Política

Protásio Alves ocupado

O colégio de educação pública Protásio Alves, fundado em 1931, é uma das mais de 150 escolas ocupadas no Rio Grande do Sul. Segundo o próprio site do colégio, a missão da instituição é “buscar o crescente desenvolvimento do educando como sujeito crítico, transformador da realidade e comprometido com as causas sociais e políticas”.

Localizado na Avenida Ipiranga, em frente a um dos mais poderosos veículos de comunicação de Porto Alegre, foi ocupado pelos alunos no dia 15 de maio, cinco dias antes de nossa visita.

A ocupação

Chegando no colégio, fomos recebidos por Alynson Pedott, 17 anos, estudante do 2º ano do ensino médio, aluno do Protásio há dois anos. O estudante foi designado para conversar conosco em razão de outros estudantes estarem ocupados com suas funções nas comissões. Pela organização que os alunos montaram na ocupação, visitas devem ser acompanhadas por algum dos responsáveis. Alynson seria o nosso guia.

O estudante conta que tudo começou quando, no início deste ano letivo, as aulas atrasaram por três semanas devido à troca da fiação elétrica do colégio, reforma que, imagina Alynson, poderia ter sido feita durante as férias, mas que só começou no primeiro dia letivo do ano. Segundo ele, a estrutura elétrica do colégio tinha mais de 70 anos e nunca havia sido trocada.

Alynson conta que antes da ocupação os professores estavam fazendo período reduzido. Em seguida houve a paralisação e a decisão de greve por parte dos docentes, o que fez com que os alunos resolvessem unir as causas. “Alguns docentes não grevistas vêm, batem o ponto e ficam na sala dos professores”, conta o aluno, ressaltando que não há nenhum tipo de julgamento aos que não aderiram à greve.

Em assembleia organizada pelo Grêmio Estudantil do colégio, Alysson conta que os alunos foram reunidos e houve uma explicação sobre o que seria uma ocupação e quais seus objetivos. Os estudantes apoiaram o Grêmio Estudantil e começaram a discutir reivindicações. “O colégio tem 1.500 alunos, quando questionei quem estava satisfeito com a educação que estamos recebendo, ninguém levantou a mão”, relata. O ocupação começou com um acampamento no ginásio do colégio, com barracas e colchões, onde os alunos têm dormido à noite.

As reivindicações

A principal reivindicação diz respeito à infraestrutura do colégio. O terceiro andar está em obras, interditado e em desuso. Ao passar pelos corredores, Alynson nos aponta grandes focos de infiltração nas paredes e no teto. “Aquele ali vira uma cachoeira quando chove”, diz, apontando para uma infiltração no teto que tinha mais de 30 centímetros de diâmetro. Uma das chuvas que atingiu Porto Alegre nos últimos tempos prejudicou a biblioteca do colégio. “Perdemos cerca de 60% do nosso acervo”, conta Alynson.

Ao percorrer a escola, nos deparamos com janelas quebradas e pedaços pontiagudos de vidro ainda nas próprias janelas. “Se olhar para baixo vocês veem que tem muitos cacos de vidro caídos”, diz Alynson.

Outra grande reivindicação dos alunos é o refeitório, que durante a ocupação foi improvisado na sala 106. As refeições dos estudantes que estão no colégio são feitas em uma sala de aula com classes agrupadas, simulando mesas de refeitório.

(Fotos: Rodrigo Ávalos)

 

O apoio

Quando perguntamos a respeito do que os pais de Alynson achavam da ocupação, ele riu e disse com orgulho: “Meus pais me apoiam muito! Eu estou fazendo o que eles não conseguiram fazer na época que estudavam. Hoje os estudantes têm muito mais liberdade.” Segundo ele, muitos pais de alunos apoiam a causa, com a maioria das doações de comida e cobertores que recebem vindo das famílias.

Mas não só de dentro de casa vem o apoio. Moradores dos arredores também têm levado doações para o colégio como forma de apoiar e motivar que permaneçam lá, passando por menos dificuldades. “Uma senhora veio aqui e começou a conversar conosco. Ela chorou pela nossa luta, ficou muito emocionada. Foi dela que ganhei esta manta!”, conta, mostrando a peça de lã que usa no pescoço.

A ocupação do colégio Protásio Alves também recebeu muitas doações de DCE’s de universidades. A internet que os alunos usam na sala do Grêmio Estudantil para administrar a página em rede social, por exemplo, foi disponibilizada por um DCE.

Quando chegamos à cozinha estava acontecendo a limpeza. Era por volta de 20h e os alunos haviam acabado de comer.  No estoque de comida há muitas frutas e alimentos básicos como arroz, feijão e massa. Alynson nos conta que, quando eles têm grande quantidade de um item, levam a outras ocupações. “Muitas pessoas deixam doações aqui porque é uma escola mais conhecida e de fácil acesso, então dividimos o que temos em maior quantidade com outras escolas.”

A organização

O Grêmio Estudantil do colégio Protásio Alves montou comissões para que a ocupação fosse organizada e cada um tivesse uma função. Entre elas, alimentação, segurança, geral, comunicação e limpeza.

“Tenho muito orgulho em dizer que temos aqui estudantes de luta”, diz. A página da ocupação do colégio nas redes sociais tem mais de 2 mil curtidas em cinco dias de protesto, porém ainda não receberam qualquer resposta de órgãos do governo. “O pessoal do Emílio recebeu as reivindicações em três dias de ocupação. Caiu o dinheiro na conta da escola e eles desocuparam. Porém decidiram ocupar novamente, porque a ocupação não é somente pelas causas de uma escola, e sim por todas. Vamos aguardar”, diz.

As atividades

Várias escolas estão recebendo aulas de voluntários que apoiam as ocupações e querem ajudar os alunos. No Protásio Alves não é diferente. Já aconteceram aulas de teatro, dança e capoeira, além de um aulão da Rede Emancipa. Enquanto estávamos lá, um estudante da UFRGS foi até o colégio oferecer aulas de filosofia. O Grêmio Estudantil organiza uma agenda de oficinas através do interesse dos voluntários, que contatam o colégio pela página da ocupação nas redes sociais.
O colégio também foi palco do Festival Cultural Escolas Ocupadas que aconteceu no domingo (22), a partir das 15h. O evento tratava como objetivo ocupar as escolas com cultura, música e arte.

 

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