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Historiador fala sobre apropriação cultural

Seminário Internacional Pós-colonialismo, Pensamento Descolonial e Direitos Humanos na América Latina ocorre final de abril na Unisinos

Professor Orson Soares fala sobre apropriação cultural, racismo e o outras questões que serão debatidas no seminário. Foto: arquivo pessoal

Professor Orson Soares fala sobre apropriação cultural, racismo e o outras questões que serão debatidas no seminário. Foto: Arquivo pessoal

 

Dias 25 e 26 de abril, o campus São Leopoldo da Unisinos será palco da segunda edição do Seminário Internacional Pós-colonialismo, Pensamento Descolonial e Direitos Humanos na América Latina. A Beta Redação conversou sobre o tema com o professor de História Orson Soares, que participa do evento através do Coletivo Fanon, com a publicação de resumos e artigos. Orson falou sobre trajetória, direitos humanos, questões étnico-raciais e apropriação cultural.

O primeiro evento, realizado em 2013, reuniu professores, pesquisadores e profissionais de diversas áreas. Este ano, o encontro conta com uma programação intensa de bate-papos, mesas-redondas, grupos de trabalho e performances musicais online, com nomes de peso envolvidos com a temática.

Orson Soares, leciona há mais de 20 anos, e atualmente trabalha como professor de História da rede pública de Ivoti. Ele está à frente, junto de Walter Lippold Rodrigues, Renata Dariva e Udileia Neves, do Coletivo Fanon, para o qual promove cursos, palestras sobre movimentos de resistência e pensamento africano e latino-americano, com vistas à emancipação dos seres humanos.

Beta Redação: Gostaria que falasse um pouquinho sobre a tua trajetória profissional e envolvimento com os estudos da cultura africana e afro-americana.
Professor Orson Soares: O que faz com que a gente comece a pesquisar determinadas temáticas? Eu acredito que tem muito a ver com a minha trajetória enquanto ser negro num país racista. E a partir desse encontro de um ser negro em um país racista, que percebe que sua comunidade é constantemente invisibilizada, eu decidi frequentar o curso de História.

A escolha do curso de História é também uma tática de militância, é uma estratégia de humanização. Então eu entrei na Unisinos, onde tive o contato com alguns professores que foram referência. Além disso, eu tive a oportunidade de ser bolsista da professora Paula Caleffi, hoje reitora da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro. Ela trabalhava com populações indígenas. Ali foi outro rompimento com essa questão eurocêntrica, pois foi uma imersão na cosmovisão indígena.

Outro fator foi perceber, por conta de um currículo ainda eurocentrado, a não inclusão da História da Cultura Africana. Quando você estuda História, quando lê sobre um negro, é sobre a escravidão, você não estuda as grandes civilizações, as contribuições que a África e seus diversos povos deram ao mundo. Então eu comecei a fazer por conta algumas pesquisas, usando a música, o rap e o samba, principalmente, pois esses eram os materiais que estavam fornecendo informação sobre a comunidade negra de uma maneira positiva, quebrando aquela visão racista de uma África atrasada. Comecei então a organizar alguns estudos, e alguns professores foram pedindo para eu falar nas aulas deles, aí eu fiz parte da ECAU (Estudantes e Comunidade Afro da Unisinos), da qual eu também fui coordenador, e onde a gente pôde ampliar o debate da participação do negro dentro da universidade.

BR: Como nasceu o Coletivo Fanon e qual é o seu propósito?
Soares: O Coletivo Fanon surge mais ou menos nessa época. Pesquisando sobre os Panteras Negras no meu TCC, eu comecei a descobrir as referências que esses movimentos tiveram nos anos 1960. Uma delas foi o Frantz Fanon (psiquiatra, filósofo e escritor), que abriu o entendimento sobre os Panteras Negras e o que é o colonialismo, e eu comentava com um amigo, hoje meu sócio nessa empreitada, professor Walter Lippold, sobre a importância de estudá-lo.

À época, Walter fazia uma pesquisa sobre o movimento Hip Hop, e percebemos que a pesquisa dele e a minha tinham muito a ver, eram uma continuidade uma da outra. A partir daí, criamos o coletivo, começando a pesquisar esses pensadores do Sul do mundo e a trabalhar com formação em espaços formais e informais de educação. Estávamos em quadras de escolas de samba, movimento Hip Hop, universidades, escolas pública e particular, fóruns de debate. Nós conseguimos nos movimentar em diversos espaços, onde começamos a pontuar essas questões. A partir desse momento nós tivemos uma grata surpresa, porque várias pessoas começaram a se interessar.
O Coletivo tem como objetivo despertar as pessoas para a construção de uma outra possibilidade de mundo. Nós entendemos que devemos escutar os povos indígenas, os povos africanos, os asiáticos, que têm uma outra relação com o espaço e com as pessoas.

