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Pra quem serve e o que é tratamento ortóptico?

Técnica pouco conhecida auxilia em problemas de visão como o estrabismo

Visão embaçada, dor de cabeça, enjoo, tontura, embaralhamento e cansaço na hora de ler são alguns dos sintomas que fazem com que muitas pessoas busquem por oftalmologistas, na maior parte dos casos já com uma certeza de que vão precisar usar óculos. Esses problemas, porém, podem ter uma motivação um pouco diferente. Já pensou que o problema pode ser a musculatura dos olhos e uma dificuldade de os dois atuarem juntos? É com isso que o tratamento ortóptico trabalha.

A ortóptica é a área das ciências da saúde que estuda a visão binocular, quando os olhos são usados em conjunto, em seus aspectos sensoriais e motores, suas relações com o desenvolvimento global do ser humano. O objetivo do tratamento ortóptico é ajudar pacientes na orientação do cérebro através de estímulos, reorganizando o equilíbrio binocular e fazendo com que os dois olhos trabalhem ao mesmo tempo.

Patrícia Voges Pereira é ortoptista há 9 anos e atente em clínica própria no centro de Porto Alegre. Ela explica que trabalha principalmente com três tipos de pacientes: adultos e crianças com estrabismo, pacientes com insuficiência na convergência e divergência da visão, e casos de visão dupla, causados muitas vezes por AVCs e traumas. “Trata-se de um treinamento para que o paciente obtenha um melhor uso de ambos os olhos. É um processo de reeducação visual que busca o uso correto dos olhos, proporcionando mais conforto e habilidade na visão”, disse. As sessões de tratamento, que duram cerca de 40 minutos cada, trabalham com exercícios que estimulam bastante os dois olhos a trabalharem em conjunto e também no fortalecimento muscular através de atividades de aproximação e afastamento de objetos, trabalhando bastante com o foco, problema bastante comum em adultos.

“Cada vem mais pessoas vem procurar o tratamento por aprestarem uma insuficiência de convergência que em alguns casos gera até uma falsa miopia, pois a pessoa não consegue enxergar de longe e o uso inadequado dos óculos pode até prejudicar mais. Isso se dá em decorrência do uso contínuo de aparelhos eletrônicos como computador e celular, que fazem com a visão seja bastante forçada”, explica Patrícia. Já com crianças o tratamento mais comum é para a correção do estrabismo. Segundo a ortoptista, cada caso é diferente e alguns são resolvidos apenas com o tratamento e em outros é necessário cirurgia também. O tempo de tratamento varia, dependendo muito do tipo de problema de cada paciente e do organismo de cada um, que responde mais ou menos rápido.

A profissional destaca que apesar de pouca gente conhecer esse tratamento, que se assemelha a uma fisioterapia para os olhos, ele já existe há 70 anos no Brasil e há mais tempo ainda em países da Europa, onde foi desenvolvido. O teste e diagnóstico para encaminhamento a um ortoptista é feito, normalmente, por um oftalmologista. Patrícia ressalta que é importante essa parceria entre os dois profissionais para que o tratamento tenha início o quanto antes e os resultados venham mais rápido. Ela ressalta ainda que o teste dura menos de dois minutos e mostra se os olhos trabalham juntos ou não.

 

Exercícios do tratamento ortóptico estimulam os dois olhos a trabalharem em conjunto. Foto: Laíse Feijó/ Beta Redação

Exercícios do tratamento ortóptico estimulam os dois olhos a trabalharem em conjunto. Foto: Laíse Feijó/ Beta Redação

 

Exercícios trabalham bastante com atividades relacionadas ao foco. Foto: Laíse Feijó/Beta Redação

Exercícios trabalham bastante com atividades relacionadas ao foco. Foto: Laíse Feijó/Beta Redação

 

Pra quem serve o tratamento ortóptico?

O analista de sistemas Patrick Pantoja da Silva, de 31 anos, é um dos pacientes de Patrícia. Ele conta que com 29 anos passou a sofrer com a visão dupla, que surgiu gradativamente e aumentou com o tempo, prejudicando sua qualidade de vida em um nível bem grande. “Eu passei por quatro ou cinco oftalmologistas e ninguém sabia do que se tratava e como tinha se desenvolvido esse quadro. Até que um especialista em desvios oculares sugeriu que eu buscasse o tratamento ortóptico, já que uma cirurgia para correção era uma alternativa muito arriscada. O próprio médico me disse que talvez fosse um tratamento que não me curasse totalmente, mas que poderia ajudar de alguma forma”, lembra Patrick.

