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Seu filho já desenhou hoje?

Entenda como a antiga prática de soltar a imaginação usando lápis, canetinhas, tintas e folhas de papel auxilia no desenvolvimento da criança

“Vamos desenhar?” Basta fazer o convite a alguma criança que, certamente, os olhos brilharão no ato e no rosto brotará o mais sincero sorriso de felicidade. Dificilmente existe alguma criança que não se empolgue com o colorido das canetinhas, lápis de cor, giz de cera e tintas. Os pequenos estudantes do pré A da Escola Municipal de Educação Infantil Dona Ignez, de Nova Petrópolis, que o digam. Ao serem convidados a desenhar o que mais gostam, prontamente comemoram com euforia, atiram nas mesas seus lápis de cor e começam a rabiscar na folha de ofício, com olhares de imaginação à solta.

“Vem ver o que fiz!”, chama Thayson de Lima, de quatro anos. “Eu desenhei a profe e uns corações. Gosto da profe”, exclamou. “Eu também terminei”, chama Isadora de Araújo, de quatro anos. “Olha só, fiz uma árvore, um coração, um carro e uma nuvem. Adoro desenhar”, conta. “Vem ver meu gato colorido”, diz Valentina Graebin, de cinco anos. “Junto com ele tem uma nuvem, um sol e um arco-íris. Tudo com muita cor”, descreve.

 

Gato, nuvem, sol e arco-íris da pequena Valentina / Foto: Bianca Hennemann

 

Isadora conta que adora desenhar /Foto: Bianca Hennemann

 

Thayson desenhou a professora. Para demonstrar o quanto gosta dela, muitos corações /Foto: Bianca Hennemann

 

O fato é que a turma inteira se alvoroça para desenhar e contar suas peripécias artísticas. Coisa que, segundo a professora de educação infantil Patrícia Wickert Fernandes, é ótimo. “A gente estimula as crianças a desenhar com muita frequência. Mas o importante é termos o cuidado para não trazer sempre algo pronto para eles apenas pintarem. É interessante incentivar que, desde cedo, eles descubram os próprios traços. Os professores também devem ter o cuidado de não impor cores e formas, mas sim deixar que a criatividade deles flua. O papel do educador e dos pais, nesse momento, é refletir junto com eles o que o desenho significa”, afirma.

 

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Concentração de Érick e Betina para fazer bonito no desenho / Foto: Bianca Hennemann

 

O desenho e desenvolvimento infantil

Mas, afinal, por que é tão importante as crianças ter liberdade para desenhar? Trata-se de uma forma de a criança manifestar suas emoções e lidar com a realidade que a cerca. Além disso, é um fator determinante para o posterior desenvolvimento da escrita e da alfabetização. “Através do desenho a criança elabora conhecimentos, aprendizagens e experiências”, aponta a psicopedagoga Gabriela Ullmann Schons, de 38 anos. Gabriela enfatiza que o desenho da criança evolui com o seu amadurecimento e com os materiais que lhe são oferecidos. “A criança que não tem acesso a folhas, lápis, lápis de cor, terá um desenvolvimento gráfico mais atrasado em relação àquela que, desde pequena, convive com esse tipo de materiais e pode criar”, diz.

Contribuindo com o pensamento de Gabriela, a também psicopedagoga Alexsandra Rutsatz, de 32 anos, lembra que o desenho contribui para o desenvolvimento das crianças em vários aspectos. “Os movimentos com as mãos, a coordenação motora, a percepção, a organização do pensamento, a construção das noções espaciais são alguns dos exemplos de como o desenho desenvolve a criança cognitivamente, em especial para iniciar a fase da alfabetização”, afirma.

Ainda que alguns desenhos feitos por crianças para nós pareçam rabiscos sem sentido, segundo Alexsandra, eles guardam significados. “É no desenho que a criança cria uma cópia da sua realidade, podendo dar indícios de como seu emocional se encontra. Ela trabalhará o seu cognitivo e também poderá se comunicar melhor através deste processo tão simples”, diz. A psicóloga Patrícia Arnold, de 27 anos, reforça o quão importante é a criança pintar espontaneamente. “Para que tudo isso possa ter sentido, é muito importante deixar a criança livre, sem julgamentos do que é certo ou errado, apenas concentradas nos seus rabiscos, no que se constrói com os riscos e na mistura das cores que produzem ao pintar. Assim, o desenho, além de ser uma forma de expressão, também irá interferir na construção da aprendizagem dessa gente miúda”, reforça.

