Esporte

Psicologia ajuda atletas a superarem metas

Equilíbrio entre corpo e mente é necessário para competições de alto rendimento

O elevado nível de exigência emocional de determinadas áreas esportivas atrai atletas a usufruírem dos benefícios da psicologia do esporte, especialidade da psicologia clínica geral que corrobora com a melhora do rendimento físico dos esportistas. Em sessões de análise, o profissional da área psicológica avalia possíveis dificuldades encontradas pelos atletas. “Quando se fala da psicologia do esporte, a ideia é a gente capacitar o atleta para que ele conheça a si mesmo. Analisamos de que modo costuma reagir diante de certas situações, vendo o que já está funcional. Desse modo, podemos melhorar ou neutralizar determinados incômodos”, destaca a psicóloga do esporte Márcia Pilla do Valle.

O atleta deve estar aberto a reconhecer suas dificuldades a fim de minimizá-las de maneira autônoma, sem necessitar da presença do psicólogo nas competições, o que é bastante comum devido à prioridade das equipes que, atualmente, requerem um atendimento mais coletivo. “O psicólogo geralmente é o último a ser chamado às competições, pois a análise psicológica é realizada individualmente, respeitando as características de cada atleta. Ninguém é um robô, mas se tu sabes que algo te incomoda, deve criar uma estratégia para minimizar ao máximo essa distração.”

De acordo com o nadador paulista Luiz Gustavo Forato Gomes de Barros, de 21 anos, a manutenção do foco e da autoconfiança são benefícios das sessões psicológicas. “Corpo e mente devem estar em equilíbrio para que eu possa fazer uma boa competição. É um trabalho técnico que aprendemos durante nossos encontros, o qual é colocado em prática em conjunto com os treinamentos de natação”, afirma Barros, que compete pelo Clube Grêmio Náutico União de Porto Alegre (GNU).

 

(Atleta do Grêmio Nautico União competindo | Foto: Luiz Gustavo Forato Gomes de Barros)

Atleta do Grêmio Náutico União competindo. Foto: Luiz Gustavo Forato Gomes de Barros

 

Iniciação na psicologia

A iniciação prévia do paciente nas sessões também é um fator que contribui com a psicologia do esporte. Segundo Márcia, o atleta deve procurar o mais cedo possível esse auxílio, buscando desenvolver desde jovem a saúde mental exigida pelas competições de alto nível. “Já atendi crianças que, ao chegar na fase adulta, sabiam lidar com suas dificuldades, pois aprenderam desde cedo a controlar suas emoções. É diferente começar um trabalho com atletas mais velhos, pois alguns carregam certos vícios que exigem um trabalho mais específico do psicólogo”, destaca Márcia.

A faixa etária dos 15 anos é considerada critica devido às mudanças corporais e à adequação do adolescente às novas perspectivas sociais. “É nesse momento que muitos pensam se realmente serão atletas profissionais. Eles refletem se estão dispostos a abrir mão dos namoros e das festas em favor do esporte”, relata Márcia, que ainda revela a elevada evasão de meninas devido à exigência corporal em determinados esportes. “Sempre há um limiar entre saúde e doença quando falamos de esporte de rendimento. São muitas lesões recorrentes e, algumas vezes, o atleta não consegue nem se alimentar corretamente. Enfim, não é para qualquer um.”

 

Família

Dono de sete títulos nacionais na prova dos 1.500 metros nado livre, em três oportunidades conquistando o recorde brasileiro, Luiz Gustavo Barros revela que a psicologia do esporte é um auxilio às questões pessoais. “Essa ajuda não é só profissional. No meu caso ela também me faz lidar com a distância da minha família, pois sou de São Paulo e passo muito tempo longe dela. É um auxílio que reflete tanto no esporte quanto na vida”, diz Barros, também medalhista de bronze no Sul-Americano de Maratona Aquática e oitavo colocado na Copa do Mundo de Maratona Aquática.

Conforme Márcia, é importante conhecer e manter contato com a família dos atletas, principalmente quando esses são menores de idade. “Sempre procuro deixar em aberto esse canal entre mim, a família e o atleta. Algumas vezes os pais só querem ajudar, mas acabam impondo questões que se sobrepõem aos ensinamentos e pedidos dos treinadores, o que prejudica o desempenho do atleta”, destaca Márcia.

 

Competição

Com o objetivo de minimizar o sentimento de frustração perante derrotas em competições, a psicologia do esporte ajuda os atletas a definirem metas. “Frustração faz parte da vida, e nos treinamentos eles lidam com frustrações o tempo inteiro. Focar só no resultado aumenta a probabilidade de decepção, pois ele é multifatorial. Não depende só do atleta, mas também de condições climáticas, do adversário, entre outros detalhes que não podem ser controlados. Dessa maneira, estabelecer metas, construir o autocontrole e pensar em como chegar ao resultado desejado são modos de ajudar o competidor a atingir o sucesso”, destaca Márcia.

 

(Seletiva Olímpica para a Rio2016 | Foto: Anna Magagnin/GNU)

Viviane Jungblut, nadadora do Grêmio Náutico União. Foto: Anna Magagnin/GNU

 

A frustração de ter um rendimento abaixo do desejado numa competição foi o principal motivo para a nadadora do GNU Viviane Eichelberger Jungblut, de 20 anos, buscar ajuda. “Queria entender o que estava acontecendo. A psicologia do esporte me ajudou, em algumas semanas, a ser autoconfiante e a ficar mais tranquila. Duas semanas antes da seletiva olímpica, tive caxumba. Fiquei preocupada com meu rendimento, pois estava numa boa sequência nos treinamentos, mas mantive a cabeça no lugar e ganhei a competição, inclusive baixando meu tempo na prova”, exalta a nadadora, que por pouco não atingiu o índice exigido às Olimpíadas do Rio, em 2016. “Pequenos detalhes fazem a diferença em esporte de alto nível. Nesses casos, a psicologia é essencial”, diz Viviane.

 

Veja entrevista de Viviane Jungblut ao canal SporTV após vitória no Troféu Maria Lenk, este ano:

 

Histórico

A psicologia do esporte surgiu entre o século XIX e XX, através de pesquisas experimentais realizadas em laboratórios. A compreensão de que ciclistas acompanhados tinham maior motivação do que aqueles que pedalavam sozinhos revelou, à época, que o emparelhamento físico exigido pela alta competitividade esportiva já requeria algo além dos treinamentos convencionais.

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