Economia

Economia importada de Angola impulsiona afroempreendedorismo

Salão de beleza dedicado ao cabelo Afro é destaque no âmbito afroempreendedor em Porto Alegre

Divulgação Trans África

A prática empreendedora vem crescendo no Brasil, sobretudo quando diz respeito à população negra. A partir de dados do Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2014, o Sebrae realizou um estudo que revelou que quase metade das micro e pequenas empresas brasileiras são comandadas por empreendedores negros. De 2001 a 2011, a quantidade de empreendedores negros cresceu 29% (entre os que se declararam brancos, o crescimento foi de 1%).

Essa movimentação empreendedora negra é chamada de afroempreendedorismo. Entretanto, de fato, o que representa o movimento afroempreendedor no país? A presidente da Rede Brasil Afroempreendedor (ReAfro) Ruth Pinheiro explica que ele “reflete a dimensão, o significado e o alcance da proposta de crescimento e fortalecimento do empreendedorismo afro-brasileiro com qualificação e capacitação de afroempreendedores”. A entidade, que tem como principal objetivo fomentar e estimular a ação empresarial, desenvolve atividades de apoio aos associados  empreendedores e empresários afro-brasileiros por todo Brasil.

Ainda de acordo com dados do PNAD, a maioria dos empreendedores afro estão entre as mulheres e, contrariando a crença geral, os dados apontam que eles abrem seus negócios na maioria das vezes por oportunidade e menos por necessidade ou devido ao desemprego. A juventude negra está passando por uma mudança cultural, que vem ocorrendo de forma gradativa. “Eles estão percebendo que o empreendedorismo pode ser uma forma de protagonizar uma transformação de alto impacto social e econômico”,  conclui Ruth.

Neste contexto, Elisa Ricardo Mateus, 27 anos, se encaixa bem no exemplo da jovem afroempreendedora. Em 2006, aos 16 anos a garota foi uma das responsáveis por iniciar o negócio que em 2017 completa uma década.

Tudo começou quando em 1999 o pai de Elisa, beneficiado por um programa de incentivo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que concedia bolsas de estudos, migrou de Angola para Porto Alegre. Três anos mais tarde, a mãe, Elisa, o irmão caçula e uma prima mudaram-se para cá.

As coisas não estavam fáceis, o pai de Elisa perdeu a bolsa, o que agravou a situação financeira da família, diante disso ela e a prima Susana perceberam que uma prática comum em seu país de origem poderia render algum dinheiro. Em Angola é da arte de fazer tranças que provém o sustento da maioria das famílias. “As meninas de lá já nascem trançando”, relata Elisa.

Foi com as tranças que elas conseguiram melhorar a renda da família. “Pegamos uma caixa vazia de leite e escrevemos “Faz-se tranças” e começamos a atender em casa, no bairro Partenon. O pequeno quarto transformava-se em um modesto espaço para receber as clientes que queriam ter seus cabelos entrelaçados pelas mãos das meninas.

Com o dinheiro das primeiras clientes elas investiram na divulgação do negócio. “Mandamos fazer uma faixa divulgando nossos serviços, compramos folhas brancas e canetas marca-texto nas cores amarelo e laranja para confecção dos nossos próprios cartões de visitas”, relembra Elisa. Com os cartões de visitas prontos, foi a vez de investir na imagem, compraram kanecalon, uma espécie de cabelo sintético, muito utilizado hoje para confecção das perucas de cosplay e fizeram modelos de tranças diferentes em si mesmas. “De cabelo impecável e cartões prontos fomos às ruas divulgar nosso trabalho”, recorda a jovem, orgulhosa.

DSC_0019

As tranças sempre estão na moda, são versáteis, combinam com todas as estações e ocasiões.  Foto: Liege Barcelos

Em novembro de 2007, depois que o quarto da casa ficou pequeno para atender a demanda de clientes, a Trans África que literalmente já fazia a cabeça das moradoras do bairro Partenon conquistou Porto Alegre.

Localizado na avenida Bento Gonçalves, 1751, o salão é especializado em tratar e oferecer procedimentos às mais diversas texturas de cabelos afros. A equipe é composta por nove cabeleireiras, uma manicure, recepcionista e a gerente. “As tranças continuam sendo o carro-chefe do empreendimento. Recebemos clientes com diferentes texturas de cabelos, inclusive homens que desejam ter seus cabelos trançados na Trans África”, conta Anelise Pereira, gerente do salão.

Prestes a completar dez anos e agora consolidada no mercado de cabelos de Porto Alegre, Elisa relembra que passou por situações inusitadas. “O afroempreendedor ainda enfrenta muitas dificuldades, porque o racismo no Brasil não é história, é uma realidade diária. Já nos deparamos com as situações mais constrangedoras possíveis, a ponto de fornecedores simplesmente não acreditarem em um estabelecimento de um negro. Mas graças a Deus, as dificuldades estão sendo ultrapassadas e os desafios de autoafirmação vencidos a cada dia. Porque Obama já disse “nós podemos” e eu digo já fizemos”, conclui Elisa.

Empreendimentos como a Trans África contribuem para consolidação da  identidade negra e o cabelo é, sem dúvida,  uma forma de autoafirmação. “Mesmo com uma vasta opção de estabelecimentos, ainda ouvimos das clientes sobre a dificuldade de encontrar um salão que trate cabelo afro. O segmento da beleza tem que acordar para o fato de que não existe cabelo ruim. CABELO BOM É CABELO BEM CUIDADO”, sentencia Elisa.

Lida 1927 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.