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Mitos e verdades sobre a segurança da transfusão

Desde a triagem à análise do sangue do doador, procedimentos obrigatórios evitam transmissão de doenças

A ideia de que a transfusão de sangue envolve grandes chances de contaminação por vírus ainda é um dos mitos que envolvem o procedimento no Brasil – país em que apenas 1,8% da população faz o ato regularmente, de acordo com o Ministério da Saúde. Nos últimos anos, casos de contaminação ganharam repercussão na mídia e aumentaram as dúvidas sobre a segurança transfusional.  

Em 2015, uma pessoa foi contaminada com o vírus HIV ao fazer uma transfusão de sangue em Erechim (RS), depois de a bolsa de sangue infectada ter sido confundida por uma funcionária. No ano passado, em Campinas (SP), um paciente transfundiu sangue a partir de uma bolsa contaminada pelo vírus da zika. Enquanto os casos repercutidos aumentam as dúvidas em torno do assunto, pouco se sabe sobre os procedimentos adotados pelos hemocentros brasileiros para garantir a segurança transfusional.

Presidente da Fundação Hemominas, Júnia Guimarães esclarece que o risco de contaminação do sangue é muito pequeno. “A pessoa pode ter tranquilidade para doar, enquanto que o paciente que recebe a transfusão tem acesso a todos os esclarecimentos necessários”, ressalta.

No Brasil, não existem dados oficiais sobre os índices de transmissão de vírus por transfusão de sangue. Entretanto, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), os riscos representam menos de 5% para hepatite B e menos de 0,5% para hepatite C e HIV.

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Conheça os procedimentos adotados nos hemocentros

Se os riscos são mínimos, é devido ao fluxo de procedimentos aplicados pelos hemocentros para a coleta de sangue. Responsável pela captação de doadores do Hemocentro do Estado do Rio Grande do Sul, Maria de Lourdes Peck, afirma que o fluxo de atendimento inicia em uma busca nos bancos de dados da Vigilância Sanitária, onde é possível averiguar se o doador está impedido de doar sangue por algum motivo.

Em um segundo momento, é feita e pré-triagem, em que a saúde do doador é avaliada. São conferidos fatores como pressão arterial, sinais vitais, temperatura e níveis de hemoglobina e ferro. Se estiver com os índices normalizados, o voluntário passa para a triagem. Nessa etapa, ele é entrevistado por um médico ou profissional de saúde sobre seus hábitos, como uso de medicamentos, drogas e práticas sexuais, e condições de saúde. Segundo Maria de Lourdes, são feitas cerca de 80 perguntas para avaliar se o indivíduo apresenta riscos que o impedem de doar sangue.

Para Júnia, é fundamental que o doador seja sincero no momento da triagem. “O objetivo da doação é altruísta, é de um ato de solidariedade. Por isso, é feito um trabalho de sensibilização. O voluntário não pode mentir, senão, pode não ser excluído do processo, mesmo se tiver alguma doença”, explica a presidente.

No Hemocentro do RS, após a triagem, o doador passa pela etapa da auto-exclusão, em que responde a outro questionário. “Dessa forma, se ele não se sentiu a vontade para esclarecer alguma questão com o profissional no momento da triagem, ainda pode se excluir do processo de doação”, declara Maria de Lourdes.

O próximo passo é fazer a coleta. O sangue vai para uma bolsa e tubos de amostra, que são analisados para identificação de doenças.  A doação leva, em média, 10 minutos. Segundo Júnia, logo após, o doador é orientado: caso tenha manifestações de febre, tosse e infecção por doenças como dengue e zika, deve comunicar ao hemocentro até 15 dias depois da doação. “Assim, as bolsas de sangue dele podem ser descartadas, se ainda não tiverem sido utilizadas”, pontua.

Foto: Cristine Rochol/PMPA

Além das bolsas, o sangue é colocado em amostras que são destinadas a testes. Foto: Cristine Rochol/PMPA

O fato de o sangue ser doado não garante que ele seja usado. Isso porque os tubos de amostra são examinados para a identificação de anticorpos e presença de material genético que comprove a existência de alguma doença. São testados os vírus das hepatites B e C, HIV, HTLV 1 e 2, chagas e sífilis. Como ainda não existem exames sorológicos específicos para identificar os vírus da dengue, zika, chikungunya e malária, são feitas perguntas sobre situações de risco para o doador no momento da triagem.

