Cultura

Pretagô em cena: a representatividade dos atores negros

Grupo teatral de Porto Alegre estuda identidade e inserção dos negros na arte

Peça AfroMe ocorre parte na rua, parte no bar. Foto: Victoria Silva/Beta Redação

 

“Vamos dar início à viagem até AfroMe, uma conexão Brasil-África, repleta de música, suor, imagem e muita, mas muita cerveja!” O aviso foi dado no Boteco do Paulista, localizado no início da Rua Riachuelo, no Centro Histórico da Capital. O espaço e a rua foram palco, nos dias 15 e 16 de setembro, do sarau marginal, ou cabaré de magia negra, como é chamada a peça AfroMe por seus realizadores. O espetáculo, que mescla sarau, música e teatro, concorre ao Prêmio Braskem Em Cena 2016 e inicia uma nova temporada a partir desta sexta-feira (23).

Organizada pelo Pretagô, que estuda identidade e representatividade do negro nas artes, AfroMe transita pela antropologia, arte, literatura, história e geografia, exaltando a vida e a cultura dos africanos e seus descendentes. A temática também está presente em outra peça do grupo, Qual a diferença entre o Charme e o Funk?, de 2014, que conquistou, em dezembro do ano passado, o Prêmio Açorianos de Melhor Trilha Sonora para João Pedro Cé. Além do músico, fazem parte da equipe os atores Bruno Cardoso e Bruno Fernandes, as atrizes Camila Falcão, Kyky Rodrigues, Laura Lima, Manuela Miranda e Silvana Rodrigues, os músicos Duda Cunha e Vini Silva, a figurinista e produtora Mari Falcão e o diretor Thiago Pirajira.

Desde maio deste ano, eles ocupam a sala 503 da Usina do Gasômetro, espaço compartilhado com a Cia. Rústica através do Edital Usina das Artes. Lá, eles realizam leituras dramáticas, oficinas, saraus, entre outras atividades culturais.

 

 

Fruto de um trabalho acadêmico da atriz Camila Falcão, para o Departamento de Arte Dramática da UFRGS, a ideia do grupo Pretagô nasceu em uma roda de amigos que constatou nunca ter assistido a uma peça de teatro composta apenas por pessoas negras. A atriz, que à época estava concluindo o curso de Teatro, viu ali uma oportunidade de colocar o projeto em prática: reuniu outros artistas e, sob a regência do diretor Thiago Pirajira, deram forma à peça Qual a diferença entre o Charme e o Funk?, cujo título é inspirado na música Rap da Diferença, dos MCs Dollores e Markinhos.

“O Thiago nos propôs um exercício que, depois, ele acabou chamando de arqueologia pessoal, no qual a gente se reunia e cada um ia contando sua vida a partir de histórias, que mais tarde foram transformadas em cenas, trazendo alguns objetos físicos, como o trabalho do arqueólogo mesmo”, explica Bruno Cardoso, integrante do grupo. O processo foi crucial para a criação do espetáculo, um convite à reflexão sobre a juventude negra brasileira, e para a consolidação do Pretagô, cujo nome é a junção de “preta” e “agô”, saudação de culturas de matriz africana, mas que também remete a “protagonismo”.

 

Qual a diferença entre o Charme e o Funk? é inspirada nas experiências de vida dos próprios atores. Foto: André Olmos

 

Para Bruno, o Pretagô afirma-se com um ato político: é formado por atores e atrizes negras em um lugar de destaque, dando luz a perspectivas não vistas, a assuntos negados. “O papel da arte é muito importante nesse sentido, ela tem a pretensão de representar o ser humano. Estar no palco é como dizer que, sim, é possível ocuparmos todos os espaços”, declara.

A estudante de Jornalismo da UFRGS Thayse Uchoa, 22, conta que costuma acompanhar o grupo, apesar de sua pouca disponibilidade de horários. Ela diz que procura participar de eventos que tenham negros atuando pois, além de se sentir representada, acredita ser uma forma de incentivo. “Para mim, é muito importante ver essas pessoas ocupando um lugar de fala, seja na universidade ou nos palcos. Nós, negros, sabemos o quanto nossa presença impacta quando assumimos uma posição de protagonismo”, diz.

Independente, o Pretagô luta para colocar de pé os seus espetáculos e ter um retorno financeiro digno, especialmente AfroMe, que segue graças aos esforços dos próprios artistas e de parceiros como Gelson, do Boteco do Paulista. O proprietário do bar cede o espaço e o lucro com a venda de seus famosos pastéis para o grupo, que, em contrapartida, leva seu cativo público para brindar no local.“Lá (no bar), as pessoas riem muito, choram muito, todas as emoções são potencializadas”, comenta Thiago.

O diretor conta também que a escolha do palco de AfroMe ocorreu, principalmente, como uma forma de questionar o lugar da arte. “O teatro ainda é muito elitizado, e o bar é uma maneira de romper com isso”, pondera. A resposta da plateia se dá nas peças cheias, um movimento que o diretor entende como de interesse das pessoas em ouvir diferentes vozes e se sentir representadas: um dos poderes da arte.

 

AfroMe concorre ao Prêmio Braskem Em Cena 2016. Foto: Andre Olmos

 

A peça AfroMe inicia nesta sexta-feira (23) sua Temporada de Primavera, com apresentações nos dias 23, 24 e 30 de setembro e 1º, 7 e 8 de outubro. O espetáculo ocorre no Boteco do Paulista (Rua Riachuelo, 230, Porto Alegre/RS) e tem entrada franca. Qual a diferença entre o Charme e o Funk? volta aos palcos em novembro, dias 18, 19, 25 e 26, no Teatro do Sesc.

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