Economia

Preço do Etanol dispara e brasileiros deixam de utilizá-lo

Motoristas param de abastecer seus carros com o biocombustível

Imagine que o país onde você mora produz um tipo de combustível que polui menos que combustíveis fósseis, e além disso, tem a matéria-prima mais eficiente em sua produção. Pense ainda que a maioria dos veículos deste local podem ser abastecidos com esse combustível. O clima é muito propício para a produção dele, além de haver abundância de espaço para o cultivo de sua matéria-prima. No entanto, apesar de todos os fatores positivos, atualmente não é o combustível mais utilizado. A pergunta que fica é : por que o Etanol não é o combustível mais aproveitado pelos brasileiros?

A equipe da Beta Redação falou com alguns consumidores para tentar explicar essa situação.

O soldador Marcelo Martiny, 31 anos, dono de um Palio Fire com motor Flex, diz que parou de abastecer seu carro com etanol em 2014. “ Há 2 anos, o etanol custa por volta de R$ 2,20/l. Só que quando passou disso, não se tornou mais viável. A gente fica chateado, porque sabemos que isso acontece pois o governo não pode deixar de vender combustíveis a base de petróleo, e por isso, aumenta tanto o preço do etanol,” explica Martiny.

Já o comerciante Maílson Luft, 26 anos, desistiu da ideia já faz mais de 3 anos. O dono de um VW Spacefox  diz que quando o preço passou de R$ 1,70/l, ficou inviável. “Não me lembro certo como aconteceu, mas imagino que a alta carga de impostos tenha feito com que a maioria dos brasileiros parasse de abastecer seus carros com etanol”, acena o comerciante.

No entanto, o eletrotécnico Tiago Dosso, 23 anos, dono de um Palio Economy, acredita que há uma espécie de “rivalidade” entre os combustíveis. “O preço do etanol sobe junto com o da gasolina, e por isso que acaba se tornando caro. Como ele rende um pouco menos, faz um ano e meio que não vale a pena abastecer com etanol”, afirma Dosso.

O gráfico a seguir mostra a evolução do valor por litro do etanol nos últimos 9 anos.

 

 

Contudo, para entender como ocorreu o aumento desses valores, é importante entender como é o “ciclo” do etanol no Brasil.

O coordenador do curso de Engenharia Química da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Fernando Serenotti, explica que a trajetória do etanol começou nos anos 70. “Houve o grande problema da falta de combustíveis fósseis, que vinham do Oriente Médio. Nesta época, tinha uma escassez de gasolina e óleo diesel, agravada pelos constantes conflitos no Oriente Médio, e a Petrobras não conseguia sustentar a produção desses combustíveis aqui no Brasil”, explica Serenotti. A partir dessa demanda, surgiu um programa do governo federal chamado Pró-Álcool e,  com isso, começou um ciclo de pesquisas em torno dessa nova opção. “ Na época, iniciou-se os estudos para se obter as melhores cepas da cana de açúcar para aumentar a produção. Além do estudo de tecnologias aplicadas ao processo da fabricação do etanol, sendo hoje o Brasil o detentor do maior conhecimentos sobre todo o ciclo da cana de açúcar”, esclarece.

 

No Brasil, a maioria dos carros possuem motores Flex, que podem ser abastecidos com Gasolina e Etanol (Foto: Guilherme Rossini / Beta Redação)

No Brasil a maioria dos carros possuem motores Flex, que podem ser abastecidos com Gasolina e Etanol (Foto: Guilherme Rossini / Beta Redação)

 

Em 2003,  , após alguns anos de pesquisas, o Brasil lançou automóveis com a capacidade de rodar com os dois combustíveis, juntos ou separados. Os carros Flex poderiam ser abastecidos com gasolina e etanol, com a possibilidade de serem feitas misturas em qualquer proporção. Atualmente, os carros Flex representam a maioria da frota brasileira.

 

 

Porém, apesar desses veículos rodarem “oficialmente” com gasolina e etanol a partir de 2003, por volta de 1970 os veículos já eram abastecidos com essa mistura. A maioria das pessoas já ouviu falar que há uma porcentagem de etanol na gasolina. No entanto, é importante esclarecer que são dois tipos diferentes do combustível – o etanol anidro e o hidratado.

Anidro: O etanol anidro é aquele misturado à gasolina. Seu teor alcoólico é de 99,6%, ou seja, ele é praticamente puro.

Hidratado: É o etanol vendido nos postos. Sua diferença em relação ao anidro, é que não é completamente puro, ou seja, sua composição é entre 95 e 96% de álcool, e o restante é água.

 

Histórico da quantidade de Etanol Anidro na Gasolina (Fonte: EPE)

Histórico da quantidade de Etanol Anidro adicionado à Gasolina (Fonte: EPE)

 

Os dois maiores produtores de etanol do mundo são Brasil e EUA. No entanto, há uma grande diferença na produção dos dois países, a matéria-prima. Enquanto no Brasil, o combustível é produzido a partir da cana de açúcar, nos EUA, o etanol é feito de milho.  O maior produtor no mundo é os EUA, que produziram, só em 2015, 54,16 bilhões de litros de etanol. Já o Brasil produziu “somente” 30 bilhões de litros, quase metade do produzido pelos norte americanos. Contudo, há um fato curioso em tudo isso: a produção de etanol a partir da cana de açúcar é extremamente mais rentável do que a partir do milho.

Segundo o gestor ambiental Fernando Uller, se plantarmos cana de açúcar e milho numa área equivalente a um hectare, como no estádio Maracanã, por exemplo, no caso da matéria-prima brasileira, serão colhidas 68 toneladas. Com essa quantidade, é possível produzir 5.600 litros de etanol. No entanto, se for plantado milho, o rendimento é de somente 3.000 litros.

Contudo, apesar de ouvir-se falar que o etanol é o combustível com a “cara do Brasil”, Fernando Serenotti explica a atual situação na produção do etanol brasileiro. ” O Brasil não é autossustentável em etanol, exatamente porque teríamos que ser um tapete verde. E, esta é a grande preocupação da ONU em relação à produção do bioetanol, porque as lavouras de alimentos teriam que dar lugar ao plantio da cana de açúcar e teríamos um problema seríssimo de falta de alimentos não só para o Brasil, mas também para o mundo”, explica.

 

Preço do Etanol se iguala ao da gasolina nos postos gaúchos (Foto: Guilherme Rossini / Beta Redação)

Preço do Etanol se iguala ao da gasolina nos postos gaúchos (Foto: Guilherme Rossini / Beta Redação)

 

Apesar do anúncio da redução do preço da gasolina e do diesel na primeira quinzena de novembro, o etanol não segue o mesmo caminho. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), o Brasil viveu uma época de entressafra da cana de açúcar que ocorreu de janeiro a março desse ano. A União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) diz que em 2016, no período de abril a outubro, o país produziu 9% menos que em 2015, totalizando 12,3 bilhões de litros.

Para Serenotti, além da entressafra, outro fatores concluem como ocorre o aumento do preço do etanol. “Nos principais estados produtores, como São Paulo, por exemplo,  o preço é bem menor. Existe falta de incentivo do governo, o que existia a décadas anteriores, e também a questão da logística e distribuição, que não é um processo tão simples de se entender. Já que, a distribuição é feita pela Petrobras e não diretamente pelas indústrias sucroalcooleiras. Além disso, se desenvolver toda a análise de ciclo de vida (ACV), é um processo extremamente bonito, porém, com alto custo”, opina o engenheiro.

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