Política

Pretos x Brancos: a briga que tomou conta de São Paulo

Taxistas de São Paulo declaram guerra ao Uber, aplicativo que está chegando a Porto Alegre

Congestionamentos e transporte público ineficiente fazem com que a procura por Taxis e Ubers cresça em São Paulo. Foto: Henrique Boney

Congestionamentos em São Paulo e transporte público ineficiente fazem com que a procura por serviços como Uber cresça / Foto: Henrique Boney

Não se trata de um caso de racismo, muito menos qualquer outro conflito envolvendo raça ou etnia. A guerra do momento em São Paulo, conhecida como “pretos x  brancos”, é travada por duas categorias de motoristas: os taxistas (que trabalham nos carros de cor branca) e os profissionais do Uber (que andam em veículos da cor preta). Desde que a empresa iniciou suas operações no Brasil, em maio de 2014, uma polêmica se instalou nas cidades onde o serviço já está disponível – além de São Paulo, as pessoas podem “chamar um Uber” em Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Alegando que os motoristas do serviço trabalham de forma ilegal, taxistas bloquearam ruas, fizeram protestos e inclusive depredaram carros da concorrente em várias oportunidades na capital paulista.

Mas será que realmente o Uber é uma concorrente? Será que os homens de preto são tão maus assim? O que levou os taxistas a iniciarem uma verdadeira guerra contra estes profissionais? A Beta Redação testou os dois serviços em São Paulo para entender um pouco mais dessa história que ganha os noticiários a cada dia e faz com que políticos precisem se desdobrar para contentar taxistas e não criar um desgaste com a população, que apoia, em sua grande maioria, o aplicativo. Aliás, para a alegria de muitas pessoas (e descontentamento de muitos taxistas), o serviço passa a ser oferecido nesta quinta-feira (19) também em Porto Alegre, segundo notícia divulgada pelo jornal Zero Hora. A seguir, descrevemos em primeira pessoa a nossa experiência de comparação entre o Uber e o táxi em São Paulo.

Para produzir esta reportagem, estabeleci um trecho fixo. A viagem começou na Rua Fernando de Albuquerque, próximo à Avenida Paulista, no bairro Consolação. O destino foi a sede do jornal O Estado de S. Paulo, na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, no bairro do Limão. O itinerário foi percorrido quatro vezes – duas com Uber, duas com táxi -, em dois dias diferentes. Na primeira viagem, para ambos, não me identifiquei como repórter; na segunda, sim. Comecei pelo Uber: baixei o aplicativo no telefone, adicionei a localização e, em poucos minutos, um Toyota Corolla preto estava na porta do hotel.

Vestindo um terno impecável, o motorista Leonardo desce do carro. Por questões de segurança, o Uber informa apenas o primeiro nome dos seus profissionais, assim como o motorista só tem acesso ao primeiro nome do passageiro. Telefones também não são divulgados. A estratégia visa a dar privacidade a quem está trabalhando e a quem está utilizando o serviço, ao contrário de aplicativos de táxi, onde nome completo e telefone são divulgados, o que pode causar um certo desconforto – são conhecidos os relatos de mulheres que dizem ter sido assediadas por taxistas após o uso de aplicativos de táxi.

Oferecendo água gelada em uma caixa térmica branca de praia (e contrariando de forma horrível e gritante o luxo do interior do veículo), Leonardo iniciou a viagem. Em nenhum momento ele perguntou onde eu queria ir, pois o itinerário já é montado no aplicativo. Através do Google Maps você marca sua origem e seu destino, o Uber informa o valor aproximado que será cobrado e pronto. Ao entrar no veículo seu trajeto já está no Waze do motorista, o que passa uma sensação de segurança, afinal você está vendo por onde ele está indo, evitando caminhos alternativos para a cobrança ser maior (o uso do Waze é uma norma internacional do Uber). Leonardo falou muito pouco, perguntou apenas se eu era de São Paulo, e respondi disse que não. Cheguei ao Estadão: a viagem custou R$ 38 (valor dentro da previsão do aplicativo, que me estimou um custo entre R$ 30 e R$ 38) e não precisei pagar em espécie – o valor foi descontado diretamente do cartão de crédito.

