Economia

Nessa rua, o negócio é futebol

Uma das mais antigas da capital, a rua Fernando Machado atrai apaixonados pelo esporte e ajuda a movimentar a economia

“Das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”. Nelson Rodrigues, um dos principais pensadores e representantes do esporte mais amado pelos brasileiros foi certeiro nesta colocação. A paixão nacional pelo esporte mobiliza  milhões de pessoas e hoje fomenta uma verdadeira indústria com cifras milionárias. Patrocínios, cotas de televisão, venda de ingressos e de itens esportivos: não há limites para a exploração emocional e comercial do futebol.

Segundo dados levantados pelo Consultor de Marketing e Gestão Esportiva Amir Somoggi, os clubes brasileiros arrecadaram cerca de R$ 4,2 bilhões em 2016. Só em patrocínios, estes valores giraram na casa de R$ 560 milhões. Já em bilheteria de jogos e programas de sócio-torcedor, os principais clubes do Brasil alcançaram a marca de R$ 795 milhões. Licenciamentos de marca? R$ 120 milhões. Para Somoggi, um valor que ainda tem muito a crescer. 

Monitorando este cenário, um grupo de empresários apaixonados por futebol identificou uma lacuna bem pontual em Porto Alegre: estabelecimentos voltados especificamente para fomentar o esporte. O Brechó do Futebol – Bar e Camisetas, foi o precursor.

Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação

O objetivo é chamar a atenção de quem circula pela Rua Fernando Machado (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

Inaugurado em 2010, na Rua Fernando Machado, no Centro Histórico da capital, o espaço se consolidou como referência para os fãs de futebol. Para isso, aposta em um ambiente para lá de temático. As paredes são todas cobertas com fotos históricas de jogadores, times completos, seleções e craques de todo o mundo. Uma viagem no tempo e na história do futebol a menos de um metro dos olhos.
Faixas, flâmulas e mantas de times de diversos países ajudam a tornar o espaço ainda mais característico. Seis televisões de 42 polegadas  passam  jogos nacionais e internacionais durante todo o tempo.  Quando não há partidas em andamento, são duas opções: reprise de jogos importantes ou canais de esporte ao vivo. O importante é manter a paixão acesa e incentivar a presença de aficionados por futebol.

Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação

A ideia do Brechó é reproduzir o clima de um estádio de futebol (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

Pelo bar ter uma temática bem específica, há prós e contras. “Em dias sem futebol nacional ou internacional é bem complicado para termos um bom movimento”, destaca Carlos Cologhero (35), sócio do Brechó. Em compensação, o pub é o local preferido para jogos sem ser da Dupla Grenal : “No último jogo Uruguai e Argentina, pelas Eliminatórias da Copa, a casa estava cheia de estrangeiros. E em clássico Real Madrid x Barcelona, recebemos torcedores uniformizados que vem em massa acompanhar aqui”, conta.

Tudo começou em 2002. Cologhero sempre foi um apaixonado por camisas históricas e notou que havia, na época, uma grande diversidade de ofertas em sites, como no Mercado Livre, por exemplo. Porém, as grandes redes de varejo não possuíam um sistema de e-commerce estabelecido e não conseguiam ingressar em cidades pequenas. Cologhero enxergou aí uma oportunidade: comprou uma camisa da Seleção Italiana e no mesmo dia já revendeu, faturando R$ 40 na transação (por meio do Blog Brechó do Futebol). Isso acabou virando um vício: começou a comprar e revender para manter e ampliar a coleção.

Crédito: Gustavo Schenkel

Times históricos ganham às paredes do local (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

Para isso, alugou um espaço na Rua Lopo Gonçalves, e começou a expor as camisetas – anunciava no Blog do Brechó do Futebol e marcava horário para receber os interessados. O mercado foi aumentando e a pequena sala, compartilhada com mais duas pessoas, foi ficando pequena. Em parceria com dois sócios, veio a ideia de explorar ainda mais essa paixão (dele e de um público crescente) por futebol e camisetas colecionáveis: nascia então, em 2010, o Brechó do Futebol – Bar e Camisetas, na Rua Fernando Machado, onde permanecem até hoje.

