Cultura

Projeto relembra espaços históricos de Porto Alegre

MemoPoa ensina o olha crítico fotográfico de forma lúdica

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As sobreposições das imagens atuais e antigas podem ser encontradas na Usina do Gasômetro. Foto: MemoPoa/Divulgação

 

Já imaginou como eram alguns pontos turísticos da nossa Capital há duas décadas? Nossa cidade passou por várias obras, surgiram prédios com arquiteturas inovadoras e poucas instalações foram reformadas ou viraram monumentos históricos. “Descaracterizaram toda Porto Alegre a partir dos anos 70”, afirma o fotógrafo Anderson Astor, integrante do projeto MemoPoa. A partir do edital Fumproarte Amanhã, os fotógrafos Anderson, Eduardo Aigner e Marcelo Curia decidiram reproduzir diversos pontos da cidade refazendo fotos antigas do mesmo ângulo.

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Foto: MemoPoa/Divulgação

Com objetivo de educar o olhar crítico para as fotografias, o MemoPoa reúne fotografia, história e arquitetura de Porto Alegre. Inicialmente, o resultado deu origem a um jogo de memória de 72 cartinhas impressas, distribuídas às escolas municipais, com um livreto de informações históricas de cada espaço registrado. Cada par deve ser formado com uma imagem atual e uma do passado com ângulos idênticos, do mesmo local em que foi originalmente fotografada. Assim, os jogadores terão contato com a arquitetura, o urbanismo e a história da cidade. “Vamos aprender mais sobre o passado de Porto Alegre, o seu crescimento e progresso, tudo através da imagem e da memória”, explica o assessor de imprensa Alessandro Azevedo. Com apoio da Secretaria Municipal de Educação (Smed), 1 mil exemplares já foram distribuídos nas principais escolas de ensino fundamental da Capital. “O jogo serve para ajudar na visão crítica dentro de Porto Alegre. Nossa proposta é levar e ajudar alfabetizar as crianças a olhar as fotos”, explica Anderson.

A iniciativa do projeto MemoPoa deu tão certo que os três fotógrafos conseguiram montar uma exposição na Usina do Gasômetro, porém de uma forma mais conceitual. “A exposição surgiu depois do projeto do Fumoporarte. Nós participamos do edital de abertura e deu certo. A princípio ficaria só o jogo, mas a ideia foi tão boa que optamos por expor as fotos. Mas a proposta apresentada era diferente. Trabalhamos com a sobreposição das fotos novas e antigas”, explica Marcelo. O trabalho ainda pode ser visto no Gasômetro ou na página do projeto.

 

Da caixinha para a sala de aula

A Escola de Ensino Fundamental Morro da Cruz, na Zona Leste da capital, foi uma das contempladas. As professoras Fernanda Schimeidel e Michele Rossoni adoraram a iniciativa e aplicaram o jogo de memória com as turmas do 4° e 9º anos. “Apesar do jogo ser longo, pois são 36 pares, é uma boa interface para problematizar e observar a noção de tempo”, analisa Michele. Divididos em cinco grupos, os alunos analisaram as diferenças mais perceptíveis com o passar dos anos.

 

As turmas de 4° e 9° ano da EMEF Morro da Cruz se reuniram para jogar o MemoPoa. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

As turmas de 4° e 9° ano da EMEF Morro da Cruz se reuniram para jogar o MemoPoa. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

 

Identificando cada espaço e monumento surgiram lembranças de lendas e reconhecimento dos espaços públicos. “Aqui no morro tem muito o espírito de gueto, da comunidade que não sai daqui. Quando os alunos conseguem reconhecer algum espaço de fora é muito bom! Serve como incentivo para o cuidado, pois quando algo nos pertence a motivação para a preservação é maior. E, assim, eles se sentem dentro da cidade”, explica Fernanda. Segundo as professoras, o jogo de memória ajuda a desenvolver a pesquisa historiográfica, a narrativa e a descrição nas crianças. “Vou aproveitar todo o material enviado, junto com aparato tecnológico (site) para desenvolver trabalhos de história dentro da sala de aula”, explica Michele, que pretende ensinar os alunos a fazer estudos de casos com cada espaço selecionado nas imagens.

