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Atendimento às mulheres não segue protocolos do SUS

O Serviço Único de Saúde apresenta falhas em relação ao público feminino e gera desconforto durante consultas médicas

Por mais que existam protocolos municipais de acolhimento de pacientes com diferentes opções sexuais, muitos profissionais da área da saúde pública ainda não sabem como lidar com essa questão e, às vezes, acabam gerando incômodo e desconforto nessas pessoas. Um dos públicos que ainda se sente desconfortável é o de mulheres lésbicas.

A Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre disponibilizou uma série de protocolos de atendimento para os mais diversos públicos femininos. Existe, de fato, uma normativa de atendimento para lésbicas que explica de que forma o atendimento deve ser conduzido pelo profissional. No entanto, esse protocolo, além de não estar sendo seguindo, foi baseado apenas em três grandes postos de saúde de Porto Alegre, ou seja, não abrange a totalidade de pacientes do município.

 

(Foto: Ronaldo Silva/AGECOM)

Atendimento à mulher, de qualquer opção sexual, deve ser realizado sem gerar incômodo ou desconforto. Foto: Ronaldo Silva/Agecom

 

Para a ex-militante da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) Naiara Malavolta, a existência do protocolo não garante que o atendimento seja de excelência. Ela enfatiza que, há algum tempo, a entidade realizou uma pesquisa que ouviu médicos e mulheres sobre o assunto. “Constatamos que não existe um preparo para que o profissional saiba como abordar questões sexuais. Muitos médicos não sabem como abordar essas questões com suas pacientes. Por vezes, não é questão de preconceito, e sim de desconhecimento”, destaca.

Após a pesquisa realizada pela LBL, foram realizados quatro treinamentos com cerca de 400 profissionais para tratar de temas como a abordagem na primeira consulta, a primeira pergunta, entre outros. Com essas estratégias, o direcionamento do atendimento acaba ficando mais fácil. “Muitos dos médicos relataram que não existe preparo na faculdade de Medicina para tal abordagem. Não se fala de sexo, muito menos de opção sexual”, salienta Naiara. “O profissional conhece apenas a anatomia e não tem acesso a informações de como lidar com pacientes de opções sexuais diferentes.”

Muitas mulheres relataram, na pesquisa, casos de preconceito no seu atendimento médico. Uma delas, que é lésbica masculinizada, contou que foi à consulta com uma ginecologista e acabou sendo expulsa pela profissional, que chamou a segurança para retirá-la.

 

Despreparo do profissional

A violência contra a mulher também é um caso preocupante na Capital. A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) foi extinta em 2015 e deixou muitas mulheres desamparadas. Maria do Carmo Bitt, que trabalhou como coordenadora do Centro Estadual de Referência da Mulher Vânia Araújo Machado (CRMVAM), setor que foi extinto com a Secretaria, destaca que as mulheres chegavam ao Centro através de pedidos de ajuda judicial, e não pelo Serviço Único de Saúde. Segundo Maria do Carmo, não existe omissão médica, mas um despreparo do profissional, que não sabe como lidar com a situação. “Muitos têm vergonha de intervir na vida particular da paciente e não sabem o que fazer. Outros, por vezes, têm medo de oferecer ajuda e acabar hostilizados. O importante é que essa ajuda seja oferecida, por mais que haja uma recusa por parte da mulher”, salienta.

 

(Foto: Ronaldo Silva/AGECOM)

Mesmo que haja recusa por parte da mulher, a ajuda deve ser oferecida pelo profissional. Foto: Ronaldo Silva/Agecom

 

Atenção redobrada nos casos de violência

A ex-coordenadora do Centro de Referência destaca ainda que o médico precisa estar sempre atento a sinais de que sua paciente está sofrendo algum tipo de violência. “O profissional deve prestar atenção nos detalhes, como o histórico médico da mulher, se ela já procurou ajuda médica pelos mesmos motivos, e com que frequência. É importante que sempre seja questionada a razão do ferimento, porque muitas mulheres têm vergonha de dizer que sofreram violência e precisam ser encorajadas a procurar ajuda”, ressalta. Com a extinção da Secretaria, esse serviço ficou prejudicado.

Os dados mais recentes do Observatório da Violência contra a Mulher mostram que, em 2013, no Rio Grande do Sul, mais de 25 mil mulheres tiveram lesão corporal em decorrência de violência doméstica, e 92 mulheres morreram por crime de feminicídio. Esses dados comprovam a importância da existência de um órgão especializado em saúde da mulher e focado em casos de abusos domésticos. Com isso, segundo Do Carmo, é preciso que as faculdades de Medicina preparem seus futuros médicos para situações como o atendimento a mulheres de diferentes opções sexuais e o encaminhamento de vítimas de violência a um tratamento mais específico e cuidadoso.

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