“A minha ideia com a loja não é gerar lucro. A loja é de todos nós, apaixonados por colecionar. Minha maior alegria é conseguir trocar duas camisetas por outras três, por exemplo, e ir ampliando a coleção”, conta. Porém, só na tarde em que a equipe da Beta Redação esteve na loja, Cologhero vendeu cerca de 20 camisetas (média de R$ 100 por peça). “Com o que ganho com a venda posso comprar novas e ir fazendo as peças circularem entre mais pessoas”, destaca.

 

Crédito: Gustavo Schenkel

As camisetas são separadas por times e épocas diferentes (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

O que começou com uma camiseta da Itália hoje chega a marca de quatro mil itens. “Minha expectativa é chegar até cinco mil camisas até o final do ano”, conta. Duas peças, porém, são inegociáveis: a camiseta de Pelé, do Santos, e a utilizada por Everaldo, na Copa do Mundo de 1970. “Consegui essas duas direto com a filha do Everaldo. Não vendo e não troco de jeito nenhum.”

 

Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação

Colaghero exibe com orgulho suas relíquias (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

O movimento na loja é intenso. Pessoas de todas as origens e idades frequentam o espaço. Lucas Moller (18), veio pela primeira vez no Brechó. “Estava pensando em vender uma camisa antiga da família e comprar alguma outra histórica. Procurei no Google e encontrei a loja. Gostei muito e pretendo voltar”, conta, logo após sair com uma edição de 2013 do Corinthians, utilizada pelo atacante Ronaldo.

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Moeller fez questão de sair da loja já usando sua nova aquisição (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

O acesso até o comércio das camisetas está de endereço novo há um mês. Localizada historicamente no andar superior do Brechó do Futebol, o espaço, desde 10 de março, está em funcionamento no Café do Brechó, que fica exatamente ao lado do pub. “O Café nasceu com um propósito: proporcionar uma melhor experiência para nossos clientes e amigos, que agora não dependem mais do bar estar aberto para nos visitar”, destaca o sócio Marccelo Rabelo, 29 anos.

O investimento foi de  R$ 100 mil, e o espaço segue a linha do negócio original: paredes decoradas com fotos e caricaturas de grandes ídolos mundiais como Maradona, Pelé e Van Basten. Os locais Douglas e D’Alessandro também ganharam quadros divertidos, misturados à uma decoração que logo de cara já apresenta o que está por vir. O espaço onde ficam as camisetas, no momento está em reforma e ocupará mais de 100m².

 

Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação

Decoração do Café segue a linha do Brechó do Futebol (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

“Apesar de pouco tempo aberto já notamos uma boa movimentação. Não tivemos nenhum dia sem faturar. Já recebemos até reuniões de empresários de jogadores por aqui, que aproveitam a nossa estrutura e a temática para fechar negócios”, conta Rabelo.

A expectativa agora é criar a Associação dos Comerciantes da Rua Fernando Machado. Assim, Rabelo acredita que terão mais força para viabilizar uma melhor estrutura para a localidade e aumentar o fluxo de pessoas. “Este ano realizamos o St. Patrick’s Day em conjunto. Foi um sucesso. Fechamos a rua e todos se envolveram. Queremos ter essa parceria durante todo o ano e potencializar o negócio de todos os estabelecimentos”, revela. O sócio conta ainda que é natural o frequentador de um dos espaços consumir em outro. “É bem comum alguém comprar um sanduíche nosso para assistir algum jogo no Brechó. Ou pegar alguma almôndega no FOODBall e sentar para trabalhar aqui no Café. Incentivamos e queremos que isso só aumente”, completa.

Os sócios Cologhero e Rabelo, no Café do Brechó (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

Os sócios Cologhero e Rabelo, no Café do Brechó (Crédito: Gustavo Schenkel/Beta Redação)

Além do Brechó do Futebol e do Café do Brechó, há a loja Los Trapos, que comercializa camisas e acessórios esportivos mais casuais, e o FOODBall Resto Bar, restaurante temático especializado em pratos e lanches que levam almôndegas como ingrediente especial.

