Esporte

A superação de um atleta autista

Yago Gomes de Souza é o primeiro patinador autista do estado a ganhar competição

Com 20 anos, Yago Gomes de Souza é vitorioso dentro e fora da quadra de patinação. Além de emocionar os jurados e a plateia em suas apresentações, ele também tem uma história de superação. Após passar por diversos psicólogos, foi na patinação que o jovem obteve a melhora no comportamento e na interação social, além de se tornar medalhista.

Há quase três anos patinando, o atleta já foi campeão na classe especial no Campeonato Gaúcho e Brasileiro e na Copa Mercosul de Patinação Artística, em 2015. Neste ano, já venceu o Gaúcho e Brasileiro novamente. Além disso, carregará a tocha olímpica na cidade onde mora, Guaíba, no dia 3 de junho. Ele faz parte do Grupo Expressão de Patinação, um dos mais conhecidos do Rio Grande do Sul.

Até os 12 anos, Yago tinha dificuldade de formular frases, conviver com estranhos e em outros ambientes que não fosse a própria casa. Passando por muitas terapias, o esporte foi a principal ajuda no desenvolvimento social do atleta, além do apoio familiar. Mesmo não tendo iniciado na patinação com o objetivo de participar das competições, Yago vem encantando o público e os juízes com as coreografias que faz durante suas exibições.

 

A história de Yago

“Se não acreditarmos no nosso filho, quem acreditará?”, questiona a mãe do patinador, Fátima Gomes de Souza. Yago hoje é um grande exemplo de superação. Como contam os pais, o comportamento do menino mudou após completar um ano de idade. Até então era uma criança normal e, inclusive, já sabia andar e começava a formular as primeiras palavras. Contudo, aos poucos, Yago foi mudando. “Ele começou a se fechar, não interagia com mais ninguém, somente comigo. Ele não formulava frases, falava poucas palavras, e a maioria não dava para entender. Os médicos sempre diziam que era normal da idade, mas eu sempre soube que não”, explica Fátima.

Mesmo não tendo um diagnóstico do que estava acontecendo com Yago, os pais não desistiram de buscar um tratamento que ajudasse o filho. “Nós começamos a ler e buscar informações sobre as síndromes, e as características do Yago não se enquadravam totalmente em nenhuma delas, a que mais se aproximava era o autismo, sobre o qual, na época, não se tinha muitas informações conclusivas, porém sabíamos que nosso filho tinha muitas limitações”, conta Neide Luis Cunha de Souza, pai de Yago.

 

Yago junto de sua família (Foto: Luana Schranck)

Yago junto de sua família. (Foto: Luana Schranck)

 

Na década de 1990 e início dos anos 2000, o autismo ainda era pouco conhecido, sendo difícil encontrar especialistas que pudessem dar um parecer exato do que estava acontecendo com o menino. Dessa maneira, Fátima e Neide pesquisavam todas as síndromes. “Internet, livros, folhetos de clínicas. Enfim, estávamos sempre procurando algo. Nós começamos a ler e buscar informações sobre as síndromes. Eu queria entender o que estava acontecendo, o que meu filho tinha. Eu não poderia simplesmente aceitar que ele não conseguiria ser uma criança normal, ter uma vida normal. Então, precisei ir atrás de tudo o que podia para dar ao Yago o tratamento certo”, salienta Fátima.

O menino entrou na escola aos cinco anos. Contudo, demorou mais cinco para ser alfabetizado. Estudando em escolas normais, Yago também tinha acompanhamento de professores particulares. Conforme Neide, a infância, na época escolar, foi muito difícil. “Nosso filho teve muitas dificuldades. Além de ter problema com o aprendizado, Yago também sofria preconceito de alguns colegas. Principalmente no ensino médio”, afirma.

A partir dos 12 anos, a interação social de Yago começou a melhorar. “Buscamos muitos recursos, tentamos várias alternativas e tratamentos convencionais e não convencionais, visando melhorar este quadro. Mesmo com todas as tentativas, seu desenvolvimento corria em uma velocidade diferente do que esperávamos. No entanto, observamos melhoras com tratamentos alternativos, homeopáticos e muita estimulação”, explica Fátima.

Após ter aulas de natação e outros tipos de esportes, aos 15 anos Yago entrou na patinação. Foi a partir daí que o atleta pôde melhorar a interação social e se destacar como primeiro patinador autista a vencer uma competição no RS.

 

Medalhista nacional em patinação artística, Yago se encontrou no esporte (Foto: Luana Schranck)

Medalhista nacional em patinação artística, Yago se encontrou no esporte. (Foto: Luana Schranck)

 

A importância do esporte na vida do patinador

De acordo com a professora de Educação Física Patrícia Kennes, o esporte e o apoio da família foram essenciais para o desenvolvimento de Yago. “Acredito que os esportes são a melhor forma de organizar o cérebro das pessoas especiais, pois é através do esporte que liberamos as endorfinas que melhoram o humor, promovem alegria e dão estímulos para enfrentarmos as barreiras da vida”, destaca Patrícia.