O paciente destaca que iniciou o tratamento sem muitas esperanças e o resultado desejado demorou a ter início. Foram cerca de 10 meses de sessões semanais para que melhoras pudessem ser notadas. “Foram meses de trabalho, com consultas semanais de 40 minutos. A melhora demorou para vir, mas quando teve início o resultado foi ótimo. Hoje considero o problema como resolvido, mas sigo com as sessões uma vez ao mês para garantir que o distúrbio não volte”, finaliza Patrick.

Já no caso do consultor em tecnologia e estratégia, Elemar Rodrigues Severo Júnior, 38 anos, o resultado veio com maior rapidez, tendo melhoras perceptíveis desde a primeira sessão. Ele ficou sabendo do tratamento ortóptico pela sua oftalmologista, que o encaminhou para Patrícia Voges. O problema de Elemar era semelhante ao de Patrick: visão duplicada. “Inicialmente a minha oftalmologista não identificou o problema e acabou me receitando um óculos para astigmatismo. Com o tempo percebemos que o óculos não estava fazendo efeito e ela reavaliou e entendeu que talvez fosse melhor procurar o tratamento ortóptico. Junto com a Patrícia eu descobri alternativas para o meu problema, como o exercícios e as lentes com prisma, que mudaram totalmente a minha vida e me devolveram a capacidade de ser produtivo, pois eu não conseguia nem sair de casa sozinho. E esse tratamento aliado ao óculos adequado me trouxe toda a autonomia que tinha perdido”, explica.

Formação na área

Patrícia Voges conta que conheceu a ortóptica pois teve estrabismo na infância. O problema fez com que ela precisasse realizar cirurgias, que aliadas ao tratamento ortóptico que fez por anos, resultaram em um recuperação total. “Eu brinco que eu sou um exemplo de que a ortóptica funciona mesmo”, disse.

O interesse pela área veio daí e as informações sobre a graduação partiram da profissional que a atendia quando mais nova. Patrícia, porém, teve que ir longe para se especializar. “Eu fiz o meu curso como graduação e especificamente em ortóptica. Na época ele tinha duração de três anos e era oferecido apenas no Rio de Janeiro. Não precisei fazer medicina e nem oftalmologia, é como se fosse um curso de fisioterapia, onde se estuda diretamente a área em específico”, ressalta. Ela se formou em 2009, pelo Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação, e lembra que a procura pelo curso sempre foi baixa, tanto que atualmente a graduação não existe mais, apenas na modalidade de pós.

 

Patrícia Voges Pereira trabalha como ortoptista há 9 anos. Foto: Laíse Feijó/ Beta Redação

Patrícia Voges Pereira trabalha como ortoptista há 9 anos. Foto: Laíse Feijó/ Beta Redação

 

Durante os três anos de estudo ela morou no Rio de Janeiro e retornou para Porto Alegre assim que concluiu a graduação. “A minha ideia sempre foi atuar por aqui, justamente pela falta de profissionais da área na cidade. Ainda somos poucos aqui no sul”, frisou. Patrícia atende em um consultório próprio desde março de 2009. Sobre os aparelhos que utiliza nos tratamentos e reabilitação, ela destaca que todos são bem caros e fabricados fora do país, ficando mais difícil de obter.

Segundo o Conselho Brasileiro de Ortóptica, atuante no país há 65 anos, o clínico o Ortoptista, como é conhecido hoje, tem como atribuições: identificar, avaliar, prevenir e auxiliar a recuperação das deficiências sensório-motoras, funcionais da visão, por meio de aparelhagem e técnicas específicas a fim de desenvolver condições para o uso correto e confortável da visão mono e binocular. Ao ortoptista cabe ainda orientar a família do paciente a respeito do problema existente e da necessidade de tratamento adequado para que o maior rendimento possível seja obtido e o melhor resultado alcançado. O Conselho ressalta que a luta travada pela classe dos profissionais em Ortóptica pela regulamentação profissão é árdua. Segundo a organização, até o momento, apesar de todo empenho e dedicação do grupo que se ocupou e/ou se ocupa do assunto, a regulamentação não foi alcançada.

O tratamento ortóptico não está disponível na rede pública de saúde e nem nos convênios. As sessões podem ser realizadas apenas via atendimento particular. Os valores variam conforme o profissional, mas cada consulta não passa de R$100.

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