Política

Quantas vozes são necessárias para ecoar um impeachment?

Terceiro “Fora Temer” percorre as ruas da Capital e termina sem transtornos

Caroline Paiva e Virgínia Machado

 

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(Foto: Caroline Paiva)

Para um desatento passante no Mercado Público, as vozes ao fundo, que misturavam-se ao vermelho das bandeiras, eram uma realidade distante. Apesar da batucada afiada e do cheiro de quentão e churrasquinho no ar, a união deixou de ser uma festa da democracia. Desta vez, o protesto surgiu com a face de embate. O terceiro ato contra o governo do presidente interino Michel Temer (PMDB), ocorrido na quinta-feira (19), instigava uma atmosfera mais próxima das jornadas de junho de 2013 do que das manifestações contra o impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff.

Chamado também de “Ato Contra o Golpe”, o protesto reuniu uma grande diversidade de pessoas. Mesmo com classes, cores e idades distintas, todos entoavam os mesmos gritos. Dentre os mais diversos, o já conhecido “Fora Temer” ecoou junto a outros bordões, tão fortes quanto. “Golpistas, fascistas, não passarão”, “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a Ditadura. E ainda apoia”, “Nós somos o povo e esse golpe nós vamos derrubar. Nós somos o povo e Michel Temer nós vamos derrubar” eram alguns deles. Mas a força por muitas vezes se intercalava com o lúdico. “Ai, aiaiai, empurra o Temer que ele cai”. E também com o convite. “Vem, vem, vem pra rua, vem, é contra o golpe”.

O evento no Facebook apontava cerca de 7 mil interessados e quase 6 mil confirmados, mas saindo do virtual, o eco das vozes era ainda maior. Organizadores indicaram a presença de 10 mil. A Brigada Militar não apresentou estimativas. Os milhares de pessoas que de fato compareceram se encontraram na Esquina Democrática, às 18h, e percorreram as ruas do Centro e da Cidade Baixa, em uma manifestação que intercalava gritos de ordem contra Michel Temer e “denunciava um golpe misógino”, como apontou a estudante secundarista Lisiane. Ela também participa da ocupação da Escola Estadual de Ensino Médio Padre Réus. “Precisamos ocupar tudo”, afirmou.

Além dos gritos contra o golpe e contra Temer, bonecos dele, do governador José Ivo Sartori e de presidente afastado da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha foram queimados em frente ao Palácio Piratini. Eles criticavam também o projeto de lei 44/2016, do governo estadual, que pode qualificar escolas como organizações sociais, além de sugerir parcerias com a iniciativa privada. Essa é uma das reivindicações dos jovens que ocupam as instituições de ensino do Estado.

Assim como Lisiane, muitos outros jovens se espalhavam pela larga Avenida João Pessoa, mas não estavam sozinhos. Senhoras como dona Cereninha, de 72 anos, gritavam suas insatisfações em alto e bom tom, reafirmando o direito conquistado com muito custo em tempos difíceis, como na ditadura militar. “Eu estava preocupada com a juventude que parecia tão quieta, mas vendo vocês jovens aqui, resgatou algo muito bom dentro de mim”, contou ela com sorriso de quem já escolheu seu lado da trincheira há bastante tempo. Ela contou, ainda, caminhando a passos lentos e carregando uma bolsa com roupas na mão, que veio do interior especialmente para participar da manifestação. “Avisei meu marido que eu deveria estar aqui. Sempre lutei pelos meus direitos e agora não seria diferente”, concluiu a aposentada, para em seguida entoar junto a outras mulheres o grito “nem recatada, e nem do lar, a mulherada tá na rua pra lutar”.

 

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Foto: Caroline Paiva

 

“É contra o golpe.” A frase repercutia na voz do ambulante Evaldo, de 47 anos, que já participou dos outros protestos. “Eu sou contra o impeachment!”, dizia, ao mesmo tempo em que vendia bebidas. Jorge, de 50 anos, funcionário público e militante do PT também, disse estar desde 1983 nas ruas por seus direitos, e via o ato como uma manifestação em defesa da democracia. “Conquistamos ela há 30 anos e precisamos mantê-la”, acrescentou.

Observando da porta do prédio, Iara Cardoso, 76 anos, mal conseguia conter a empolgação. Balançando os braços e batendo palmas, ela tentava dizer o que a voz não podia alcançar. “Uma presidente mulher, eleita pelo povo, ela incomodou eles”, explicou, com a calma de uma mãe. “Eles fizeram isso para mostrar que não adianta descobrir Lava Jato, eles são mais fortes e mais poderosos do que nós. Tudo que ela ia fazer dependia deles: Câmara, Senado. É golpe, não deixaram ela trabalhar”, completou. Quando questionada sobre o motivo do apoio, a resposta veio enfática: “Porque sou mulher. Se eu tivesse saúde estava na rua lutando também”.

Durante o trajeto, era possível observar alguns manifestantes fazendo grafitagens com stencil em muros e placas. A maior parte delas foi feita na sede municipal do PMDB, partido do presidente interino. Ainda assim, não houve nenhum momento de conflito. Moradores exibiam bandeiras e faziam “panelaços” nas sacadas dos prédios, em apoio ao movimento. Após percorrer as ruas da Cidade Baixa, os manifestantes se dirigiram à Avenida Loureiro da Silva, onde ocuparam, por cerca de duas horas, a via central. Ali realizaram atividades lúdicas de protesto, como o “quem não pula é golpista”, além de sentar no chão e entoar novos gritos, desta vez em direção à BM, que aguardava no final da rua. “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar” e “Que vergonha, que vergonha deve ser, espancar trabalhador para ter o que comer” eram os mais ouvidos.

 

 

O tenente-coronel Mário Ikeda, comandante do policiamento da Capital, em acordo com lideranças de coletivos que participavam do ato, concedeu até as 21h para liberação da via, caso contrário as ruas seriam desobstruídas pela Brigada Militar. Os líderes solicitavam que não houvesse violência por parte dos policiais e enfatizavam a pacificidade do ato desde a saída do Centro até a chegada na Cidade Baixa. Já Ikeda solicitava que em outros protestos a BM fosse previamente avisada sobre o itinerário, a fim de evitar enfrentamentos e desvios no trânsito.

Para João, militante libertário, a ação deveria ser de resistência. “Não se pede licença para fazer revolução”, enfatizou o jovem, que criticou a postura dos partidos de esquerda que aceitaram o acordo com a BM. “É preciso defender os direitos do povo, e esta polícia defenderá sempre o direito do Estado e não de seus cidadãos”, completou.

Sem confrontos, o ato terminou por volta das 22h.

Veja abaixo, na galeria (com fotos de Caroline Paiva e Virgínia Machado), momentos da manifestação:

 

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