A relação é holística, é o todo. Você faz parte de um todo. Então, a ideia do coletivo é muito importante, assim como o respeito à natureza e à ideia de que todos, independentemente de cor – que é uma categoria criada -, nos vejamos como partícipes dessa experiência maravilhosa que é ser humano. Até para buscar o sentido da vida mesmo, que não é acumulação de coisas, não é posição profissional, não é ser o sujeito que sai na revista Caras, rindo à toa. A vida não é isso. Isso é a pobreza do ser humano, pobre é aquele que está sempre querendo mais. O Coletivo não tem sede, mas nós conseguimos fazer algo muito interessante com o uso de algumas ferramentas na internet, como as redes sociais. Na nossa página no Facebook nós fornecemos literatura, materiais aos quais as pessoas muitas vezes não têm acesso, estimulando as pessoas a criarem grupos de estudo. Nós também defendemos a ideia do software livre, do Creative Commons, estamos nessa luta também.

BR: Quais questões o coletivo levará para o seminário?

Soares: O coletivo está participando do seminário através da publicação de resumos e artigos. Na primeira edição, em 2013, nós fomos convidados a participar de uma publicação do caderno do IHU com um artigo, no qual apresentamos a experiência do Coletivo Fanon. Nesta segunda edição, eles trouxeram nomes de peso da temática, com destaque a Eduardo Devés Valdés, professor chileno, que é uma das referências sobre a questão do pensamento africano. Nós vamos ter também a participação da ex-ministra da Igualdade Racial Nilma Lino Gomes, dentre outras figuras importantes, discutindo a temática do pós-colonialismo.

BR: O que é o pós-colonialismo e o pensamento descolonial?
Soares: A ideia do pós-colonialismo está ligada ao fim do período colonialista, quer dizer, as potências saem dos territórios, no entanto existe ainda toda uma mentalidade, as estruturas do Estado ainda são moldadas na perspectiva eurocentrada – e um dos objetivos deste seminário é discutir isso. Essa questão do colonialismo também entra na perspectiva da relação que se tem hoje com as cidades. Fanon dizia que havia dois tipos de cidade, a do colonizado e a do colonizador – espaços totalmente desiguais, sendo o espaço do colonizado totalmente desumanizado.

O colonialismo é uma prática que objetiva desumanizar um determinado grupo frente a uma ideia de civilização eurocêntrica, frente a uma ideia de ser humano que seria ser o europeu. Diz-se pensamento descolonial, então, porque ainda enxerga-se a existência desses elementos colonialistas dentro da nossa sociedade latino-americana, africana e asiática. Dentro deste pensamento descolonial, nós vamos ter algumas figuras que defendem uma epistemologia original da América Latina, da África, da Ásia, eles rompem com o fragmento Europa. E não significa negar a Europa, muito pelo contrário, mas fazer com que a Europa se integre a um diálogo com outras formas de conhecer.

BR: Qual a importância desses espaços de diálogo, como o seminário?
Soares: Acho que reside na possibilidade de transformar a maneira como se vem construindo e pensando o mundo. Você cria um espaço de debate e de proliferação de ideias muito importante, mas que não pode ficar limitado ao evento. Isso precisa atingir corações e mentes. E eu acho que um seminário destes pode propiciar uma descolonização da mente, e podemos usar a universidade para isso. Como os africanos contam sua história? Como os indígenas contam sua história? É interessante ter essas vivências, assim como a questão da oralidade também é. São umas série de coisas que um seminário desses pode potencializar.

Eu fico muito animado que o Direito tenha chamado para este evento, porque tradicionalmente o Direito é uma das coisas mais arcaicas do Brasil. É muito importante que se discuta sobre os Direitos Humanos, pois este é um momento no qual existe uma tentativa de desumanizar e tornar as pessoas cada vez mais insensíveis. Digo isso porque há coisas que a gente não pode chamar de “mimimi” – violência contra a mulher não é “mimimi”, racismo não é  “mimimi”, violência contra uma pessoa porque ela é homossexual não é  “mimimi”. Então, ainda temos muito o que avançar. A gente não pode ficar perdendo tempo com essa visão medíocre, provinciana de um fragmento que é um fragmento europeu, racista, do “macho branco”. O mundo é maravilhoso na sua diversidade, há mais graça nas cores do que no branco, no preto e no cinza. A gente deve começar a buscar isso, um mundo mais colorido.

