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No celular ou no computador: cresce o vício em pornografia virtual

Pesquisas apontam aumento no número de pessoas que têm sua saúde sexual abalada pelo consumo exagerado de vídeos adultos

No início da década de 70, a pornochanchada começou a ser produzida no Brasil – um produto cultural tipicamente brasileiro que misturava comédia com erotismo. Mais de 700 títulos desse gênero foram produzidos. Na década seguinte, esse tipo de cinema deu espaço ao pornô hardcore, gênero conhecido por conter cenas de sexo explícito. Com a popularização dos videocassetes na mesma época, os filmes pornográficos ganharam mercado – e espaços exclusivos para adultos dentro das locadoras. Já com a explosão da internet na década de 90, o consumo de pornografia aumentou drasticamente, tornando-se possível acessar milhares de vídeos e cenas de sexo em minutos, e sem sair de casa. Atualmente existem cerca de 420 milhões de sites pornográficos no mundo, que geram 66 milhões de buscas diárias em sites de pesquisas.

 

Pornochanchada era conhecido por misturar comédia com erotismo.

Pornochanchada era conhecida por misturar comédia com erotismo. Imagem: Coleção Pornochanchada

 

Segundo levantamento do site BuzzFeed, o público brasileiro começa cedo a consumir pornografia: 43% dos usuários têm entre 18 e 21 anos, 16% a mais do que a média mundial, que soma 27% nessa faixa etária. O brasileiro também para de assistir mais cedo, já que soma 15% o público maior de 45 anos – contra 29%  na média global. Curiosamente, as mulheres brasileiras são aquelas que mais curtem pornô do mundo: de acordo com o RedTube, elas são 33% da audiência, 8% a mais do que a média mundial.

 

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Dados recentes sobre pornô online preocupam especialistas. Imagem: Salud Medicinas

 

Em um ranking feito pelo site de pesquisas especializadas de acessos à internet em todo o mundo, o Alexa, o 27º site mais acessado no Brasil é o agregador de vídeos pornôs XVideos, na frente de sites como Terra, Correios e até mesmo o de redes sociais como o Tumblr. Também estamos acima da média quando o assunto é ver pornô usando o celular: 65% dos brasileiros assistem pornô a partir de smartphones, 15% a mais que o restante do mundo.

Todos esses dados  estão se tornando preocupantes para os especialistas, pois a cada dia se tornam mais comuns os casos de vício em pornografia – ainda que poucas pessoas busquem auxílio especializado. Por incrível que pareça, o tema no Brasil ainda é pouco comentado em comparação com outros países, como a Rússia, que proibiu este ano o acesso a sites com conteúdos considerados pornográficos. Segundo pesquisa efetuada na Universidade de Notthingham, um número cada vez maior de pessoas estão sofrendo com problemas que abalam sua saúde sexual por conta do consumo exagerado de pornografia virtual.

Para o psicólogo especialista em sexualidade humana Diego Villas-Bôas, a utilização da pornografia online, quando se torna um vício, traz consequências como a disfunção erétil. “Na internet, na maioria das vezes, não são somente dispostos filmes, mas também vinhetas nas quais só se mostra o ato da penetração. Mas a relação sexual possui muito mais etapas. Então, estes pacientes podem desenvolver disfunção erétil porque estão acostumados só com o pico da excitação”, explica o especialista. Além disso, a luta para superar o vício é diária, e os pacientes travam fortes embates para não ter recaídas.

 

Estudante. Solteira. Ex-viciada em pornografia

“Estudei em uma escola pequena onde os colegas falavam sobre pornografia. O primeiro vídeo que vi foi em casa, filmes que meu pai guardava. Com a chegada da internet comecei a ler contos eróticos, ficava horas no computador buscando novas histórias, até que comecei a ver vídeos online. Passava madrugadas assistindo vídeos e, quando estava sozinha em casa, olhava durante o dia também. Cheguei uma vez a entrar em bate papo para adultos para poder ter casos ‘reais’ online. Quando completei 20 anos vi que estava viciada, praticamente não tinha amigos e era uma pessoa triste. Iniciei uma busca por alternativas para não ver mais os vídeos, lendo blogs e até mesmo fazendo novos amigos, uma nova fase na minha vida. Hoje não tenho mais interesse, mas às vezes busco na internet, como se fosse uma recaída. Porém, para mim,  isso não tem mais graça.”

