Esporte

Skate: quatro rodinhas e um universo de possibilidades

O skate passou de esporte marginalizado às Olimpíadas, mas seu poder está mesmo é na transformação de vidas

Gabriela Wenzel e Virgínia Machado

O barulho das rodinhas e do shape do skate batendo no cimento já são sons comuns para quem passa pela Praça Alexandre Ribeiro, em Esteio. O espaço, antes denominado Praça Coração de Maria, ganhou o novo nome em homenagem a um dos skatistas que mais incentivaram o esporte na cidade. Alexandre foi assassinado em abril de 2007, e foi um dos primeiros atletas profissionais formados no município. O ambiente mágico da praça parece despertar os instintos coletivos de uma nova geração, que cresce com boas referências de um esporte que ainda é marginalizado pela sociedade.

 

Guilherme da Luz é skatista profissional, e natural de Esteio./ Foto: Virgínia Machado

Guilherme da Luz, natural de Esteio, é skatista profissional. Foto: Virgínia Machado/Beta Redação

 

Guilherme da Luz, skatista há 17 anos, cresceu na praça vendo os meninos andando e foi encorajado constantemente pelos mais velhos. A parceria não é novidade, já que o skate é parte de uma cultura de vida, e não somente uma prática esportiva. “Conheci vários lugares por causa do skate. Estive na China, em Barcelona, e várias cidades do país por causa dele”, conta. Gui da Luz, como é conhecido, começou arriscando manobras em skates emprestados pelos amigos, e hoje é um dos atletas mais conceituados da cena, sendo patrocinado por diversas marcas criadas também por skatistas.

A pista de skate é local ocupação e intervenção urbana. / Foto: Virgínia Machado

A pista de skate é local de ocupação e intervenção urbana. Foto: Virgínia Machado/Beta Redação

 

Skate e transformação social

A prática do esporte é vista pelos skatistas como uma forma de mudança pessoal, de atitude em relação à vida. Daniel Crazy, de 36 anos, avalia o impacto do skate na inclusão social, pois muitas crianças se interessam pelo esporte e veem nele uma possibilidade de “sair do crime” e levar uma vida melhor. “[A criança] melhora com os pais, melhora na escola, começa a entender mais as coisas e de compreensão, de amizade, de companheirismo. Porque o skate não prega a competição, e sim o lifestyle”, explica o skatista profissional, que iniciou na década de 90, umas das épocas mais importantes para o crescimento do esporte.

De lá para cá, muita coisa mudou. O skate, que começou ligado à contracultura na cena urbana, hoje também se mostra como uma possibilidade de atuar na cena nacional e internacional do esporte. “Hoje em dia o skate se transformou muito por conta do business, virou um mercado milionário, e a gente que começou desde as ‘antigas’ consegue enxergar isso de outra forma”, relata Crazy.

Segundo o Instituto Datafolha, em pesquisa encomendada pela Confederação Brasileira de Skate (CBSk), atualmente são 8,5 milhões skatistas pelo país. O perfil dos praticantes aparece principalmente entre os mais jovens: 36% têm entre 11 e 15 anos. Além disso, a pesquisa também aponta que 47% dos esportistas vêm da classe C, enquanto 3% são da classe A.

 

Nova geração

 

Gabriel Vieira é um dos destaques da nova geração./ Foto: Virgínia Machado

Gabriel Vieira é um dos destaques da nova geração de Esteio. Foto: Virgínia Machado/Beta Redação

 

A prática do esporte também está muito ligada ao companheirismo. Melissa Campos, mãe do atleta mirim Gabriel Vieira, acredita que o skate mudou a vida do filho, que passou a utilizar a prática para trabalhar sua hiperatividade. “De todos os esportes, o skate é o que mais incentiva a amizade. Aqui ele aprendeu manobras, mas também aprendeu a conviver com outras pessoas, respeitar o espaço alheio e apoiar o amigo que precisa”, completa. Melissa vai a todos os campeonatos que Gabriel participa, sempre incentivando o sonho do filho de se tornar atleta profissional. “Ele faz o que gosta. Eu quero que ele saiba que apoio ele, desde que sempre dê prioridade para os estudos, porque não sabemos o dia de amanhã”, enfatiza a mãe orgulhosa.

Apesar de o Skate integrar os Jogos Olímpicos a partir de 2018, ser skatista ainda significa conviver com os danos de uma cultura social que não aceita o “carrinho”, como chamam carinhosamente a dupla shape e truck, peças que compõem um skate. Além de instrumento para as manobras, o skate também é visto como um meio de transporte e, mais ainda, como um incentivo para que muitos jovens deixem de conviver com práticas que não contribuem para o crescimento pessoal. Nesse ponto, os profissionais são enfáticos: a mudança é real, e acontece todos os dias, em uma pista de skate bem perto de você.

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