 

Evelin Texeira (esqu.), Vinicius Moraes, Gabriel da silvva e Hyago Samuel reconheceram muitos monumentos históricos por meio das imagens. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

Evelin Texeira (E), Vinicius Moraes, Gabriel da Silva e Hyago Samuel reconheceram muitos monumentos históricos por meio das imagens. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

 

Para o aluno da turma C32, do 9° ano, Leonardo Pimentel, o jogo de memória mostrou o quanto Porto Alegre mudou ao longo do tempo. “A experiência foi muito empolgante. Reconhecer os lugares através das cartas me deixou com muita curiosidade. Consegui lembrar de muitos espaços que já visitei, até mesmo em passeios da escola”, afirma. Após alguns minutos de jogo, foi aberto um debate para analisar em grupo as principais percepções. Muitos alunos relataram a dificuldade de juntar as peças, já que muitos lugares estão irreconhecíveis. “Vai ser muito legal sair por aí e lembrar dessas cartas do jogo!”, exclama Leonardo. As principais ideias abordadas pelos alunos foram: como cuidar do passado, como analisar as mudanças, pensamento crítico para perceber as mudanças ruins da cidade, como expressar a opinião e como construir o futuro.

 

Leonardo Pimentel percebeu como Porto Alegre modificou-se ao longo das décadas. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

Leonardo Pimentel, de 15 anos, percebeu como Porto Alegre se modificou ao longo das décadas. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

 

A busca pelo mesmo ângulo

Para chegar até as localizações, o trio pesquisou nos acervos do Museu de Porto Alegre e selecionou 200 reproduções. “Começamos a produção pela pesquisa e percebemos que o museu tem muita referência de arquitetura e urbanismo”, salienta Anderson. Os critérios do projeto foram guiados por dois meios: refazer os locais que estão presentes na memória de Porto Alegre e os que desapareceram da cidade. O exemplo dado pelos idealizadores é a esquina da Avenida João Pessoa com a Rua Sarmento Leite que, antes da construção do Viaduto Imperatriz Leopoldina e da Primeira Perimetral, era a garagem da empresa de ônibus Carris. Para Anderson, o local foi completamente modificado, perdendo a referência.

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A busca pelas fotos começou lentamente pelos pontos mais conhecidos e menos modificados. A partir do momento em que as fotos com acesso mais fácil ficaram prontas, o grupo partiu para novas estratégias. “Quando a gente começou a fotografar, começamos pelo mais obvio porque achamos que não daria certo”, confessa Astor. A nova forma de abordagem foi uma carta distribuída entre os moradores e porteiros dos prédios da capital. O trio foi muito bem aceito e conseguiram executar o trabalho com sucesso. Mas, para ser fiel às antigas produções, os rapazes encontraram alguns obstáculos e precisaram de auxílios. “Teve a Galeria do Rosário que, na hora da foto, o pessoal desistiu. O Hospital Ernesto Dornelles que também não funcionou”, lembra Anderson. “Tivemos que subir no telhado do Palácio do Piratini! Para as fotos da construção antiga, o Casarão da Ilha da Pólvora, tivemos que ir de barco e a única forma de chegar lá foi com a ajuda da Secretária de Cultura”, complementa Curia.

Ao concluírem os dois projetos, os fotógrafos perceberam uma Porto Alegre diferente. Marcelo lamenta que as fotos ilustrem uma cidade feia, na qual as construções ocorrem sem orientações. “A cidade está ficando mais feia, com crescimento desordenado. As pessoas constroem sem olhar pros lados!”, salienta, destacando que muitas reproduções foram prejudicadas por prédios muito altos. De forma crítica, Anderson concorda com o colega. “Eu tenho 40 anos, a cidade não mudou muito ao longo do meu crescimento, mas acabaram com a memória visual do município!”, reclama, ao lembrar que a prefeitura da capital derrubou muitos prédios históricos. Para os idealizadores do MemoPoa, a herança arquitetônica da cidade foi esquecida e tornou-se uma capital sem harmonia e que não olha para trás.

 

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