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Protegidas por uma flor

Para coibir assédios, 99Taxis lançou opção que permite ao público feminino escolher motoristas mulheres

A empresa 99Taxis realizou levantamento para entender o que poderia ser feito para que mulheres se sentissem mais seguras ao usarem o serviço de transporte. A pesquisa foi encaminhada, aleatoriamente, via e-mail, para cerca de 1,8 milhão de usuários do aplicativo.

A consulta apontou que 56,5% das entrevistadas gostariam de ter a opção de serem conduzidas por taxistas mulheres. Além disso, 23% consideram importante que os motoristas não tenham acesso aos dados dos passageiros. 

Após o levantamento, a 99Taxis tomou uma decisão: criou em seu aplicativo opção que permite às usuárias a escolha entre motoristas homens ou mulheres. A alternativa chegou às clientes de São Paulo e Rio de Janeiro no último dia 17. Até o final do ano, será replicada em todo o Brasil, nas 400 cidades em que a 99 atua.  

Ilustração: WikiHow

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Carla Barone, diretora de RH da empresa, conta que a companhia tem frota cadastrada de 400 motoristas mulheres. “Elas aderiram ao projeto, pois entendem que o público feminino terá uma experiência diferenciada quando utilizar os serviços”, observa.

Segundo a assessoria de comunicação da 99Taxis, na manhã do dia 17 de outubro, os usuários receberam um comunicado via aplicativo informando o início do serviço e reforçando que é o uso é exclusivo para mulheres e crianças. O aplicativo passou a contar com um botão no formato de uma flor que acionará motoristas mulheres. 

 

Opção de escolher sexo do taxista é simbolizada por uma flor. Foto: Divulgação/99táxis

Opção de escolher sexo do taxista é simbolizada por uma flor. Foto: Divulgação/99Taxis

 

Outra solução encontrada pela empresa para proteger as passageiras foi incluir em seu aplicativo a opção de ocultar os dados dos clientes. A mudança foi implementada após abaixo-assinado, em 2015, com mais de 27 mil apoiadores, visando a segurança das mulheres durante os trajetos. À época, o aplicativo Easy Taxi também começou a oferecer o serviço.

Ana Clara Leite, 22 anos, foi a autora da petição online. Em entrevista ao G1, contou já ter passado por diversas situações de assédios cometidos por taxistas. “Desde o cara me chamando de linda até um que foi bem invasivo e ficou falando da vida sexual dele”, explicou ao portal.

 

Abaixo-assinado pedindo ocultação dos dados de passageiros ultrapassou 27 mil assinaturas. Foto: Reprodução/Change.org

Abaixo-assinado pedindo ocultação dos dados de passageiros ultrapassou 27 mil assinaturas. Reprodução: Change.org

 

De carona com o medo

Essas funções criadas pelos aplicativos de táxi buscam evitar casos como o de Mariana*. A menina de 20 anos, moradora de Porto Alegre, conta que já sofreu vários tipos de assédios cometidos por taxistas, mas nenhum abuso sexual. “Uma vez um motorista falou que eu era bonita, que queria saber se eu morava onde havia me deixado e o que meus pais faziam”, conta.

Moradora de São Leopoldo, Natália* também relata ter sentido medo dentro de um táxi. A moça relata que um taxista usou seu número de telefone para lhe importunar. Foram meses de aborrecimento.

“Esqueci meus documentos e R$ 50 no táxi. Então, peguei os dados que o aplicativo disponibiliza para tentar reaver. Quando liguei, ele disse que me entregaria os pertences. Como eu estava em aula quando ele passou, deixou meus documentos sem o dinheiro na secretaria da faculdade. Logo depois disso, vieram os SMS”, aponta. “Ele passou meses me incomodando, de março a junho, na verdade. Fiquei com medo de ele me procurar na saída da aula, mas ainda bem que desapareceu”, lembra.

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Natália mostra mensagens que recebeu de taxista. Reprodução: Arquivo Pessoal

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O que Laura* conta também pode ser considerado símbolo de uma situação marcada pelo medo. A jovem de 20 anos mora em Porto Alegre e é portadora da síndrome do pânico. Devido ao transtorno, precisou trancar a faculdade.

Em determinada ocasião, Laura* chamou um táxi pelo aplicativo Easy Taxi para ir de sua casa, na zona sul da Capital até uma clínica de terapia. O trajeto era de cerca de 30 minutos. Tudo ocorreu em dezembro do ano passado: 

“Quando o taxista chegou, abriu a porta da frente. Eu sou muito ansiosa e jamais consigo me impor, dizer que quero ir no banco de trás ou algo assim. Sentei na frente com ele, que começou a conversar comigo sobre assuntos muito íntimos. Perguntou onde eu morava e estudava. Fiquei nervosa e dava respostas genéricas. Olhava pela janela para fingir que não era comigo e sentia ele me olhando”. 