Para a volta, optei por um táxi, no ponto em frente ao Estadão. A experiência foi péssima. Dirigindo um Celta, o motorista estava com uma camisa social praticamente toda aberta, escorrendo suor. O calor era bastante intenso e o ar condicionado não estava funcionando. O cheiro no interior do veículo era extremamente desagradável. Utilizando GPS no meu celular, no silencioso, fui acompanhando o caminho seguido pelo motorista (já que ele não usava nem GPS, muito menos celular para mostrar a rota). O motorista foi honesto, nenhum trecho a mais que o necessário (aliás, todos os quatro motoristas que participaram do teste foram pelo caminho mais curto). A viagem custou R$ 34. Paguei o motorista com uma nota de R$ 50, e ele alegou não ter troco. Por sorte, tinha algumas moedas no meu bolso e consegui completar R$ 54, para facilitar o troco em nota de R$ 20.

No outro dia decidi fazer o processo inverso. Fui de táxi e voltei de Uber, desta vez me identificando como repórter da Beta Redação. Usando o aplicativo 99Táxis, fui atendido em menos de 3 minutos por um taxista que estava na região da Consolação. O motorista estava bem vestido, o carro estava extremamente limpo e, ao contrário do taxista do dia anterior, este usava o Waze. Ou seja, apaguei completamente minha primeira má impressão sobre os táxis paulistanos. Na direção, João Espinosa, 54 anos, 14 deles dedicados à profissão. Ao saber que seria entrevistado, Espinosa já começou a apontar os diversos problemas de tráfego que existem na cidade. No entanto, expliquei que a matéria se tratava especificamente sobre o Uber e que eu queria entender o conflito que existia entre os taxistas e a empresa dona do aplicativo. “Eles tiram o nosso espaço porque oferecem o serviço com preço menor. Se eu não pagasse imposto, minha corrida também seria mais barata. Carros confortáveis nós também temos. A grande maioria dos taxistas de São Paulo tem bons veículos. As pessoas acabam indo com eles pelo preço”, resumiu.

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João Espinosa é taxista em São Paulo desde 2001. Segundo ele, o Uber está tirando o trabalho dos taxistas / Foto: Mauricio Trilha

A afirmação do taxista João acompanha o discurso de outros taxistas. No entanto, os números provam o contrário. Ir com ele para o meu destino saiu apenas R$ 2 mais caro em relação à viagem no dia anterior com o Uber, uma diferença bem pequena, provavelmente ocasionada pelo trânsito. Em São Paulo, o valor mínimo por viagem no Uber é de R$ 10. A partir disso, o passageiro paga R$ 2,42 por quilômetro percorrido. No táxi, a lógica é um pouco diferente. A bandeira inicial é de R$ 4,66. A partir daí, paga-se R$ 2,33 por quilômetro rodado na bandeira 1 e R$ 3,03 na bandeira 2, ou seja, em dias de semana (quando fiz o teste), o táxi é mais barato. O Uber ainda tem um problema em relação à frota: nem todas as áreas da capital paulista são atendidas pelo serviço – portanto, se você estiver muito longe de um carro acaba pagando uma taxa de deslocamento (que pode custar até o dobro do valor da corrida). Para concorrer em preço com os táxis, o Uber está lançando no Brasil um novo serviço, chamado “UberX”. São carros populares com preços mais acessíveis.

Para terminar o teste, voltei de Uber para o hotel. O trecho custou R$ 40, desta vez mais caro que o táxi utilizado no dia anterior (comprovando que o preço varia bastante em função das condições do trânsito, afinal, os dois serviços também cobram os minutos que o passageiro fica dentro do veículo). Dirigindo um Nissan Sentra, o motorista Ricardo foi extremamente simpático. Para evitar qualquer tipo de problema, pediu gentilmente para que seu sobrenome não fosse publicado (segundo ele, existem diversos casos de agressão a motoristas do Uber). Desta vez, o motorista seguiu o protocolo internacional da empresa. Pediu para que eu escolhesse a estação de rádio e a temperatura do ar condicionado e ofereceu um assento com massageador nas costas, além, é claro, de garrafinha de água e balas. Antes de trabalhar para o aplicativo, Ricardo era especialista em transporte de cargas perigosas.

