Cultura

Ruas que exalam arte

Artistas urbanos resistem e seguem colorindo os muros e calçadas da Capital

Por Laís Albuquerque e Stéphany Franco

Ao andar por uma rua do bairro Passo D’Areia, um desenho no alto de um prédio chama a atenção. Os animais diferentes e as cores vivas lembram um quadro surrealista de um museu, mas é feito com tinta spray e foi pintado direto no concreto frio. Alguns cartazes coloridos, colados nas paredes do prédio abandonado, trazem desenho e poesia para o Centro Histórico. No Bom Fim, vidros e azulejos tomam a forma de uma pintura clássica do Renascentismo. Uma tour por bairros de Porto Alegre é quase como visitar uma galeria, tamanha é a expressividade da arte urbana da cidade. Entre preconceitos e poucos incentivos, os artistas insistem em tirar o cinza dos centros urbanos da capital.

As intervenções urbanas são consideradas como arte contemporânea de cunho popular, realizadas em espaços como paredes, muros, placas, mobiliários e todo o tipo de aparato urbano. O movimento ficou conhecido como arte principalmente depois da popularização do pop art nos anos 80. Segundo o professor de Comunicação Social da Uniritter, Francisco dos Santos, quando falamos em arte urbana logo pensamos no grafite e no muralismo. Contudo, podemos considerar também as performances e qualquer outro tipo de expressão. “Uma manifestação artística que dialogue com ruas, avenidas, passarelas, ciclovias, paradas de ônibus e estações de metrô pode ser considerada arte urbana”, reitera.

A professora de Design de Moda da Unisinos, Paula Visoná, aponta que a arte urbana influencia a sociedade inclusive através da moda. “Algumas marcas começaram a se relacionar com street artistas, e, assim, utilizaram essas linguagens na forma de padronagens e estampas em roupas, sapatos e acessórios. Logo isso começou a ser cada vez mais conhecido pelas pessoas”, completa.

Ruas que contam histórias

Aperfeiçoar o traço no grafite leva tempo. Foto: Danilo Foizer

Aperfeiçoar o traço no grafite leva tempo e exige dedicação. Foto: Danilo Foizer/Divulgação

 

Caminhando pela cidade baixa, Fábio Eros parece um guia turístico de um universo único: o mundo do grafite. O artista conhece cada obra, cada autor e ainda costuma saber quando e o porquê aquele desenho foi pintado. O grafite surgiu na vida de Eros por meio da fotografia. Durante os registros, além de aprender sobre a arte, ele foi ganhando o respeito dos grafiteiros que já estavam na cena. “Os artistas se sentiam prestigiados por eu estar registrando o grafite deles”, recorda. Contudo, a jornada até o traço perfeito foi longa.

Eros ainda lembra que odiou seu primeiro painel feito com a tinta spray. “A gente só sabe o que é grafite depois de muitos anos. Demora pra conquistar a confiança no traço e a postura na rua”, salienta. Ele conta que só gostou realmente de seu trabalho quando, depois de tanto praticar, acertou o traço de uma letra. “Não acredito em dom. Acho que o talento vem da prática”, afirma. Hoje, ele já fez painéis em 32 municípios de 5 estados do país.

Fábio Eros é artista visual há 12 anos. Além de fazer grafite, trabalha com arte-educação. Além disso, ele já lidou com arte digital, adesivos, lambe, pintura, colagem, ilustração e fotografia. Desde menino, já possuía uma veia artística: “Eu ficava assinando e pintando por tudo quando era mais novo. Eu faço arte desde sempre. Esse é meu jeito de me expressar”.

Há seis anos, foi no grafite que ele se encontrou e foi através dele que Eros teve uma surpresa: soube que já estava entre os artistas antes mesmo de fazer grafite. “Eu fui descobrindo quem eram os grandes grafiteiros da cidade e vi que já conhecia vários deles pessoalmente, só não sabia que eram desse rolê. Inclusive, meu padrinho no grafite foi uma dessas pessoas“, revela. Conhecido como um dos primeiros grafiteiros de Porto Alegre, o artista Trampo apadrinhou-o na arte e, coincidentemente, é amigo da família de Eros há anos.

Eros já atuou em diversos campos da arte, mas seu foco é o grafite. Foto: Danilo Foizer

Eros já atuou em diversos campos da arte, mas seu foco é o grafite. Foto: Danilo Foizer/Divulgação


Nesse meio, é normal que os artistas não gostem de falar quem eles são, então costumam usar apelidos como nome de artista. A razão disso é somente uma: o preconceito. “A gente sofre muito desrespeito por parte da polícia e também dos taxistas e motoristas. Cansei de ser chamado de vândalo enquanto estava grafitando”, revela Eros. Outra dificuldade apontada é a falta de incentivo. As exposições e eventos de grafite normalmente são uma ação coletiva dos próprios artistas e sua realização depende do que eles conseguirem. Eros conta que prefere bater de porta em porta pra realizar um evento do que tentar se inscrever em um edital. “Eu não quero ser  mais um pedaço de papel em cima de uma mesa, esperando anos para talvez conseguir algo”, dispara, e ainda ressalta: “A arte urbana tem um caráter de luta, resistência e opinião.”

