Política

Secundaristas na rua

Estudantes de escolas ocupadas participam de ato em apoio a Dilma, na capital

Fotos: Caroline Paiva

A manifestação dos estudantes de escolas públicas estaduais já ocorre desde o dia 11 de maio, com a ocupação do Colégio Estadual Coronel Afonso Emilio Massot, de Porto Alegre, a primeira do Estado. Desde então a movimentação aumentou constantemente e ganhou ainda mais forças depois do anúncio oficial de greve feito pelo Cpers/Sindicato, em 13 de maio.

Segundo a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), já são mais de 150 escolas ocupadas em todo o Rio Grande do Sul. Na página Ocupa Tudo RS, rede de apoio às ocupações, é possível conferir a listagem completa das escolas ocupadas, atualizada com apoio dos próprios estudantes (leia aqui).

Na última sexta-feira (3), o Ato contra o Golpe, e em Defesa da Democracia, desta vez com a presença da presidente afastada, Dilma Rousseff, reuniu novamente milhares de pessoas em um manifesto pacífico, iniciado na conhecida Esquina Democrática. A Beta Redação cobriu a visita da presidente afastada, que se pronunciou na ocasião, e também conversou com os estudantes secundaristas que participavam do ato.

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A estudante do Colégio Estadual Protásio Alves, de Porto Alegre, Nathalia Silveira, 17 anos, também participava do ato e confirma que a escola já está há mais de três semanas ocupada. Segundo Nathalia, circulam cerca de 100 alunos por dia na ocupação. No entanto, a aluna atenta para a insegurança e o medo constante. “Está bem complicado. A gente tem que se dividir, fazer ronda. Toda hora tem que ter alguém acordado, porque a gente sabe que a repressão policial nas ocupações tem sido bem forte”, comentou.

Ela e os demais alunos do Protásio estão fazendo um controle rígido de entradas. “A direção está preferindo não se manifestar, mas a gente sabe que em outras escolas teve P2 infiltrado”, revela. P2 é nome popular para o serviço de inteligência da polícia militar, que atua à paisana. A estudante diz que participa do ato, “pois estamos sofrendo um golpe e podemos linkar o governo de Temer com o governo de Sartori, ambos do mesmo partido, e que querem privatizar a educação pública”.

 

 

Daniela Calegari, de 18 anos, à frente da bateria da União da Juventude Socialista (UJS), que animava a caminhada pelas ruas do centro da capital, participa da ocupação do Colégio Estadual Marechal Rondon, em Canoas. Segundo a estudante, a escola está ocupada por alunos desde o dia 18 de maio, logo após os professores aderirem à greve.

De acordo com Daniela, no Rondon, a direção apoia a ocupação. “Isso é um ponto positivo, pois aí não tem conflito. O problema são os pais que são contra, pois os filhos não tem aula. Mas tem muitas atividades e são feitas várias oficinas de interesse do aluno”, acrescenta. Ela participava do ato, pois acredita que “todos os estudantes secundaristas do Rio Grande do Sul se unificaram com as mesmas pautas, aclamadas pelo país todo”.

Já Joana Cardoso*, de 16 anos, veio de longe para participar do ato. Ela é aluna da Escola Estadual Roberto Bastos Tellechea, de Rio Grande, que está há três semanas 100% ocupada. Segundo a estudante, a ocupação de lá tem o apoio da direção e de 80% dos professores, que declararam que não vão parar a greve enquanto não receberem boas propostas. “Só não temos o apoio de pessoas da comunidade, que já nos ameaçaram, inclusive de morte. Uns dias atrás foram dois caras lá. Disseram que iam entrar e nos retirar a tiros. Eles estavam muito agressivos, só não avançaram na gente porque tinham grades”, denunciou. A aluna contou que todos ficaram com muito medo e resolveram trancar a escola. Assim como no Protásio, passaram a controlar a entrada e saída de pessoal.

Joana* conta o que a motivou para participar do ato em apoio à Dilma Rousseff, em Porto Alegre.

Entre as principais pautas dos estudantes das ocupações está a precariedade das escolas e o sucateamento da educação no Estado, também o repúdio à privatização e ao projeto de lei 44/2016 (que pode entregar as escolas públicas para organizações sociais e fazer parcerias com a iniciativa privada), além do apoio à greve dos professores. Clique aqui para conferir as reinvindicações do Cpers/Sindicato.

*Identidade preservada.

Por dentro da ocupação do Iphan

Uma das últimas paradas da caminhada dos apoiadores de Dilma foi em frente ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), também ocupado. Depois de percorrerem as Avenidas Júlio de Castilhos e Farrapos, os manifestantes permaneceram por quase uma hora na Independência, onde prestaram seu apoio aos ocupantes do prédio histórico.

O Iphan é uma das 27 autarquias federais, vinculada ao Ministério da Cultura (Minc), que tem por objetivo preservar, proteger e promover o patrimônio cultural brasileiro. No Rio Grande do Sul, o edifício já tombado, chamado de Palacete Argentina, abriga atualmente artistas que anunciam não “negociar com governo golpista”. A ocupação iniciou em protesto à extinção do Minc, mas permaneceu pelo não reconhecimento do governo interino de Michel Temer.

Após a leitura da carta manifesto dos ocupantes do Iphan, muitos manifestantes seguiram para o bairro Moinhos de Vento e alguns poucos participaram de um sarau, com música e pintura, na sede gaúcha. Assim como nas demais ocupações, os que permanecem nos prédios públicos também fazem atividades artísticas. Professores, atores, artistas plásticos e jornalistas presenciaram a performance.

Roberta Millarch, única secundarista da ocupação do Iphan, tem 18 anos e é estudante da Escola Estadual André Leão Puente, em Canoas, que não está em greve. Ela está no instituto desde o dia 20 de maio e resolveu aderir ao movimento junto ao grupo de teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, o qual faz parte. O motivo foi, justamente por ser artista, defender a existência e manutenção do Minc, além de não reconhecer o governo Temer. De acordo com a estudante, diferente de outras instituições, o Iphan não sofreu represálias, nem da comunidade, nem da polícia militar.

Presente na ocupação, a pedagoga e educadora social, Maria Senilda, de 48 anos, também faz parte das oficinas de teatro do mesmo grupo e diz que uniu-se à luta da cultura para garantir o mínimo de política públicas. “Aqui é um espaço onde tem uma organicidade, não tem partido, todos chegam, todos contribuem, acho que é dessa forma que nós vamos contrapor este governo golpista”, acrescenta.

Para saber mais sobre a ocupação, acesse Ocupa Minc Porto Alegre.

Fotos: Caroline Paiva

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