Cultura

Referências de um artista que se reinventou para conquistar sua arte

O bonequeiro André Guedes apostava em sua intuição e buscou espaço e reconhecimento profissional

Alguns dos personagens confeccionados e manipulados por André Guedes / Foto: Laura Gallas

 

Uma mente inquieta, uma sina de superação pessoal e profissional e muito bom humor. A arte nos ensina viver com pouco, o teatro nos transmite saber diferenciar o bem do mal, o bom do ruim, o alegre do triste. Nos ensina, até mesmo, buscar novas oportunidades quando há necessidade, ou então, obrigação. Um artista de rua, seja ele em qual performance, tem uma cabeça cheia de ideias, repleta de histórias e ótimas intenções com o que sabe fazer de melhor e mais puro. A arte do teatro de bonecos é simples, mas é carregada de verdades e de sentimentos.

Ao conhecer o bonequeiro André Guedes de 42 anos e 22 de carreira, imaginava que toda essa descrição acima poderia ser apenas clichê ou rótulo. Imaginava também que não teria como viver de uma arte, digamos, pouco difundida, mas que busca seu verdadeiro espaço. Aos poucos, prestando atenção em cada palavra dita por ele, entre um gole de café e outro, fiquei à vontade e percebi que todas aquelas ideias malucas, para mim continuam sendo a verdade que ele, como ator, diretor e manipulador de bonecos deseja externar para o público.

Um cérebro agitado, pensativo. Guedes é bacharel em História pela PUC-RS, chegou a lecionar em escolas da capital, mas na verdade, a intuição sempre o chamava para as atividades corporais e relacionadas à arte da interpretação. Aos 18 anos ele conheceu o teatro de rua em Porto Alegre, desde então, persistia no aprendizado e na evolução. Entre um espetáculo novo e um tombo, novas pessoas surgiam, outros ensinamentos e mais uma superação.

Aprender para poder se reinventar

Aos poucos, amigos próximos compartilhavam conhecimentos e técnicas, e como se não bastasse a mente intuitiva de André, a facilidade para se adaptar com novas oportunidades também estava a seu favor. De forma despretensiosa, iniciou na confecção de bonecos para manipulação. Ele nem imaginava que a argila e pequenos pedaços de jornal colados nessa casca de barro pudesse fazê-lo, novamente, descobrir suas capacidades de se reinventar.

Com a Cia Theatral Goliardos formada e na bagagem alguns espetáculos de sucesso, a necessidade de viver mais próximo do teatro de bonecos fez com que Guedes se mudasse para Canela, na Serra. Sua primeira apresentação no Festival Internacional de Teatro de Bonecos tornou a carreira desse homem bastante simples, mas fissurado por aquilo que faz, em mais um degrau conquistado.

 

 

Um espaço para disseminar a arte bonequeira

Viver da arte teatral e bonequeira para André Guedes foi na base de tropeços, de falta de dinheiro e de apoio, de muitos ‘nãos’, mas a inquietação do artista nunca deixou que pequenos e grandes percalços o fizessem desistir de um sonho, de ter um espaço dele, sem depender de aportes financeiros. Criou-se o Estúdio do Bonecos, dos quais, marionetes, fantoches e muitos outros, confeccionados por ele, aqueles que possuem vida e voz quando ele se aproxima.

Pequeno Príncipe, João e Maria, Frida Khalo, Marlyn Monroe são alguns dos bonecos feitos por ele, o interessante mesmo era identificar como ele conduziria cada personagem e sua encenação. As técnicas de manipulação desenvolvidas por ele hoje são: manipulação direta, balcão com gatilho, marionete, fantoches e marote. Mas, e o resto? Cenário, texto, sonoplastia, interpretação? Tudo a cargo do autodidata e expressivo André Guedes. Segundo ele, cada palavra lançada nos espetáculos reflete o momento em que ele está vivendo, não só na apresentação, também na confecção dos bonecos. “Os bonecos me inspiram e me conduzem, não consigo interpretá-los, sem estar manipulando”, conta.

Um sonhador perseverante

Amigos próximos de André costumam dizer que ele é um sonhador. A atriz, diretora, professora de teatro e também coordenadora do departamento de Artes Cênicas da Fundação Cultural de Canela, Lisiane Berti, o descreve como um “incansável batalhador, aquela pessoa que sonha e faz de tudo para realizar o seu desejo”. Guedes e Lisi se conhecem há, pelo menos, 10 anos, mesmo tendo perdido o contato por algum período, após ele se instalar em Canela, a amizade e a parceria de trabalho foram reacendidas. André conta que sempre está por perto de Lisi para dar pitacos.

Descrito por André, o mundo dos bonecos é bastante desleal, é preciso sempre estar por perto de pessoas que incentivam, que ajudam e que, acima de tudo, enxergam a sua arte de maneira que ela possa tocar o público.

Confira abaixo galeria de imagens do artista André Guedes e o espaço cultural para apresentação de suas peças teatrais. Fotos: Laura Gallas

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