BR: Como tu avalias os avanços dos movimentos negros em nossa sociedade?
Soares: Eu acho que houve muitos avanços, frutos de lutas históricas que vêm desde o primeiro momento em que um grupo de negros que, entendendo que aquele sistema escravista era um sistema de desumanização, resistiu. Nós temos um histórico de lutas muito interessante no Brasil. Entre as mais recentes estão a questão de cotas, no governo Fernando Henrique, dos negros na universidade com o presidente Lula, todas essas foram fruto de uma luta que tem relação com a década de 1970, em que vários segmentos da comunidade negra chamaram pauta por espaço, por respeito à identidade cultural. Uma série de ações foram pensadas, até o racismo se tornar crime – isso tudo foi uma evolução. Agora, estamos lutando por cotas no mestrado, no doutorado, nos quais queremos ver mais representantes.

BR: Qual é a tua avaliação das políticas públicas voltadas aos negros?
Soares: Foram avanços. Claro que tu tens hoje um setor conservador que está tomando o poder, que é o mesmo setor que existia lá no século XIX, que impediu Mauá de avançar com seu projeto de liberalismo, o que seria a modernização do país ainda lá no Império. Essas forças continuam atuando no Brasil, e o país precisa arejar. Há uma preocupação que possa haver um refluxo dessas ações em direção à comunidade negra. Este ano ocorreram algumas manifestações contra o Carnaval, com o discurso demagógico de que esse dinheiro deveria ir para a saúde e educação.

Contraditoriamente, estes foram os mesmos que apoiaram que o governo Temer não investisse durante 20 anos em educação e saúde. O racismo se reelabora nesses discursos, nessas questões culturais. O Carnaval é importante porque existe uma coisa chamada Economia da Cultura, que gera emprego para uma série de setores. Por exemplo, no Rio de Janeiro, emprega-se um número absurdo de pessoas ligadas à costura, à matéria-prima da qual são feitas as fantasias. Sem falar que trata-se de um patrimônio imaterial de expressão cultural de um povo. Estamos vivendo com racismos sutis, mas eles estão presentes.

BR: O que é apropriação cultural?
Soares: Existe uma expressão chamada white niggers, usada nos EUA para designar aqueles brancos que se vestem de rappers, de negros da periferia etc. Mas na verdade é a cultura negra sem os negros, e existe uma crítica com relação a isso. Eu acredito que a apropriação cultural não está aí, mas está muito ligada ao capital, quer dizer, de onde você extrai. Fanon dizia o seguinte, que o colonialismo extrai do colonizado, da colônia, os seus bens. Então a matéria-prima, o ouro, o marfim, a túnica, a música – por exemplo, o povo consumidor de samba no Rio de Janeiro não é a população da favela, é a classe média alta da cidade. O jazz também, é uma arte popular negra, mas que tem uma apropriação cultural. Não que as pessoas não devam escutar, pelo contrário. A questão tem a ver com o próprio capital, e não com a pessoa que tem uma identificação com a cultura: é como eu pego essa cultura, me aproprio, ganho dinheiro em cima dela, e não reverto nada para essa comunidade.

BR: O racismo está na linguagem?
Soares: Sim, a linguagem é um elemento socialmente construído, e é natural que ali existam elementos racistas. Os termos foram naturalizados dentro de um determinado espaço. É preciso uma descolonização da fala. Fanon dizia que a palavra “negro” é uma construção sócio-histórica do colonialismo, ou seja, não é natural. Uma coisa que a gente usa muito nas formações de professores do coletivo é o dicionário, o primeiro instrumento de pesquisa que o aluno tem em mãos: veja o que ele diz sobre as palavras “negro” e “branco”. Então, é claro que o racismo está entranhado em tudo. E por isso que há várias frentes para serem combatidas, inclusive para um outro tipo de construção de fala. E as mulheres têm feito muito isso, principalmente com questões que remetem a outras épocas. Por exemplo, “os direitos do homem”– não, o correto é “os direitos humanos”! Várias movimentos estão fazendo reflexões sobre a questão da linguagem. Essa língua que aprendemos é igual à do colonizador e é natural que ela venha com esses imperativos, mas há como resistir aí também.

Saiba mais:

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Página Coletivo Fanon no Facebook

Seminário Internacional Pós-colonialismo, Pensamento Descolonial e Direitos Humanos na América Latina

 

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