Política

O discurso de Michel Temer segundo… uma professora de Português

Mara Rubia Rodrigues Freitas, professora de Português e mestranda em Linguística, analisa o primeiro discurso de Michel Temer com presidente interino a pedido da Beta Redação:

 

Proponho discutir alguns aspectos semânticos do pronunciamento de posse do presidente interino Michel Temer, por ocasião do processo de impedimento da presidente Dilma Roussef, proferido no dia 12 de maio, nas dependências do Senado Federal. Esta proposta adota a perspectiva da Teoria da Argumentação na Língua (ANL), de Oswald Ducrot. Esse recorte teórico contrapõe-se à concepção referencialista de sentido, pela qual o conteúdo proposicional daquilo que dizemos evoca objetivamente elementos da realidade empírica, e que esses elementos possuem significado a priori e independente de serem ou não enunciados. Ao contrário, a ANL assume que o sentido é eminentemente intersubjetivo, construído através da relação argumentativa entre palavras durante a enunciação. Argumentar, no âmbito da Teoria, é orientar a continuação do discurso em determinada direção, estabelecendo relações de causa e consequência entre termos, através de encadeamentos argumentativos ora normativos (do tipo A portanto B) ora transgressivos (do tipo A no entanto B). Em última análise, Ducrot propõe que, embora haja evidentemente um plano da realidade empírica com seus respectivos objetos, quando nos enunciamos, quando nos dirigimos ao outro, construímos objetos discursivos e os colocamos em um “debate entre sujeitos”.

Analisemos o sentido dos trechos abaixo:

Sabemos que o Estado não pode tudo fazer. Depende da atuação dos setores produtivos: empregadores, de um lado, e trabalhadores de outro. São esses dois polos que irão criar a nossa prosperidade. Ao Estado compete — vou dizer, aqui, o óbvio —, compete cuidar da segurança, da saúde, da educação, ou seja, dos espaços e setores fundamentais, que não podem sair da órbita pública. O restante terá que ser compartilhado com a iniciativa privada, aqui entendida como a conjugação de ação entre trabalhadores e empregadores.

Observando o termo iniciativa privada, há uma ampliação do sentido, que podemos perceber através do encadeamento normativo 1:

  1. Ação conjunta de trabalhadores e empregadores PORTANTO iniciativa privada

Com relação ao termo prosperidade, este é empregado como consequência da ação da iniciativa privada, produzindo um sentido favorável ao incentivo à política de redução do espaço do Estado na atividade econômica. Esses dois movimentos argumentativos podem ser evocados através dos encadeamentos normativos 2 e 3:

  1. Iniciativa privada PORTANTO prosperidade
  2. Menos Estado e mais iniciativa privada PORTANTO prosperidade

De outro lado, um projeto que garanta a empregabilidade, exige a aplicação e a consolidação de projetos sociais. Por sabermos todos, que o Brasil lamentavelmente ainda é um País pobre. Portanto, reafirmo, e o faço em letras garrafais: vamos manter os programas sociais. O Bolsa Família, o Pronatec, o Fies, o Prouni, o Minha Casa Minha Vida, entre outros, são projetos que deram certo, e, portanto, terão sua gestão aprimorada. Aliás, aqui mais do que nunca, nós precisamos acabar com um hábito que existe no Brasil, em que assumindo outrem o governo, você tem que excluir o que foi feito. Ao contrário, você tem que prestigiar aquilo que deu certo, completá-los, aprimorá-los e insertar outros programas que sejam úteis para o País. Eu expresso, portanto, nosso compromisso com essas reformas.

No parágrafo anterior, percebemos dois movimentos argumentativos que dão conta de um sentido favorável à manutenção dos programas sociais dentro de uma ótica revisionista.

No encadeamento 4, o sentido favorável para projetos sociais produz-se a partir de uma relação normativa em que empregabilidade é colocada na posição de consequência:

  1. Projetos sociais PORTANTO empregabilidade

O encadeamento 5 evoca uma norma que postula fez parte do anterior PORTANTO não faz parte do atual. Ao inverter a conexão e negar a negação da consequência, o sentido desfavorável transforma-se em favorável:

  1. Programa sociais fizeram parte do governo anterior NO ENTANTO farão parte do governo atual

Fez parte do anterior PORTANTO não faz parte do atual

Fez parte do anterior NO ENTANTO faz parte do atual

Para afirmar a supremacia do governo atual, apesar de manter políticas do governo anterior, um sentido é agregado aos programas sociais, evocado pelos encadeamento 6 e 7:

  1. Manter programas sociais NO ENTANTO melhorar programas sociais
    • É bom NO ENTANTO não é perfeito
  1. Manter programas NO ENTANTO acrescentar programas
    • É bom NO ENTANTO não é tudo

Muito embora os trechos acima não sejam suficientes para dar conta do sentido global do pronunciamento, as análises evidenciam como a argumentação está imbricada na construção de objetos discursivos e como o princípio de alteridade é essencial no processo de semantização das próprias palavras.

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