Política

Rio Grande do Sul em crise. De quem é a culpa?

A crise do governo gaúcho vem gerando transtornos e muitas repercussões. No início deste mês, o jornalista David Coimbra publicou uma crítica em sua coluna no jornal Zero Hora sobre a situação de greves e protestos dos servidores públicos no Estado. “Não estou sendo alarmista. Estou ouvindo o alarme soar. O cidadão está com medo e o servidor está com raiva. Quando sentimentos dessa natureza andam juntos, o perigo se torna iminente. O governador precisa agir com urgência. Antes que a tragédia torne a urgência desnecessária”, argumentou.

O texto teve resposta. O governador José Ivo Sartori (PMDB) rebateu as críticas do colunista. Em trecho da carta, o governador diz: “O parcelamento dos salários não é um ato de vontade, tanto que atingiu inclusive o governador, o vice e secretários. O nosso ato de vontade, isto sim, é fazer com que tal situação nunca mais precise ocorrer”.

E os servidores, acham que o governador está ou não fazendo tudo o que pode para lidar com a atual situação financeira do Rio Grande do Sul? A Beta Redação ouviu alguns funcionários estaduais a respeito. Confira, a seguir, o que eles disseram.

A professora Ciça Blaskoski opina, em tom de desabafo, sobre a atual situação enfrentada pelo Rio Grande do Sul:

“Sou professora do Estado há 17 anos, no ensino médio e técnico. Acho que ele [Sartori] tem culpa, sim, pelo que estamos vivendo. Assumiu o Estado, que está há anos quebrado – e, diga-se de passagem, vem muito antes do PT esta dívida -, e ganhou uma eleição se fazendo de coitadinho, para que todos tivessem peninha dele. Ludibriou o povo dizendo que eram todos pelo Rio Grande e agora vira as costas para quem faz a máquina andar. Faz neste instante o mesmo, indo para a televisão chorar. Nós, funcionários públicos, que movimentamos este Estado, estamos sendo tratados como lixo. O Rio Grande do Sul vai falir porque se não há dinheiro girando, não tem economia que sobreviva. E tem mais, há rumores de que além de todo o terror que estamos vivendo, corremos o risco de ser demitidos para tentar equilibrar as contas. É para piorar a situação no próximo ano letivo, porque daí começa o ano e não vai ter quem atenda as escolas”.

No último dia 31 de agosto, Sartori anunciou o parcelamento do salário dos servidores públicos, sendo a primeira parcela depositada no mesmo dia, no valor de R$ 600. Adriana Lucena, diretora da Escola Estadual de Ensino Fundamental Otavio Mangabeira, posicionou-se a respeito, denunciando a situação catastrófica que vivem os professores atualmente:

“Nos meus 18 anos de magistério nunca tinha visto tamanho desespero dos professores. Mesmo desvalorizados pelos governos, pela sociedade e agora até por um deputado de índole duvidosa que resolveu nos chamar de vadios (só esqueceu que quem entende de vadiagem são os políticos) sempre acreditei que os dias melhores chegariam. Jamais imaginei que um dia, naquela sala dos professores onde criamos tantos projetos maravilhosos, eu veria tamanho sofrimento e desespero dos colegas que são sozinhos e não podem contar com ninguém para dividir as despesas do mês. Colegas que pagaram suas faculdades com sacrifício, que se especializaram, que amam ensinar, que muitas vezes tiram dinheiro da própria família para comprar materiais para os alunos e que agora são humilhados. O que está acontecendo com a sociedade? (…) É preciso fazer um professor se expor dizendo que amanhã não terá dinheiro nem mesmo para a passagem? É preciso mesmo acabar com a dignidade dos professores? É isso que merecemos? Pela primeira vez na minha vida não sei se ainda me orgulho de ser professora”.

O professor de História João Bosco Ayala Rodrigues contextualiza a situação conforme seu entendimento:
“Partimos do princípio que ninguém obrigou o governador Sartori a ser candidato e, no momento que partimos dessa condição, o mesmo, até por se tratar de um político experiente, deveria ter o conhecimento da situação de nosso Estado. Fica muito fácil dizer que está se fazendo valer apenas da verdade se o mesmo não apresentou com clareza até agora onde quer chegar com essas ações. A ausência de projeto faz com que as medidas tomadas soem da pior maneira possível. A ausência de diálogo, a falta de transparência nas ações formam um ambiente de negativismo que apenas agrava a situação que nos encontramos! Se o governador tem toda essa preocupação humanitária, e acredito que tenha que ter mesmo, nada justifica a maneira que vem conduzindo essas ações. Ninguém desconhece as dificuldades que enfrentamos, de muitas décadas, aliás. Sabemos que uma reestruturação dos pactos e das relações federativas é primordial, mas jamais será compreensível a geração de um clima devastador. Como gestor e figura humana, [o governado] deve compreender que a ausência de diálogo só aparta e não agrega! Mesmo sendo paliativa a utilização dos depósitos judiciais, a lógica financista não deve ser mais urgente do que a dignidade desses servidores que tocam com todas as limitações nosso Rio Grande! Mesmo com juros abusivos, se a utilização dos depósitos judiciais traz a serenidade necessária para uma discussão transparente e clara sobre uma reestruturação, com certeza vale a pena. A lógica da dignidade humana está acima de uma simples lógica financeira”.
Já para o formando em Economia Gabriel Auler, a culpa não é de Sartori:
Não, não é decisão dele, nem do Legislativo. No Estado temos um problema de endividamento que já vem de muitos anos. Nosso Estado acumula deficit atrás de deficit e não consegue quitar sua dívida com a União. Existem várias formas de se olhar esse problema, mas poucas saídas. Hoje o governo busca flexibilizar o pagamento da dívida, para arcar com os custos de pessoal, e os senadores gaúchos buscam a mudança do cálculo da dívida e sua revisão, o que hoje extinguiria a dívida gaúcha com a União. Outra medida que está sendo tomada além destas e do aumento de tributos é o aumento do limite de saques dos depósitos judiciais. Algumas mais efetivas e outras menos, nenhuma dessas resolve realmente o problema das contas do Estado. Nosso problema é estrutural. Precisamos de revisões nas questões da previdência e do funcionalismo público para que se possa criar uma base que gere resultados positivos nos próximos anos”.

 

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