficar’ em apenas 2 dias”, contam.

Em 2016, a Tanlan prepara o terceiro trabalho em estúdio. Já foram lançados dois singles: “A Maior Aventura do Mundo” e “O que vai ficar”.

A banda gaúcha Tanlan busca fazer arte relevante e de qualidade Foto: Divulgação

A banda gaúcha Tanlan busca fazer arte relevante e de qualidade. (Foto: Oziel Alves)

Rompendo as barreira do templo

Por algum tempo Beto Reinke deixou a Tanlan e deu lugar a Lucas Moser na guitarra. Mas, em 2013, Moser se desligou da banda e Beto retornou. Assim a Tanlan voltava a ter sua formação original: Fábio Sambaio no vocal e guitarra, Beto Reinke na guitarra e teclado, Tiago Garros no baixo e Fernando Garros na bateria. Além da formação, permanece original também a motivação da banda. Porém, transitar entre o “sagrado” e o “secular” nem sempre é uma tarefa fácil. “Tem sido um caminho duro, cheio de dificuldades, mas cheio de descobertas incríveis também”, avaliam.

Além da Tanlan, bandas como Palavrantiga (hoje fora de atividade), Os Oitavos, Quarto Fechado, Marcos Almeida, Lorena Chaves, entre outros, são alguns dos nomes que integram essa lista de artistas que querem ser relevantes musical e culturalmente e tornar a mensagem compreensível para todos.

Na avaliação da banda gaúcha, o seu trabalho tem alcançado lugares onde não chegariam caso levassem o rótulo de banda gospel. “Achamos que conseguimos levar nossa música com esse formato a ambientes e lugares onde jamais uma banda formada por cristãos esteve”, acreditam. De acordo com eles, seria mais fácil seguir o caminho que os artistas cristãos já fazem, que é cantar para outros cristãos. Porém, este não é o “chamado” primordial da banda. “Fazemos isso também, afinal, 80% da nossa agenda é formado por ambientes cristãos. Mas nos sentimos muito mais desafiados a tocar fora desses ambientes, onde há uma grande barreira com a mensagem”, ponderam. Para eles, o que derruba a barreira entre o templo e a rua é exatamente fazer uma arte que tenha qualidade estética e relevância.

Influências

No cenário nacional, uma das bandas que representam o Crossover (fusão de estilos musicais ou, no meio gospel, nome da corrente mais eclética) é o Switchfoot. A banda californiana é justamente uma das influências da Tanlan. “No caso deles, percebemos que embora eles não façam parte do primeiro time da música mainstream americana, eles têm a habilidade de transitar em todos os ambientes, sacros ou não. Porque os temas de suas letras são universais e fazem sentido para todos”, explicam. Essa é uma das característica com as quais os gaúchos se identificam com os americanos, além de uma semelhança estética sonora. Mas não é apenas no Switchfoot que eles se inspiram. O grupos busca beber de várias outras fontes. “Somos inspirados por tudo aquilo em que habita a originalidade na hora de transmitir mensagens marcantes para as pessoas”, afirmam. Alguns dos grupos inspiradores apontados pelos músicos são U2, Mutemath, Paramore, Gungor, Jars of Clay, MUSE, Royal Blood e Anberlin.

Momentos marcantes

Durante 11 anos de estrada, a Tanlan já passou por inúmeros momentos inesquecíveis. Para eles é até difícil selecionar alguns. Entre os momentos marcantes estão dois convites especiais para apresentações. “Fomos convidados para tocar por duas vezes em São Luís do Maranhão, no bar mais ‘hype’ da cidade, por pessoas não cristãs que simplesmente se apaixonaram pelo nosso trabalho e não por nossa fé, embora ela influencie diretamente nosso trabalho”, contam. Entre os acontecimentos marcantes está a assinatura de contrato com a Sony.

Momentos inusitados também fazem parte da história da banda. “Ficar sem gasolina na estrada, tendo que pegar um avião logo em seguida. Tocar na chuva para praticamente ninguém. Faltar luz num programa de Natal e ter que fazê-lo à luz de velas. Nossa, temos vários”, relembram.

Mas o que mais anima a Tanlan é poder sentir o carinho do público. “O mais marcante mesmo é receber das pessoas o retorno de que a música que produzimos as ajuda de alguma forma a superar problemas, a recuperar a esperança, a marcar momentos importantes. Este é o maior retorno”, afirmam.

O amor como ingrediente principal

Quem conhece e escuta a Tanlan sabe que o amor está presente em diversas músicas. Os dois últimos singles lançados falam diretamente sobre ele. Segundo a banda, o amor é uma constante, pois é por ele que vale a pena lutar. “O perfeito amor espanta todo o medo. Ele tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. E sem ele, nada valeria a pena ser feito. E ele é que vai ficar, juntamente com a fé e a esperança”, explicam. Para eles, o amor vale a pena ser cantado e mostrado.

Conquistas, sonhos e projetos

Os artistas dizem ter conquistado muito mais do que imaginavam quando começaram, há 11 anos. Porém, acreditam que o caminho apenas começou a ser trilhado. “Temos muito ainda planejado e que gostaríamos de fazer, com certeza. O caminho segue”, declaram.  A meta agora é concluir o terceiro CD, ainda este ano. Além dos dois singles já lançados, há um terceiro. A banda discute ainda o projeto de um DVD ao vivo.

O maior sonho mesmo é deixar um legado. Deixar registrado algo que teve um significado e que foi relevante para quem trabalhou com ele. “Algo que possa ser contado como um trabalho artístico que teve o seu lugar e sua importância na construção de uma compreensão diferente da arte produzida por cristãos em nosso país”, concluem.

Palavra do fã

Gabriela Ayres, 19 anos, moradora de Eldorado do Sul, ouve a Tanlan desde os 16 anos. Ela conheceu a banda através de um amigo. Gostou do som e, como já era fã de Switchfoot, percebeu a referência. “Ele me mandou ‘Louco Amor’ e eu instantaneamente gostei da banda. Depois descobri ‘Bem Vindo’ e amei a referência à música do Switchfoot”, conta.

A partir dai, a Tanlan entrou para lista das bandas favoritas de Gabriela. O que mais lhe chama atenção no som do grupo é justamente uma de suas principais características: transmitir uma mensagem fugindo da roupagem do gospel. “Curto o som porque é um rock alternativo de qualidade, que tem princípios, mas ao mesmo tempo não segue a linha de música gospel que a gente está acostumado”, explica. Outra coisa que a garota mais gosta na banda é o fato de eles serem do Rio Grande do Sul. Não é questão de bairrismo, mas de qualidade musical. “Eu sou apaixonada pelo rock gaúcho e acho que a gente tem muito artista bom pra ‘exportar’”, opina.

Gabriela viveu uma experiência que praticamente todo fã deseja: conheceu sua banda preferida e entrou no camarim. Ela não tem a foto que lembra o momento. Só se recorda que foi tirada, mas nunca a encontrou. De qualquer forma, o que importa é relembrar com carinho do dia. “Foi demais. Eles são muito simpáticos. Conversamos sobre as referências deles e eu acabei descobrindo que o Tiago, inclusive, já tinha trabalhado com a minha mãe um tempo atrás. Baita coincidência”, recorda.

 

Clique aqui e confira algumas músicas da Tanlan.

 

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