Os vidros pretos escondem a identidade de Ricardo, casos de agressão contra motoristas da Uber tem sido corriqueiros em São Paulo. Foto: Mauricio Trilha

Os vidros pretos escondem a identidade de Ricardo. Casos de agressão contra motoristas do Uber têm se repetido em São Paulo / Foto: Mauricio Trilha

Sobre a sua entrada no Uber, Ricardo não quis dar muitos detalhes. Limitou-se a dizer que achou uma boa oportunidade e decidiu entrar, por ser algo seguro (motoristas não trabalham com dinheiro) e flexível (parceiros do Uber montam sua própria escala de trabalho e podem desativar o aplicativo a qualquer momento). Perguntei a ele se considerava seu trabalho ilegal, e ele negou veementemente. “O Uber está tentando uma regularização, está tentando conversar com o poder público. O problema é que o Brasil é lento nessas questões. O serviço existe no mundo inteiro. Na maioria dos países, o Estado nos regularizou. No entanto, aqui está bem complicado. Tenho carteira profissional de transporte remunerado, é uma exigência do Uber, portanto posso trabalhar transportando pessoas. E não sou taxista, sou um motorista particular, profissão reconhecida por lei. Eu posso trabalhar”, explicou.

Em relação à briga com taxistas, Ricardo salientou: “Não existe briga. Muitos taxistas estão migrando para o Uber e todos são bem-vindos. Eu tenho diversos amigos taxistas. Na realidade, nós inclusive temos que agradecer a eles. Toda essa polêmica criada em torno da gente é revertida em publicidade. Você abre o jornal e vê uma notícia sobre o Uber, você liga no Jornal Nacional e estão falando da gente. Pode reparar, o Uber não gasta um centavo com publicidade, nossa propagação é espontânea”.

ENTENDA O APLICATIVO

O Uber (ou “A Uber”, como preferir – não há uma definição) é um aplicativo de celular que oferece “carona remunerada”. Disponível para quase todos os sistemas operacionais de smartphones, o serviço foi fundado em 2009, na cidade de San Francisco, nos Estados Unidos. Em 2012, já estando presente nas principais capitais norte-americanas, o aplicativo atravessou o Oceano Atlântico e iniciou suas atividades em Londres. Hoje, a empresa está em 58 países, nos cinco continentes. Seu fundador, Travis Kalanick, é considerado um dos empreendedores mais influentes da atualidade pela revista Forbes. Atualmente, seu patrimônio está avaliado em 51 bilhões de dólares, e conta com um casting de investidores que inclui Microsoft, Google e Samsung, entre outras empresas de grande porte.

Para utilizar o serviço,  basta fazer o download do Uber em seu smartphone e cadastrar um cartão de crédito. O aplicativo vincula suas informações do Facebook e cria seu perfil. É necessário ter um aparelho com conexão à Internet e com GPS ligado. A lógica é a mesma de aplicativos como 99Taxis e EasyTaxi, com a diferença da privacidade e do conforto. Esta privacidade, aliás, é um dos maiores problemas apontados pelos taxistas: “E se acontecer alguma coisa? Você nem sabe quem está dirigindo. O nome da pessoa não é divulgado, não existe uma placa de identificação, você pode estar com um criminoso no volante e você não vai saber”, aponta o taxista João Espinosa. Para combater o Uber, a 99Táxis criou em São Paulo o “Táxi de Luxo”, mas a novidade ainda não emplacou, em função do valor da tarifa custar mais que o dobro.

