Geral

Roteiro de uma fração da greve

De dentro da organização de um sindicato, a Beta Redação relata um ângulo das manifestações da greve geral

Meia-noite e meia do dia 28 de abril, dia de greve geral convocada pelas centrais sindicais. O Uber encosta em frente ao meu apartamento.

Câmera, lentes, carregadores, celulares, fone de ouvido, colchonete, cobertor, uma barra de chocolate e um pacote de balas de menta. Tudo pronto, tudo dentro do carro. Dos fundos da Avenida Baltazar de Oliveira Garcia parte o carro que segue por ruas desabitadas, paisagem que se manterá estática em diversas partes da cidade que normalmente possuem alto movimento.

Um trajeto tranquilo tem fim nos portões do Sindicato dos Aeroviários de Porto Alegre, na Rua Augusto Severo, no bairro São João, entre as avenidas Sertório e Benjamin Constant.

Uma hora da manhã, alguns ainda batem papo, outros ainda estão chegando para passar a noite. Dormem nos carros, em camas feitas de cobertas, nas macas. Minha bateria está zerada, preciso dormir. Coloco todos os aparelhos na tomada e como alguns pedaços de frango. É uma noite calma e com sabor de estreia. Primeira cobertura de greve geral da carreira. Trabalho todos os dias neste lugar, nunca à noite, o que faz toda essa cena de galeto, iluminação artificial, edredom e calça jeans parecer uma espécie de sonho em que os cenários se misturam sem lógica aparente.

Só que aqui há uma lógica. O sindicato mobiliza a sua diretoria e se posiciona contra as reformas propostas pelo governo. Para o sindicato, tratam-se não de reformas, mas de ataques aos direitos dos trabalhadores. Não há aqui uma só pessoa que veja as intenções do governo com bons olhos. A decisão por participar das manifestações foi tomada em assembleia com os trabalhadores.

Me encaminho para dormir no salão de festas da sede sindical, já são duas horas da manhã. Antes de dormir, uma breve zapeada no Facebook, e acabo me deparando com uma publicação em que o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., anuncia que os ônibus circularão normalmente no dia de greve. Sono.

Dia de greve geral

Ainda de madrugada sou acordado pela movimentação das pessoas que já parecem estar acordadas há algum tempo. Preparo um chimarrão e ligo o rádio, acabo sabendo que o prefeito não estava certo. É noite, mantas e luvas fazem parte da cena, assim como cafés, chimarrão, sanduíches e aquele ar gelado que insiste em tornar a sensação do quentinho da cama uma lembrança distante. Bem distante.

Já bastante acordado, até mais do que gostaria. Alguns se deslocam de micro-ônibus, o restante vai a pé, e é com esses que eu sigo. O caminho da Rua Augusto Severo até a Edu Chaves é tranquilo, os ônibus não rasgam os corredores da Sertório como de costume, e o silêncio é quebrado por alguns carros e viaturas da polícia que circulam pela região.

Chegando no cruzamento da Edu Chaves com a 18 de novembro, as faixas saem dos carros para as mãos daqueles que querem parar as ruas. São estendidas e se manifestam contra Michel Temer e contra as reformas. As duas avenidas são bloqueadas integralmente, mas o movimento das ruas ainda é baixo. São 6 horas da manhã, e quem passa por ali está atrasado para um voo ou saindo da cidade. Foi o caso de uma senhora para qual a passagem foi liberada, ao mesmo tempo em que os sindicalistas advertiam: “a gente tá aqui lutando pelos teus direitos também”.

As luzes de sirene poderiam ser dos bombeiros, da Brigada Militar, das ambulâncias do Samu, mas eram da EPTC, que negociou a abertura de apenas uma faixa da Rua Edu Chaves, tornando o bloqueio parcial.

As pessoas buzinam, xingam, se estressam e furam o bloqueio jogando os carros por cima das calçadas.

As pessoas apoiam, aplaudem, gritam “Fora Temer” e algumas até se unem ao bloqueio.

A manhã é fria e incrivelmente fica mais fria à medida que o sol vai surgindo e o trânsito vai aumentado. A reportagem do Correio do Povo encosta e conversa com o presidente do sindicato, ouvindo quais são as intenções da manifestação. A repórter rapidamente fotografa, faz pequenos vídeos, e logo embarca no carro e parte para a próxima pauta.

O céu já é claro quando a Brigada chega para conversar com os sindicalistas, e logo é reforçada por mais um carro, deste vez do pelotão de choque. O comandante então se dirige aos sindicalistas que negociam a liberação da rua. Sete e meia da manhã ela estará liberada, prometem os sindicalistas. Desejam-se bom dia e se despedem.

Cerca de 20 sindicalistas e trabalhadores bloqueiam duas ruas de uma capital no sul do Brasil. É um pequeno movimento no universo de muitas manifestações. Porém, para quem conseguiu bloquear duas ruas com apenas 20 pessoas, foi uma grande vitória.

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