Estabelecimentos que juntos forma a "Rua do Futebol" (Crédito: Juliano Kracker)

Estabelecimentos que juntos formam a “Rua do Futebol” (Crédito: Juliano Kracker)

Fernando Pinheiro Quines (32) está à frente dos dois estabelecimentos, que funcionam há três e um ano, respectivamente. O empresário vê na cooperação entre os diferentes tipos de negócios a melhor forma de fomentar a Rua do Futebol: “Tanto nós, quanto o pessoal do Brechó, e até mesmo do La Cava, colaboramos uns com os outros. Não somos concorrentes, mas sim parceiros”, destaca.

Com propostas diferentes, os locais também apresentam faturamentos bem distintos. “Com a crise econômica, as pessoas abrem mão de algumas coisas – especialmente do que pode ser menos essencial, como roupas mais casuais de esporte. Por isso, estamos faturando no FOODBall, praticamente, o dobro do que na Los Trapos”. Pensando em retomar o crescimento dos dois espaços, Quines adianta que está com um projeto em andamento com a VOID para transformar a Los Trapos em um espaço que fomente a cena rock de Porto Alegre.

Já com o FOODBall, que recebeu um investimento de R$ 85 mil, e acaba de completar seu primeiro ano de funcionamento, a expectativa é outra. “A proposta foi oferecer uma comida rápida e boa. A rua tem um movimento constante durante o dia. Acabamos entrando na rota de restaurantes que as pessoas frequentam no almoço”, conta Quines. Mas é à noite e em dias de jogos que o movimento aumenta: “A partir de quarta-feira, aumentamos quase em 100% nosso faturamento em relação à segunda-feira, por exemplo. E nos finais de semana duplicamos o faturamento em relação aos dias de semana. Isso acontece porque depois das 18h passamos a comercializar bebida alcoólica e o pessoal acaba ficando mais tempo por aqui”, destaca.

Andar superior do FOODBall (Crédito: Juliano Kracker)

Andar superior do FOODBall (Crédito: Juliano Kracker)

A aposta são em pratos e lanches (hambúrgueres, massas, panchos, petiscos) que despertem a curiosidade dos amantes do jogo dentro das quatro linhas. “O prato que mais sai são hambúrgueres e massas que levam a almôndega Sandro Sotilli (ex-jogador de diversos clubes do futebol gaúcho). Por ele ser bastante identificado com o nosso futebol, montamos a carne com costela e queijo. O pessoal adora e pede bastante”, comenta. Há outros pratos que levam nomes bem característicos de ex-atletas. Celso Roth, Maradona, George Best e Oliver Kahn: todos ganharam versões divertidas e saborosas nas receitas do restaurante.

Cardápio agrada a todos os estilos (Crédito: Divulgação)

Cardápio agrada a todos os estilos (Crédito: Divulgação)

Tamanho envolvimento por parte dos empresários locais, que trabalham diariamente para tornar a rua uma atração turística, chamou a atenção do vereador Kevin Krieger (PP). No fim do ano passado, o político entrou com uma tramitação na Câmara de Vereadores para que a tradicional rua do Centro Histórico de Porto Alegre passa-se a se chamar “Rua do Futebol”.

“Para nós seria fantástico. Hoje já recebemos turistas de todo o Brasil, e de fora, que vem atrás desta experiência que proporcionamos aqui. Mas se isso acontecer, certamente aumentará ainda mais a circulação de apaixonados por futebol na rua”, destaca Rabelo, do Café do Brechó. Segundo Krieger, a comunidade da região aceitou o conceito de “Quadra do Futebol”, pois valorizou ainda mais o bairro. “Sem dúvida, irá contribuir ainda mais para a valorização do esporte e do bairro Centro Histórico.”

Comprovando esta vocação da rua para festas e ações culturais, no dia 13 de maio será realizado o 1º Festival de Cerveja da Rua do Futebol. Organizado pelos representantes dos bares e lojas da localidade, o evento receberá marcas de cerveja de diferentes cidades e promete movimentar o Centro Histórico de Porto Alegre. A certeza é uma só: há demanda e oferta. A solução, agora, é fazer acontecer.

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