Política

Positivismo: enfraquecido, mas não morto

Doutrina criada no século XIX ainda possui seguidores em Porto Alegre

Érlon Jacques durante culto positivista. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Érlon Jacques durante culto positivista. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Positivo: aquilo que está posto, definitivo, imutável.

O termo é a base para uma das principais correntes filosóficas e políticas do século XIX, o positivismo. Criado pelo filósofo francês Augusto Comte, a doutrina chegou à política brasileira de forma muito forte.

Segundo os princípios de Comte, o positivismo surgiu como uma ramificação do Iluminismo – corrente filosófica do século XVIII criada por Immanuel Kant, caracterizada pela centralidade da ciência e da racionalidade. A doutrina é caracterizada por pregar a ideia de que somente o pensamento científico deve ser levado em consideração na sociedade. Dentre os membros, o positivismo é conhecido por ser uma “religião sem deus”, ou como “a religião da humanidade”.

A Beta Redação investigou como os positivistas gaúchos ainda mantém a militância pela corrente filosófica em pleno século XXI. Conversamos com o responsável pelo Templo Positivo gaúcho, localizado em Porto Alegre. Será que esta doutrina, tão relevante para a fundação do país, ainda tem voz dentro do Brasil depois de todos estes anos? Como pensam os atuais positivistas, descendentes do pensamento de Comte?

O templo gaúcho, fundado em 1928, em Porto Alegre, é o único em funcionamento no país. A planta do prédio segue os padrões comtianos. Ao chegarmos ao local, inicialmente nos deparamos com o portão verde onde está estampada uma das principais frases da doutrina positivista: Os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos.

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Portão do Templo Positivista de Porto Alegre. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Logo encontramos a escada que leva ao templo, onde estão descritas, nos degraus, palavras que simbolizam a evolução da humanidade. De cima para baixo: humanidade, casamento, paternidade, filiação, fraternidade, domesticidade, fetichismo, politeísmo, monoteísmo, mulher, sacerdócio, patriciado e proletariado. Basta levantarmos a cabeça para lermos, na fachada da estrutura, a máxima de Comte: O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim.

Templo Positivista em Porto Alegre. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Templo Positivista em Porto Alegre. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

No altar do templo, caracterizado internamente por suas paredes verdes, encontramos bustos de grandes personalidades do conhecimento, como o filósofo René Descartes e o poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare, além das bandeiras nacional e estadual. Também encontramos nestas paredes os principais dogmas positivistas, como moral, sociologia e lógica. Anteriormente existiam dois outros templos no país, um no Rio de Janeiro e outro em Curitiba. O primeiro está fechado; e os membros positivistas curitibanos se reúnem agora em uma sala comercial.

Escadas do templo, com os 13 principais pilares da doutrina positivista. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Escadas do templo, com os 13 principais pilares da doutrina positivista. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Positivista desde criança, Érlon Jacques Ues, 44 anos, é tido como o guardião do templo. É ele quem ministra os cultos, realizados todos os domingos. Érlon nos explica que o positivismo surgiu como sendo um refutador do catolicismo. “Comte percebeu que o maior problema da sociedade é religioso. Ele observou que a religião estava trazendo uma realidade caótica, conflitos. Então decidiu criar uma nova doutrina, a religião da humanidade, uma religião não teológica. Acreditamos naquilo que a inteligência humana acredita como verdade”.

Segundo ele, Augusto Comte viu toda a transição da Era Napoleônica, de imperialismo para a monarquia. “Aqui no Brasil, quando deixamos de ser uma monarquia e nos tornamos uma República, o positivismo ainda mostrou seus traços. Como, por exemplo, nossa bandeira, totalmente baseada nos lemas comtianos”.

Bandeira nacional, inspirada nos lemas comtianos. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Bandeira nacional, inspirada nos lemas comtianos. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Antônio Roberto Vigne, cientista político e positivista, defende a importância da doutrina para a nação brasileira e afirma que ela não morreu. “Em tempos onde não há referência alguma, ideologia alguma, ainda resta um único Templo Positivista aberto no mundo, em Porto Alegre, onde por mais de quarenta anos o positivismo foi exemplo com administrações de Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos, onde se elegeu Getúlio Vargas, último positivista declarado. Ainda há espaço para estudos, naquela que foi um dia conhecida como a ‘Religião da Humanidade’, uma filosofia humanista, que pode ainda hoje, creio, servir de base para estudos sérios de evolução individual e coletiva de nossa sociedade”.

Vigne acredita que o positivismo é a solução para que o país volte aos eixos. “A resposta pode estar em um conjunto de propostas e princípios esquecidos pelo tempo, mas que são fundadores da República Brasileira. Princípios com base no mérito, na meritocracia, no humano, na moral, na ética, na qualidade total, na história, no respeito mútuo, na ciência, na matemática, nas artes. Uma só filosofia promovendo tudo isto e muito mais. (O positivismo) Merece, no mínimo, uma curiosidade”, afirma ele.

O ápice do positivismo foi após a Revolução Francesa, durante a Revolução Industrial, época em que a sociedade estava se aprimorando tecnologicamente. No Brasil, o positivismo chegou com a troca do regime monárquico para a República.