Patrícia também lembra que, de acordo com o epistemólogo Jean Piaget, a infância é o tempo de maior criatividade na vida de um ser humano, por isso merece ser explorado ao máximo. “É a partir do lúdico e do faz de conta que as coisas vão se transformando e construindo um sentido. A criança, ao desenhar, fala de si. A sua imaginação e a realidade cotidiana, acompanhadas pela linguagem, acabam dando forma ao desenho e representando aquilo que ela conhece através das suas interações sociais”, salienta.

 

Olha essa carinha. Que vontade de desenhar!

Olha essa carinha. Que vontade de desenhar! / Foto: Bianca Hennemann

 

 

Desenhar. Que criança não curte?

Desenhar. Que criança não curte? / Foto: Bianca Hennemann

 

A importância dos pais estimularem a prática do desenho

Que desenho tem um papel fundamental na formação do conhecimento, não há dúvidas – e os pais também têm um papel importantíssimo nesse processo. Conforme a psicopedagoga Alexsandra, quando a criança realiza o desenho, os pais devem questioná-la sobre o que realizou. “Quando a criança faz uma pergunta do tipo ‘Como se desenha um determinado objeto?’, retorne com a mesma pergunta. É importante os pais se interessarem pelo desenho de seus filhos, levando-os a se interessar por suas próprias obras, pois a valorização e a estimulação enriquecem as experiências da criança”, frisa.

A psicopedagoga Gabriela também evidencia a importância dos pais estimularem a prática do desenho com seus filhos. “O ideal é deixar a criança livre e pedir que conte o que desenhou, como desenhou. Quando a criança vai contar a história, podemos observar o que ela imaginou ao desenhar, questioná-la sobre outras possibilidades de cores”, relata. Já Patrícia dá como dica para os pais tirar um tempo do seu dia para interagir com seus filhos através do desenho. “É fundamental para o desenvolvimento saudável da criança que ali necessita e busca no adulto seu espelho”, diz.

Sônia Paim, mãe do pequeno Gabriel, também aluno da escolinha de Nova Petrópolis, põe em prática as recomendações feitas pelas profissionais. “A gente sempre compra livrinhos para o Gabriel pintar, se entreter e se divertir. Deixamos sempre lápis de cor à disposição. Isso desenvolve bastante as crianças, elas descobrem as coisas a partir do desenho”, conclui. Para Gabriela, Sônia está corretíssima. A dica da psicopedagoga para os pais é que brinquem muito com seus filhos e ofereçam a eles os mais diferentes tipos de materiais, para que se desenvolvam a partir do seu uso. “Vale misturar tintas e descobrir novas cores, produtos extraídos da natureza, como folhas coloridas e pétalas de flores. A mesma coisa com as bases para pintar: folhas pequenas, folhas grandes, pintar em lixas, forrar o chão. É nas brincadeiras, no desenho, que a criança se desenvolve sadiamente”, conclui.

 

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Isabella escolhe bem as cores dos seus lápis para desenhar / Foto: Bianca Hennemann

 

Assista o vídeo e conheça as crianças da escola de educação infantil Dona Ignez, de Nova Petrópolis, e suas obras de arte. Confira o depoimento de professoras e de uma mãe sobre a importância dessa prática. Divirta-se!


Você sabia? | Curiosidades sobre a prática de desenhar

  • Desenhar estimula a formação de estruturas neurais da memória – o que ajuda no aprendizado da criança.
  • Uma criança que desenha bastante evita dificuldades com a caligrafia quando estiver aprendendo a escrever.
  • Garatujas é o nome dado aos riscos desprovidos de controle motor, feitos por crianças de até três anos.
  • A fase em que o desenho é mais importante para o desenvolvimento da criança é dos três aos seis anos. Quanto maior for a variedade de materiais, melhor!
  • Por volta dos sete anos, as crianças substituem um pensamento egocêntrico por uma crescente visão objetiva do mundo. É quando o desenho facilita a compreensão de profissionais sobre o que envolve a vida da criança.
  • Deixar uma criança desenhar e rabiscar contribui para sua autoafirmação e autoconhecimento.
  • Quando se desenha, recorre-se ao lado direito do cérebro, que processa informações de uma forma diferente. O desenho estimula o raciocínio criativo e intuitivo.

Fontes: Época, Setor de Ciências Exatas da UFPR, Fundação FEAC

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