Política

O discurso de Temer segundo… um psicanalista

O psicanalista Otávio Augusto Winck Nunes analisa o primeiro discurso de Michel Temer como presidente interino a pedido da Beta Redação:

 

O que mais me chama a atenção, numa primeira observação, é a banalidade e o generalismo do discurso. O que o Temer diz poderia estar no discurso de qualquer político recém-empossado. Acho que nos últimos trinta e poucos anos todos políticos disseram a mesma coisa em situações dessa ordem. Então, me parece, há uma indiferenciação discursiva que faz com que pareça que não exista um posicionamento ideológico. Está certo que não se faz um governo só para os próprios eleitores, o que nem é o caso, mas essa generalidade esconde, pois neutraliza, ou normativiza, um aspecto importantíssimo. Ao tenta indiferenciar posições, faz com que a realidade seja tomada sem que ela seja vista na sua dimensão ideológica. A nossa sociedade tem uma ideologia que a organiza, mas não é declarada, não é explicitada. Só a ideologia contrária é que é destacada.

E ainda, a política é, me parece, o exercício do ideal fracassado. Promete-se um ideal que se sabe, antecipadamente, que não será cumprido.

Outra elemento a ser destacado: o pedido de confiança. Confiança não se obtém por decreto, é uma construção. E qualquer cidadão que acompanhou minimamente os últimos acontecimentos do Brasil sabe a maior de todas as “crises” é a da confiança. As instituições, como elemento terceiro, ficaram à mercê de interesses pessoais. Então, uma instância que poderia regular as relações fica impedida de exercer sua função. Com isso se estabelece claramente uma lógica perversa, as leis reguladoras estão sempre sendo desmentidas.

O que realmente é o aspecto mais grave do discurso de Temer – um nome siginificante, como se diz em Psicanálise, que não é sem efeito; há que realçar esse aspecto do seu nome – é parecer, então, que não participou do governo que estava em curso. Ele tenta se colocar numa posição de exterioridade em relação ao governo que o levou à vice-presidência. E, agora, à presidência. Ou seja, a sua falta de implicação subjetiva, lavando as mãos, como Pilatos, me parece o mais sintomático do seu discurso.

Pensei esses elementos a partir do que acompanho das relações sociais, tendo em vista minha formação como psicanalista. Considero que sou de esquerda, mesmo já não sabendo bem o que isso quer dizer, o que é uma lástima.

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