Cultura

Profissão: contar histórias

A contação de histórias deixou de ser apenas um hobby. Na Feira do Livro de Porto Alegre, um seminário se dedica a essa arte

Quando pensamos na Feira do Livro de Porto Alegre, o que vem em mente são as histórias escritas. Obras encapadas nas prateleiras das bancas que se espalham pela Praça da Alfândega. Mas há nove anos as histórias contadas através da oralidade são destaque no seminário “Arte de Contar Histórias“, que nesta edição trouxe o tema dos contadores e seus instrumentos de contar.

Celso Sisto, escritor de mais de 80 livros infantis, ilustrador e idealizador do seminário, conta que a iniciativa de criar esse evento dentro da Feira do Livro de Porto Alegre serviu para estimular novos contadores de histórias. “O movimento dos contadores era incipiente aqui no Rio Grande do Sul. Havia contadores atuando de maneira isolada e muito dentro das escolas. Era preciso mudar essa realidade. Nosso objetivo é ajudar os contadores a se qualificar cada vez mais, sem perder o foco na qualidade literária das histórias que são contadas”, fala o carioca que há 18 anos mora no Estado. Para o escritor, a arte de contar histórias se sustenta em três pilares: o cuidado com a qualidade do texto, o exercício vocal e o exercício corporal. Sisto defende que o contador de histórias é um mediador de leitura que precisa fazer a “história saltar do livro”. 

O seminário reúne interessados na temática de diversas partes do Estado, e do Brasil, como é o caso de Sandra Lane, contadora de história profissional desde 1991, que veio de Minas Gerais para falar de suas experiências. Sandra é aposentada, mas não deixou de contar histórias. Ela se interessou pelo ofício ainda criança, quando inventava narrativas para outros pequenos. “Eu escutava radionovela. Com alguns trechos eu criava outras histórias, e com objetos que achava na rua criava meus personagens”, lembra a ex-professora, que colecionava vidros de carros, pois acreditava que eram diamantes.

 

 

Sandra conduzindo uma oficina na programação da Feira (Foto: Sabrina Stieler/Beta Redação)

Sandra conduzindo uma oficina na programação da Feira do Livro. Foto: Sabrina Stieler/Beta Redação

 

Segundo Sisto, ao longo da existência do seminário, o público amadureceu e se tornou mais exigente. “Aqui no RS percebemos que a cada ano aumenta o número de contadores profissionais. Isso se deve às feiras de livros que ocorrem em quase todos os municípios. É um estímulo à prática de contar histórias. Percebemos que as pessoas estão investindo nisso como profissão, e nós estimulamos elas a valorizarem esse trabalho”, esclarece.

Pierre André, outro mineiro que faz da contação sua profissão, é exemplo dessa valorização. “Eu já fui até para Portugal contar histórias. Iniciei na área pela influência do teatro. Comecei como voluntário e, nos anos 2000, entrei em um concurso para trabalhar com contação. Nunca mais parei”, relata Pierre, assumindo que era “muito tímido” antes desse processo.

Mas para quem logo pensa que Sandra e Pierre contam histórias só para crianças, Sisto desmistifica. “É um engano que muita gente comete, pensar que contação de histórias é só para crianças. Hoje, nós temos contadores de histórias em bares para adultos. Eu mesmo já contei em cinema, rádio e até TV. Podemos atuar com diversos públicos, como  jovens, crianças, adultos e idosos”, explica. Sisto também esclarece que o boom das contações de histórias se deve à hora do conto que as bibliotecas começaram a realizar ainda nos anos 90. “Esse momento foi muito importante, pois as bibliotecas deixaram de ser apenas um depósito de livros e viraram irradiadores de cultura”, opina.

Sendo através da palavra escrita ou da palavra dita, esses profissionais, que divulgam a literatura e estimulam a leitura, são instrumentos da própria história.

E você? Já contou uma história hoje?

 

Oficinas fazem parte do Seminário que reúne contadores de diversos lugares (Foto: Sabrina Stieler/Beta Redação)

Oficinas fazem parte do seminário que reúne contadores de diversos lugares. Foto: Sabrina Stieler/Beta Redação

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