“Os testes que identificam vírus são muito sensíveis e específicos. Sensíveis no sentido de que, se o resultado for positivo, há grandes chances de a pessoa ter alguma doença. Nesse caso, a bolsa de sangue é descartada. Se o resultado for negativo, significa que não há doença”, esclarece Júnia. Segundo a presidente, qualquer amostra testada que cause alguma reação, mesmo que o reagente seja baixo e o doador provavelmente não tenha problemas de saúde, descarta a bolsa de sangue correspondente.

Entretanto, mesmo os testes sorológicos podem esconder doenças. É o que acontece quando o doador está em período de janela imunológica, em que o vírus já está presente no organismo, mas não é identificado. Para Tor Onsten, hematologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), quando um indivíduo possui uma infecção por vírus, pode levar semanas até que produza anticorpos detectáveis. “Isso significa que, mesmo sem ser identificada, a doença pode ser transmitida”, alerta.

Para isso, o sangue coletado ainda passa pelo teste de ácidos nucleicos (NAT), obrigatório nos hemocentros brasileiros desde 2014. Trata-se de uma análise que utiliza biologia molecular para identificar a presença de ácidos nucleicos componentes de vírus no sangue. Através desse procedimento, é possível reduzir a janela imunológica para os vírus HIV, HCV (hepatite C) e HBV (hepatite B).

Conforme aponta o instituto norte-americano NIH, os testes de NAT reduziram a janela imunológica do vírus HIV para 11 dias, enquanto em relação ao vírus da hepatite C, esse período passou de 70 para 10 dias.

Além dos testes, o sangue passa por outro processo laboratorial. De acordo com Onsten, como o sangue nunca é transfundido em sua totalidade, é feita uma divisão em três componentes principais: concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas e plasma congelado. “Esse processo de separação é feito dentro de centrífugas e, por isso, não existe risco de contaminação. É muito seguro. Se acontecer de uma bolsa furar, o sangue é descartado”, diz o especialista.

Até que os resultados dos exames sorológicos e de NAT não estejam prontos, as bolsas de sangue dos doadores permanecem armazenadas em temperatura ideal, até que sejam liberadas. É só depois disso que o sangue é encaminhado do hemocentro para os hospitais. Para evitar erros humanos e a troca de bolsas de sangue durante todo o processo, hoje é utilizado nos hemocentros o sistema de códigos de barra, colocados em bolsas e tubos de sangue. Assim, as amostras e coletas não são confundidas.

doação de sangue

Para Maria de Lourdes, o Brasil ainda possui poucos doadores regulares em função da falta de informação. Segundo ela, por isso, o Hemocentro do RS realiza trabalhos em parcerias com universidades, comunidades e empresas, capacitando lideranças a fim de multiplicar informação sobre doação de sangue. Segundo a coordenadora, o hemocentro conta com voluntários que já doaram mais de cem vezes: “Eles possuem responsabilidade e sabemos que eles retornarão para ajudar. Todo doador se sente valorizado ao fazer essa ação, pois sabe que ela salva vidas”, comenta.

Outros riscos da transfusão de sangue

Para Onsten, a transmissão de doenças por contaminação do sangue é o menor risco da transfusão. De acordo com o especialista, o procedimento pode, ao invés disso, causar reações mais leves no organismo do transplantado, como reações febris e alérgicas.

Já riscos mais graves incluem reação de incompatibilidade com o sangue recebido, como quando ocorre hemólise (destruição de glóbulos vermelhos). “Nesse caso, existe risco se não forem tomados os cuidados adequados na identificação do doador desde a coleta, amostra, tubo à bolsa de sangue”, salienta.

Onsten pontua que outro risco inclui a transfusão de muitas bolsas de sangue para um paciente em um curto período, exceto para aqueles que estão sofrendo choque hemorrágico. “Transfundir muito em pouco tempo causa sobrecarga de volume sanguíneo no organismo. Se o paciente tiver baixo peso e problema cardíaco, por exemplo, isso pode ocasionar uma insuficiência cardíaca”, assinala.

Segundo Onsten, zerar os riscos da transfusão de sangue é difícil, mas é possível reduzi-los, como nos casos das reações alérgicas e febris. “Como existem esses riscos, é importante que, na hora de prescrever a transfusão sanguínea a um paciente, o médico avalie se os benefícios são maiores do que os riscos. Essa indicação deve ser correta, não podemos banalizar a transfusão”, destaca.

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