Cultura

A primeira Carmina Burana a gente nunca esquece

Entre novidades e nostalgias, um espetáculo cênico-musical que emocionou

Eu nunca havia assistido a um espetáculo que combinasse uma orquestra sinfônica e uma companhia de dança. Apesar de gostar de música clássica e de já ter assistido a diversos concertos, o senso comum sempre me fez ver espetáculos desse gênero como algo muito distante. “Coisa de gente rica”, como diria minha mãe. O custo alto dos ingressos e o lugar restrito que a música clássica ganha para a maior parte dos porto-alegrenses certamente contribuíram para que eu tivesse essa experiência tão tardiamente. Entretanto, por um bom movimento do acaso, em uma noite quente de um sábado de dezembr,o fui agraciada com a oportunidade de assistir a Carmina Burana, cantata composta a partir de um manuscrito homônimo pelo alemão Karl Orff.

Em um primeiro momento, a visão leiga me fez sentir que era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo: coro, bailarinos, orquestra, luzes, imagens e cantores. Para quem não está acostumado, é difícil acompanhar todo o espetáculo. Porém, enquanto a ação toda se desenvolvia, fui compreendendo mais suas dinâmicas e tentei sentir mais do que entender. Uma decisão acertada, pois Carmina Burana não conta uma história linear. As canções que compõem a obra falam de diversos temas, como críticas à hipocrisia e versos de amor. Enquanto os bailarinos da Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre acompanhavam o ritmo da Orquestra Sinfônica (Ospa), o Coro Sinfônico cantava com vigor. Eram interrompidos apenas pelos solistas Homero Velho, Flávio Leite e Gabriella Pace, que, com suas vozes majestosas, brilharam muito em suas apresentações. Em meio a tudo isso, as luzes do palco e as imagens do telão mudavam de cor conforme as partes da cantata avançavam, e cada tom tinha relação com o tema abordado pelas canções.

É curioso que minhas experiências pessoais me influenciaram muito enquanto eu assistia ao espetáculo. Como fui membro de banda marcial da escola que estudei por alguns anos, era de certa forma fácil identificar cada instrumento e entender como todos eles formavam uma música única. O curioso é que, ainda que fosse uma experiência nova, assistir Carmina Burana acabou me trazendo a nostalgia dos tempos em que eu ensaiava e tocava instrumentos similares. Pude recordar o quanto eu gostava de tocar e como minha conexão com a música permanece viva. Entretanto, essa experiência também me fez analisar que o Auditório Araújo Viana não era o local mais apropriado para uma apresentação como essa que a que assisti, pois a acústica do lugar prejudica propagação do som.

Influenciada pelo que eu já sabia sobre espetáculos cênicos, senti falta de um cenário mais elaborado ou de interpretações mais intensas, o que traria um contexto maior ao que era cantado no. Originalmente, Carmina Burana foi escrita em línguas antigas e de difícil compreensão, como o latim medieval e o francês provençal, o que torna bastante impossível compreender as letras das canções. Mas mesmo sem entender uma palavra, arrepiei-me diversas vezes e me emocionei do início ao fim. O destaque, para mim, foi voz límpida de Gabriela Pace, que me fez ir às lágrimas. Aparentemente, a sensação da plateia no local foi similar: de pé, o público aplaudiu por longos minutos, e “bravo!” foi ouvido diversas vezes. É incrível que, mesmo que o ouvinte não consiga compreender as palavras, ainda assim a música consiga transmitir mensagens. Sua capacidade de cativar e emocionar é infinita.

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