Ilustração: WikiHow

Ilustração: WikiHow

Laura* relata que, durante o trajeto, a situação ficou ainda mais tensa e que precisou tomar uma atitude drástica. “Em determinado ponto do caminho, ele botou a mão dentro das calças. Continuou conversando comigo, como se nada tivesse acontecido. Depois, desligou o taxímetro e começou a ir por um caminho que eu não conhecia. Avisei para todo mundo, via Whatsapp, o que tava acontecendo. Começaram a me ligar, e ele percebeu. Disse para eu não atender, porque a gente só estava conversando. Eu fiquei quieta, e ele disse que não precisava ter medo, que sabe que as meninas da minha idade gostam de atenção. Quando diminuiu a velocidade do carro para fazer uma curva, eu me atirei para fora. Sem pagar nada. Ele gritou da janela que sabia onde eu morava, e eu saí correndo”, conta.

A jovem explica que não sabia onde estava quando saltou do carro. Olhou o celular e viu 10 chamadas não atendidas de sua mãe. Andou um pouco e percebeu que estava em alguma travessa na Avenida Ipiranga. Pegou outro táxi e foi para a terapia, seu destino inicial. Os fatos subsequentes ao ocorrido transformaram a experiência de Laura* em um monstro ainda maior. “Escutei do meu psiquiatra que não devia andar de blusa de alcinha. Escutei do meu namorado que não devia ter sentado no banco da frente. E escutei da minha mãe que não era para denunciar o homem para o aplicativo porque eu não tinha como provar”, menciona.

A rotina da mulher no volante

Anne Costa tem 42 anos e é taxista nos finais de semana desde abril deste ano. Segundo ela, as mulheres buscam contatar motoristas do sexo feminino, pois se sentem visivelmente mais seguras. “Eu tenho uma clientela feminina bem grande de mulheres”, salienta.

A motorista também relata ter sofrido assédios durante o trabalho. “Já me ofereceram dinheiro, fizeram um monte de palhaçada assim, mas eu saí numa boa”, conta.

Anne ainda relata que é muito frequente convites para sexo e até mesmo prostituição. “É a coisa mais normal que existe. Convite para sair, dar voltinha. Também usam o número do telefone para mandar mensagens inescrupulosas”, afirma.

Sobre a segurança nas ruas, Anne explica que a profissão de taxista é extremamente perigosa. “Eu já soube de relatos de colegas que foram até agredidas por passageiros. Temos que ter muito cuidado. Há, também, casos de mulheres que assaltam os motoristas. Hoje já não vivo só do táxi. Não vale a pena”, sintetiza. 

Defesas contra os perigos

Para se prevenir de ameaças, mulheres que dirigem na Capital criaram o grupo Luluzinhas do Táxi. No total, 40 integrantes tratam de assuntos diversos, como ruas trancadas, alagamentos e assaltos.

 

Ilustração: WikiHow

Ilustração: WikiHow

No Rio de Janeiro, embora não seja nos táxis, há outro exemplo de ação para tentar coibir assédios contra mulheres. Metrô e trens da cidade possuem vagões exclusivos para mulheres. Em 2013, o Distrito Federal também aderiu à ideia. 

Há grupos feministas que não veem no “vagão rosa”, como ficou conhecida a iniciativa, uma solução para combater os assédios. A socióloga Marília Moschkovich, repórter da revista Carta Capital, explica, no textoO vagão para mulheres só anda para trás“, que existir um espaço que separa homens e mulheres é uma forma de culpabilizá-las. Na visão dela, seria como dar liberdade aos abusadores, prendendo as vítimas.

“Quer dizer, os homens que assediam podem continuar assediando em outros espaços, sem que isso tenha nenhum tipo de punição.[…] Ao mesmo tempo as mulheres, que sofrem as agressões, são confinadas a um espaço limitado”, diz Marília em seu texto.

O “vagão rosa” também é utilizado em países como Japão, Egito, Índia, Irã, Indonésia, Filipinas, México e Malásia.

Denúncias

Por nota, a assessoria de comunicação da 99Taxis declara que a empresa, ao receber e confirmar a veracidade de uma denúncia, suspende motoristas. Segundo a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC)  de Porto Alegre, denúncias de assédios devem ser realizadas na polícia, pelo fone 190 ou em alguma delegacia. Nesses casos, o órgão diz acompanhar o processo, e, se confirmado o crime, o responsável tem sua permissão cassada, não podendo mais exercer a profissão.

*Nomes fictícios. As identidades das entrevistadas foram preservadas. 

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  • Publicado em: 01/11/2016
  • Palavras chave: #99taxis

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