Conforme a professora, que deu aula a Yago de 2004 até 2012, o esporte ajudou no desenvolvimento do atleta e também na responsabilidade. Segundo Patrícia, a prática dos exercícios ajuda na organização de espaço temporal, freio inibitório, lateralidade, equilíbrio, noção de tempo e interação social. E foi exatamente o que aconteceu com Yago.

A técnica Bruna Cunha, proprietária da escola Grupo Expressão de Patinação e vencedora de mais de 150 medalhas em nível mundial, nacional e estadual, também afirma que o esporte melhorou no desenvolvimento social, responsabilidade e raciocínio de Yago. “Durante esses dois anos pude perceber uma mudança significativa na vida dele. Quando ele entra na quadra se transforma. É emocionante ver como se dedica e faz toda a coreografia perfeitamente”, conta a treinadora.

 

Yago e sua treinadora, Bruna Cunha (Foto: Luana Schranck)

Yago e sua treinadora, Bruna Cunha. (Foto: Luana Schranck)

 

Fazendo parte da equipe desde 2014, o atleta já patinava havia três anos. Segundo Neide, o filho praticava outros esportes desde criança, principalmente natação. “Como ainda não tínhamos um diagnóstico do que Yago tinha, após realizar diversas terapias e consultas médicas, nós percebemos que ele se desenvolvia mais quando fazia algum esporte. A gente viu que ele evoluía mais quando jogava bola, nadava ou patinava. Então, a importância do esporte na vida do Yago é enorme”, afirma o pai.

O menino treina três vezes na semana. Segundo uma de suas colegas, a medalhista Karolina Telles, Yago é um ótimo companheiro e tem facilidade de aprender as coreografias. “É inegável o desenvolvimento que ele teve ao longo desses anos aqui conosco. E não só isso, a gente aprende muito com ele. Ter essa garra, essa vontade e pureza de patinar é um exemplo para nós. E também a história de vida dele, sem dúvida, um grande exemplo”, destaca Karolina.

“Foi uma superação. Tenho certeza que o Yago teve um super desenvolvimento graças à Fátima e ao Neide, que procuraram toda a ajuda possível para que ele ultrapassasse as barreiras e não parasse no tempo. E a prática do esporte na vida do Yago foi muito importante para ele”, conclui a professora Patrícia.

Confira um vídeo feito durante uma apresentação de Yago:

 

O autismo

Conforme informações reunidas no site do Dr. Dráuzio Varella, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno global do desenvolvimento, marcado especialmente por problemas com interação social, dificuldade com a linguagem e comunicação, além de comportamento repetitivo e restritivo.

No Brasil, ainda há muitos pediatras que têm dificuldades para dar o diagnóstico de autismo, como afirma a Associação do Amigo do Autista, uma das principais entidades que ajudam crianças autistas do país. De acordo com Fátima, Yago só teve o quadro confirmado aos 17 anos. O menino havia passado a infância inteira e a adolescência indo a inúmeros médicos, pediatras e psicólogos, e nenhum chegara ao diagnóstico exato durante todo esse tempo. “Quando ele era criança, era mais difícil ainda, porque o autismo não era tão falado como agora, e os médicos diziam que o comportamento era normal. Mas, como mãe, eu sabia que tinha algo errado e nunca desisti do meu filho”, conta Fátima.

Abaixo as principais características do autismo, conforme o site do Dr. Dráuzio Varella:

  • Incapacidade de aprender a falar ou dificuldade de formular frases;
  • Falta de contato visual;
  • Tem movimentos repetitivos ou/e estereotipados;
  • Inteligência normal ou até superior;
  • Isolamento;
  • Ausência de interação/relação social;
  • Desconforto em locais desconhecidos ou até mesmo fora de casa;
  • Falta de interesse em brincar com brinquedos e, inclusive, com outras crianças;

Conforme a Associação do Amigo do Autista, as características do autismo variam em grau e gravidade. Esses sintomas podem aparecer nos primeiros meses de vida ou até os três anos de idade. É preciso ficar atento aos sinais e procurar ajuda especializada. Não existe tratamento específico para o autismo, pois é um distúrbio crônico, mas exige acompanhamento individual e/ou em conjunto do paciente. Alguns autistas, de acordo com a necessidade, precisam tomar medicação.

As manifestações do autismo podem variar na adolescência e vida adulta, dependendo da forma que a pessoa consegue aprender e desenvolver comportamentos. Segundo o site do Dr. Dráuzio Varella, o acompanhamento ao autista desde criança é essencial para seu desenvolvimento.

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