Assinaturas fazem parte da cultura do grafite. Foto: Stéphany Franco

Assinaturas fazem parte da cultura do grafite. Foto: Stéphany Franco

 

No mundo do grafite, a assinatura é muito importante. Um item que veio da cultura do picho e permanece na grafitagem. “A base do grafite é as assinaturas. É muito forte isso e é como os artistas ganham respeito na rua“, explica Eros. Já a maior disputa entre eles é pelas “telas”, ou seja, os muros. Eros conta que há espaços que são mais disputados. “Alguns muros da cidade tem tipo uma agenda, pra todo mundo poder grafitar”. Inclusive, cobrir um desenho anterior não é uma ofensa. O problema é só pintar uma parte. “Se for grafitar tem que cobrir totalmente o desenho do outro artista, como se ele nem tivesse sido feito ali. Se fizer isso, não tem problema. O que ofende mesmo é passar por cima do trabalho anterior, ai você se queima”, explica o artista. Entretanto, o segmento é bem unido. Há muitos eventos de grafitagem em Porto Alegre, grande parte organizada pelos próprios grafiteiros, e muitos artistas se reúnem em coletivos – chamados crews -, para unir forças dentro da arte urbana.

 

Releituras de um olhar

Artista visual cria diversas releituras da Mona Lisa. Foto: Laís Albuquerque

Artista visual cria diversas releituras da Mona Lisa. Foto: Laís Albuquerque

 

Ao som de Música Popular Brasileira (MPB), em meio a azulejos, espelhos, pedras e vidros, Silvia Marcon dá vida a mais uma Mona Lisa. A mosaicista, que estudou na Itália a fim de aprender a trabalhar com materiais diversos na produção de mosaicos, faz releituras da obra mais notável de Leonardo Da Vinci. Ela já recriou Mona Lisa de diversas maneiras: parecida com o cantor David Bowie, com os adereços da Mulher Maravilha e até mesmo ao estilo “Diaba”, com labaredas ao redor. Silvia lembra que muito antes de ser alfabetizada, já respirava arte. “Quando eu tinha três anos de idade já frequentava a escola de artes do Theatro São Pedro. A arte sempre fez parte da minha vida”, completa.

Ateliê de Sílvia é repleto de azulejos e vidrilhos. Foto: Laís Albuquerque

Ateliê de Sílvia é repleto de azulejos e vidrilhos. Foto: Laís Albuquerque

Silvia se dedica exclusivamente a atividade há cerca de cinco anos e acredita que uma hora irá parar de produzir as Mona Lisas. Contudo, não deixará de fazer arte urbana, mas irá focar em murais coletivos, onde as pessoas enviam materiais do mundo inteiro para a construção do mosaico. “Artistas ou pessoas que não trabalham com arte me enviam mosaicos que formam símbolos da paz, corações e flores e, assim, eu componho os murais”, explica. Ela inclusive já produziu um mural deste tipo, que está localizado na Rua Riachuelo, no centro de Poa.

 

Peças do mosaico coletivo são enviadas por pessoas do mundo todo. Foto: Stéphany Franco

Peças do mosaico coletivo são enviadas por pessoas do mundo todo. Foto: Stéphany Franco

 

A artista define o movimento como uma espécie de museu a céu aberto. “O mosaico é uma arte muito elitizada, pois não o vemos na rua. É por este motivo que busco divulgar o meu trabalho nas ruas para poder democratizar esta arte”, ressalta. Sílvia acredita que a população vem aceitando bem o movimento de arte urbana.

Entretanto, os incentivos são mais escassos. Ela conta que não existem muitos editais públicos na área e são raros os financiamentos. A artista recorda que já passou horas na internet em busca de editais, devido a tamanha dificuldade de encontrar. “Quando finalmente consegui achar um edital de arte urbana para participar, tinha que ser morador de Niterói/RJ. São muitos empecilhos. Tem vezes que a iniciativa privada nos incentiva mais do que o Estado”, afirma a artista.