Positivismo na política brasileira

Desde a formação da República no nosso país, em todas a trocas de governos encontramos características positivistas. É o que nos conta o professor e doutor em Ciência Política Pedro Osório. “Há uma inflexão na política brasileira que tem traços positivistas, para o bem e para o mal. Vale lembrar que o positivismo surge como uma oposição à doutrina católica, e aqui no Brasil ele constitui um discurso de desenvolvimento, progresso. Éramos uma nação agrária, onde o povo vivia no campo, uma nação que não era industrializada. Essa marca do positivismo vai se moldar na política brasileira. Já tínhamos o positivismo nascendo nas escolas militares, a abolição da escravatura e a Proclamação da República são praticamente feitos do positivismo. Principalmente a Proclamação da República, com Floriano Peixoto e o Marechal Deodoro da Fonseca, os dois primeiros presidentes. Eles vão implementar, com as características da política brasileira, uma ideia de desenvolvimento que vai ter continuidade com Washington Luiz, por exemplo, quando ele diz que ‘governar é abrir estradas’. O positivismo também vai combater o racismo, a discriminação, vai defender o estado laico, assegurar o direito de trabalho”, conta.

“Outro exemplo é Getúlio Vargas. Getúlio é filho de um pensamento positivista gaúcho, marcado por Júlio de Castilhos. Júlio enquanto foi presidente do país, passou a investir nos direitos dos trabalhadores, na CLT, estimulou o desenvolvimento da nação. Portanto ele tem esses traços positivistas. Então, se formos para os ex-presidentes militares, durante o regime da ditadura, veremos que muitas estatais nasceram, apesar dos absurdos que aconteceram aqui de quebra dos direitos humanos, tortura. O termo ‘ordem e progresso’ em uma certa altura passa a ser tido como conservador, pois eu devo respeitar a ordem estabelecida e trabalhar que o país vai progredir, e não é isso. É necessário distribuir riquezas, gerar emprego”, explica ele.

Osório defende que o positivismo sempre permaneceu presente na política nacional. “Depois disso temos uma quebra nesse modelo positivista com a chegada da democracia, mas ainda assim encontramos alguns traços. Collor era ‘Um novo Brasil’, Fernando Henrique Cardoso, ‘Avança, Brasil!’, sempre na ideia de progresso. Entretanto, progresso pra quem? Sempre temos gente sem terra, gente com fome”, diz.

De acordo com o professor, o atual governo Temer, em detrimento da administração petista, resgata valores positivistas. “Temos outra quebra com o Lula, quando ele diz ‘Um país de todos’, e com Dilma, ‘Um país sem pobreza’, depois ‘Pátria Educadora’. Note que já há uma inflexão diferente. Agora com Temer, voltamos para a ideia de progresso. A imagem que ele tem em seu governo é ‘vamos trabalhar’, e esta é uma visão positivista”, disserta.

Bruno Lima Rocha, cientista político, nos explica que o conservadorismo brasileiro também tem muitos traços do positivismo. “O positivismo também influenciou, de maneira difusa, a ideia mais ampla de governo responsivo, onde o planejamento central passa pelas bases da sociedade moderna através da harmonia no seio da sociedade e da construção do Estado Nacional. O pensamento conservador brasileiro tem amplas marcas desta forma de pensamento, em especial nas carreiras tecnocráticas e com relação nas áreas das engenharias. Também se deve a esta forma autoritária certa teoria modernizante – na verdade, matrizes teóricas modernizantes – , que apesar de centralista, promoveu alguma melhoria material de vida para a maioria de brasileiros e brasileiras”.

“Sua aplicação difusa, e pela raiz cientificista e de engenharia social, ganhou arraigo na oficialidade do último quarto do século XIX e influenciou na violência de Estado em nome de uma ordem social “harmônica” e do progresso ‘científico e dos meios de vida’ no país”, encerra.

O positivismo marcou não apenas o desenvolvimento político do Brasil, como também a sua cultura. Um samba criado por Noel Rosa e Orestes Barbosa, intitulado “Positivismo”, foi lançado em 1933. A canção encerra com o seguinte verso:

“O amor vem por princípio, a

ordem por base/O progresso é

que deve vir por fim/Desprezaste

esta lei de Augusto Comte/E foste

ser feliz longe de mim”.

Positivismo ao estilo gaúcho

Júlio de Castilhos foi governador do Estado no final do século XIX e líder do positivismo dentro do RS. Segundo Pedro Osório, a abertura da Constituição Estadual de 1891, consolidada durante o período conhecido como “castilhismo”, não faz a tradicional dedicatória à Deus, mas sim “à família, à pátria”. “A Constituição tenta criar um regime de prestação de contas ao povo. Cria uma assembleia de representantes. O então presidente do Estado tem que submeter as suas ideias às consultas populares, mas o fato é que já havia um espírito de desenvolvimento, da construção de um estado diferenciado, estruturado, que marca esse político gaúcho”, relata.

O ex-governador sempre foi admitidamente positivista. Júlio conheceu a doutrina na escola através de um professor, e posteriormente durante a faculdade de Direito, que cursou em São Paulo. Após o encerramento de sua graduação, Castilhos passou a militar no Estado à frente do jornal “A Federação”, que ele ajudou a fundar, e no Partido Republicano Riograndense, o PRR.

 

Túmulo de Júlio de Castilhos, localizado no Cemitério da Santa Casa. Em destaque a frase "Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos", máxima do filósofo Augusto Comte, criador do positivismo. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Túmulo de Júlio de Castilhos, localizado no Cemitério da Santa Casa. Em destaque a frase do filósofo Augusto Comte. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

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