VANTAGENS x DESVANTAGENS

Em relação à minha experiência em São Paulo, escolho o táxi como transporte preferencial. Claro que existem vantagens e desvantagens dos dois lados: é incrível o tratamento dos motoristas do Uber, o conforto do veículo, o ar condicionado sempre funcionando, poltronas com massagem, água, guloseimas… No entanto, por outro lado, a falta de disponibilidade em diversas regiões é algo que faz o Uber perder sua utilidade. Na correria do dia a dia, esperar 15 minutos por um carro (e ainda pagar taxa de deslocamento) é algo inviável. Nesse quesito os táxis são mais eficientes. Em quase todos os pontos da cidade você encontra táxis a menos de cinco minutos do local onde você está.

Outra vantagem bastante importante de usar táxi em São Paulo é a velocidade de deslocamento. Taxistas têm permissão para andar no corredor do ônibus de segunda a sexta, no horário das 9h às 16h e das 20h às 6h; aos sábados e domingos, o deslocamento é livre a qualquer horário. Nas duas oportunidades em que testei o táxi cheguei mais rápido ao destino, justamente pela facilidade de o veículo poder se deslocar pelos corredores e não ficar preso no trânsito.

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Taxistas podem usar corredor do ônibus para fugir do trânsito em São Paulo / Foto: Mauricio Trilha

Mas, mais do que tudo isso, ainda prefiro o táxi pela relação com o motorista. Talvez funcione no exterior, no entanto, aqui o clima é extremamente frio quando você entra em um carro do Uber: quem está dirigindo não fala, é como se você estivesse sendo levado por um robô. Todos nós sabemos o quanto taxistas gostam de conversar, puxam assunto, fazem piadas e inclusive dão dicas da cidade se você é turista. Motoristas da Uber se limitam a perguntar “Qual temperatura do ar você deseja, senhor?”, “Qual estação de rádio você gostaria de ouvir?”, e nada mais. É uma sensação fake, eu me senti um estranho no ninho.

PORTO ALEGRE

Na semana passada, o gerente da Uber no Brasil, Guilherme Telles, anunciou que o Uber deveria iniciar suas operações em Porto Alegre em dezembro, o que acabou sendo antecipado. Motoristas interessados em trabalhar no aplicativo podem cadastrar seu perfil.

O anúncio da chegada do Uber a Porto Alegre gerou uma repercussão bastante calorosa nas redes sociais, sobretudo após declarações do prefeito José Fortunati. Em entrevista à Rádio Gaúcha, Fortunati declarou que não vai permitir o início das atividades do Uber na capital sem antes promover um debate. O prefeito destacou ainda que aguarda ser procurado por algum empresário do aplicativo, para que se inicie uma conversa. O diretor da EPTC, Vanderlei Capellari, acompanhou o discurso.

Para a advogada Juliane Souza, especialista em questões trabalhistas, a Uber não pode ser proibida de atuar na capital. “Todo o cidadão tem direito ao livre exercício de qualquer trabalho que lhe remunere de forma lícita, inclusive autônomos. Proibir a Uber é inconstitucional, até pelo fato de existir recolhimento de imposto. Todos os motoristas declaram imposto de renda, e a empresa também paga em cima do seu lucro. Inclusive, por não existir transação em dinheiro, é bem difícil que haja sonegação. O grande problema é a questão da permissão. Estes motoristas precisam de um alvará, algo que lhes permita trabalhar com tranquilidade, assim como motoristas de táxi têm a licença para atuar. A profissão de motorista particular já existe, é necessário fazer uma adequação, não é complicado”, explica.

A chegada do aplicativo na Capital já era esperada por taxistas, que dias antes há alguns prometiam se manifestar. “Se o serviço começar a operar aqui, vamos, sim, fazer protestos. É ilegal. Vamos fazer uma grande mobilização, vamos parar, temos o apoio das autoridades”, diz Adão Ferreira de Campos, diretor do Sindicato dos Taxistas de Porto Alegre. Em São Paulo, a cada protesto promovido por taxistas, o Uber responde com promoções e viagens gratuitas para ganhar simpatia do público. Em Porto Alegre, a estratégia não deve ser diferente.

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  • Publicado em: 19/11/2015

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