 

Intervenção com doses de poesia

Trabalhos de Vital nas ruas de Lisboa, em Portugal. Foto: Acervo Pessoal

Trabalhos de Vital nas ruas de Lisboa, em Portugal. Foto: Acervo Pessoal

 

Cartazes e adesivos espalhados pelas ruas da capital trazem desenhos, textos e poesias inusitadas. Um dos expoentes desse tipo de intervenção urbana é o artista plástico Vital Lordelo, que trabalha há 5 anos com cartazes de rua. Suas criações costumam ter um tema específico, com mensagens e desenhos feitos a mão. Às vezes palavras, às vezes frases inteiras, mas sempre bastante poéticos: assim são os cartazes de Vital. Eles costumam proporcionar uma reflexão ao transeunte, que acaba se tornando também um leitor. Em uma de suas séries mais conhecidas, ele espalhou palavras positivas como “Leveza”, “Coragem” e “Ternura” pela cidade. Seu trabalho já ganhou não só as ruas de Porto Alegre, mas também de Berlim, Paris e Lisboa.

Vital conta que conheceu o estilo na sua cidade natal, Brasília-DF, mas só começou a reparar nos muros em 2005, quando veio morar em Poa. Para ele, a cidade tem sua expressão determinante. “Temos grafiteiros com expressão nacional e internacional em Porto Alegre, com seus trabalhos espalhados em muros de grandes capitais do Brasil e do exterior”. Mesmo que a cidade tenha subdivisões claras dentro do movimento de arte urbana, ele vê que há cumplicidade entre os artistas. “Todos tramam uma conversa na cidade”, define.

Vital espalha pela cidade cartazes contendo sentimentos. Foto: Acervo Pessoal

Vital espalha pela cidade cartazes contendo sentimentos. Foto: Acervo Pessoal

 

Entretanto, há divergências quanto a recepção das intervenções urbanas pela população. Vital aponta que há dois lados da mesma moeda. “Há quem acredite e proteja os artistas, assim como há os que catalogam o artista como vândalo”, revela. Inclusive, esse é um dos maiores desafios apontados não só por Vital, mas também pelos outros intervencionistas entrevistados. As pessoas ainda veem o estilo como “vandalismo”. “Nosso principal desafio é garantir nossa liberdade de expressão. É fazer com que o artista não seja mais visto como marginal, pela falta de educação cultural da população”, pondera.

O artista vende sua arte em sua loja virtual, expõe em feiras e, quando convidado, produz para empresas para algum projeto. Os cartazes de Vital já ganharam exposição diversas vezes, tanto no RS como em outros estados. Das 25 exposições que já realizou, grande parte delas foi financiada coletivamente. “Poucas vezes recebi investimento. Minhas últimas exposições foram feitas com financiamento coletivo. Acho interessante este projeto e pretendo trabalhar dessa forma mais vezes”, conta. Ele ainda aponta que os artistas urbanos geralmente precisam ir atrás de apoiadores: “O artista costuma passar meses investindo em sua própria obra e sem perspectiva alguma de lucro”.

 

Sob a ótica de quem passa

Obra de Eros em muro da Cidade Baixa, em Poa. Foto: Laís Albuquerque

Obra de Fábio Eros em muro da Cidade Baixa, bairro de Poa. Foto: Laís Albuquerque

 

A característica mais marcante das intervenções urbanas é a sua proximidade com o público. As pessoas não precisam ir até um museu para vê-las, pois essas intervenções podem estar em qualquer lugar. Mas o que o público acha disso? A Beta Redação encontrou pessoas que são tocadas por esse estilo de arte. Por exemplo, o estudante de Design Marcus Loreto, que já parou para olhar até mesmo para o chão, graças a uma intervenção. “Eu estava andando pela Cidade Baixa e encontrei alguns desenhos montados no chão com um tipo de azulejo e parei para ver. Acho muito interessante essas intervenções inusitadas, que encontramos sem querer”, conta.

Já o interesse do ilustrador Guilherme Pires por arte urbana vem de sua paixão por desenhar. “Pretendo estudar mais sobre coisas como o grafite, porque gosto de tudo que é relacionado ao desenho”, afirma. O que costuma lhe chamar mais a atenção na rua são pichações e frases grafitadas. Para ele, a arte urbana serve para libertar os pensamentos dos artistas e quando passam mensagens positivas inspiram os transeuntes. “Eu acho muito legal que a pichação, por exemplo, só quem faz entende a linguagem. A arte urbana deveria ser mais espalhada pela cidade, para dar um toque de cor onde tudo é cinza”, opina Guilherme.

Marcus nota que há bastante preconceito com esse tipo de arte por parte das pessoas, que logo rotulam os artistas como desocupados. “Tem gente que acha que arte é só o que se vê no museu ou no teatro”, critica. Mas ele acredita que essa visão irá mudar. “Vejo que a elite cultural já notou que essas são apenas outras formas de arte e já as reconhece como tal”, pondera. E Guilherme completa: “Percebo que esta manifestação já ganhou seu espaço e tem ganhado legitimidade com o tempo”.

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