A este depoimento, o especialista Diego Villas-Bôas acrescenta também que  é importante pensar que o próprio hábito de acessar a internet buscando pornografia pode estar mascarando outras doenças, como depressão, dificuldade de se relacionar com outras pessoas, ansiedade e até transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), ainda que seja necessário investigar e analisar cada caso.

 

Mulher. Jornalista. Mãe. Grávida. Separada do marido pela pornografia

“Começou com o meu marido, que via essas coisas. Eu fui contra no início, mas daí ele foi me induzindo  a ver e eu comecei a gostar. Quando vimos, não fazíamos mais sexo sem que antes víssemos vídeos ou falássemos de pornografia. Era muito bom, mas isso foi ficando mais sério e ele começou a querer que eu tivesse relações sexuais com outros homens para que ele pudesse gravar. Fiquei receosa e não aceitei. Então, ele ficou brabo e disse que era melhor nós pararmos. Mas daí ele foi perdendo o interesse por fazer sexo, já que não tinha mais a pornografia. Atualmente, estamos separados. Ele decidiu que queria alguém que fosse parceira dele pra isso. Estou grávida de 8 meses, e já temos uma filha de 5 anos. A pornografia ajudou a acabar com o meu casamento.”

Para Diego Villas-Bôas, a pornografia por si só não destrói relacionamentos, mas sim o excesso dela. Ao contrário, “em determinado momento pode até ajudar nas fantasias de um casal”. “Já se for usada em demasia pode causar danos sociais e familiares”, ressalta. Ele ainda afirma que pacientes que passam duas a três horas diárias, ou mais, assistindo a vídeos acabam por sofrer danos em sua qualidade de vida que talvez demorem entre cinco e sete anos para perceber.

 

Homem. Católico. Namorando. Usa pornografia como rota de fuga

“Para mim a pornografia é uma espécie de droga, que envolve negativamente pelo lado ético, moral e espiritual. Tudo começou na época da puberdade, por influência cultural. Infelizmente parecia algo normal, feito pela maioria. Até que eu comecei a namorar, a aprender mais sobre a minha religião, que é a católica, aí com um certo amadurecimento meu e pelas diversas influências percebi o quão danoso é para uma pessoa a pornografia em geral. Mas mesmo assim, ocasionalmente, como se fosse uma droga, para desligar, liberar raiva, acaba acontecendo de eu buscar de novo, e me enche de culpa, após ter percebido que tive a necessidade de procurar algo tão banal e danoso para minha mente. Isso acabou atrapalhando minha vida, principalmente quando a pessoa com quem eu tinha um relacionamento descobria, o que a levava a um afastamento. Prejudicou por eu perder tempo com esse tipo de coisa também, por ter demonstrado ser fraco quando quis parar e não obtive êxito.”

O psicólogo Diego Villas-Bôas lembra que o jovem de hoje tem um acesso muito maior aos estímulos sexuais pela internet do que se tinha há 10 anos. Antes se via somente um filme, hoje a pessoa pode visualizar três ou quatro mil mulheres nuas em questão de horas, acessando parte de diversos filmes, muitas vezes resultando em um estímulo virtual muito mais forte que o estímulo real entre dois parceiros.

A terapia comportamental e o terapeuta sexual trabalham com essas questões através do treinamento de habilidades sociais e técnicas de controle de ansiedade, identificando quais são os gatilhos mentais que fazem o paciente buscar esse tipo de satisfação. Por exemplo, acessos de ansiedade que possam vir a ocasionar frustrações acabam sendo amenizados com o prazer sexual imediato que, inclusive, mascara a ansiedade. Por isso é importante trabalhar para amenizar esse tipo de sintoma, às vezes coibindo o acesso, em outras auxiliando para que o uso da pornografia seja mais natural, desestimulando a dependência.

 

* As fontes que dão depoimentos nesta matéria tiveram sua identidade preservada.

 

No cinema: jovens, adultos, famílias e uma vasta indústria

Shame, Homens, mulheres e filhos e King Cobra são alguns dos mais recentes longas que retratam o tema do vício em pornografia.

Confira as sinopses dos filmes:

 

 

 

 

 

 

 

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