Cultura

Por que os gaúchos comemoram uma guerra perdida?

Historiadores debatem o que a Revolução Farroupilha representa para cultura gaúcha

Revolução Farroupilha é motivo de divergência entre historiadores gaúchos. Crédito da imagem: A Casa das 7 Mulheres/ Globo 2013

 

A Semana Farroupilha é o ponto máximo da cultura tradicionalista gaúcha, que culmina no dia 20 de setembro todos os anos. Na madrugada desse mesmo dia, em 1835, tropas rebeldes ao império de Pedro II invadiram e tomaram Porto Alegre, dando início a chamada Revolução Farroupilha. Eles buscavam criar uma república separatista ao Brasil, elaborando um sistema parecido com o modelo que surgiu a partir da independência dos Estados Unidos da América.

Durante 10 anos, o sul viveu uma guerra civil recheada de batalhas sangrentas. O contingente separatista chegou a  formar suas  linhas de batalha com um total 6 mil homens. Entretanto, divergências entre as três correntes rebeldes levaram a uma derrocada das forças de rebelião. Em 1º de março de 1845, com suas tropas exauridas e encurraladas na fronteira com Uruguai, o general Bento Gonçalves assinou o tratado de Poncho Verde. Com isso, cerca de mil soldados farrapos, como ficaram conhecidos os rebeldes, se renderam sob a condição de anistia do Império. Eles foram então integrados ao exército brasileiro para lutar contra Juan Manuel Rosas, ditador que governava a província argentina e ameaçava invadir a Província de São Pedro do Sul, como era chamado o estado gaúcho até então.

Certo, mas espere aí. O que os gaúchos comemoram se a Revolução Farroupilha foi uma guerra perdida? Faz um chimarrão e senta para ler porque a discussão é grande. Há quem defenda que a revolução não foi uma derrota e também existem aqueles que criticam com veemência as comemorações do 20 de setembro. Por isso, dividimos alguns pontos de discussão entre os historiadores para que, a partir deles, você tire suas próprias conclusões.

 

O que foi a Revolução Farroupilha

Para o ex-presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho e historiador, Manoelito Carlos Savaris,  a Revolução foi o desfecho de uma série de episódios anteriores, com causas econômicas, políticas, militares e religiosas envolvidas. “Devemos entender que não se tratou de um movimento isolado. No mesmo período ocorreram várias revoltas no Brasil, basicamente com os mesmos objetivos”, explica. Segundo ele, o  fim da revolução não seguiu nenhum modelo conhecido na história dos povos. “Não houve rendição, não houve presos, não houve processos judiciais e o ‘vencedor’ pagou as contas do ‘perdedor'”.

“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra.” O refrão do hino Rio Grandense não faz jus ao ponto de vista de historiadores como Tau Golin e Juremir Machado. Para eles, o movimento tradicionalista distorce o que de fato representou a  Revolução Farroupilha.  Juremir classifica a Guerra dos Farrapos como uma das rebeliões da regência, que massacrou escravos negros em prol dos interesses econômicos dos estancieiros. “Poderia ter sido abolicionista, mas não foi. Na verdade, foi uma insurreição de proprietários em defesa dos seus interesses. Uma espécie de guerra civil com a ideologia da Farsul de hoje e os métodos das Farc de até ontem”, compara.

Heróis ou não?

Talvez uma das maiores divergências seja quanto à exaltação do movimento tradicionalista ao heroísmo das tropas, que afinal se renderam e decretaram o fim da guerra.  Para o tradicionalista Savaris, os revolucionários de 35 são heróis por seus feitos, por sua coragem, sua valentia, etc. Não há desonra ou demérito na “Paz de Ponche Verde”. Segundo ele,  os farroupilhas estavam com pouquíssimos homens (menos de mil), com escassa munição, com poucos cavalos e cansados. “O acordo para o fim da revolução atendeu a necessidade dos farroupilhas e aos interesses do Império, que precisava dos gaúchos para barrar a invasão de Rosas”, avalia.

Entretanto, Juremir Machado, autor do livro História Regional da Infâmia, entende que essa visão heroica é o que os republicanos utilizaram  para cimentar o mito fundador do estado. “Tudo isso faz parte das narrativas mitologizantes para dar bons sentimentos ao presente com base no passado. Não tem futuro”, delibera.

 

A herança Farroupilha e o sentimento separatista

A Revolução Farroupilha teve impacto na formação na identidade cultural do Rio Grande do Sul e de um sentimento separatista que persiste até hoje, gerando inclusive a criação de novo movimento separatista chamado “O Sul é Meu País”. Os críticos acreditam que essa identificação foi cimentada sobre  mitos e ilusões. Tau Golin expressa que a herança farroupilha é uma mentira. “Se considerarmos a população do Rio Grande, a esmagadora maioria não possui descendência farrapa”. Ele ressalta que  as tropas rebeldes representavam 1,5% dos 400 mil habitantes da província durante o período de guerra. “Obviamente, 98,5% estavam em armas a favor do Brasil, defendendo as cidades e vilas, protegendo suas propriedades da expropriação, ou alheia à guerra civil, além daqueles que fugiam da arregimentação compulsória do exército farrapo”.

Apesar de ser contra ao separatismo, Manoelito Savaris dispõe que o forte sentimento nativista está presente em várias sociedades espalhadas pelo mundo, que defendem independência. Ele também lembra que, mesmo tendo proclamado uma república independente, não queriam a separação. “Em seus manifestos, Bento Gonçalves sempre defendeu a federação (estados com certa independência mas federados), assim como correu nos EUA”.

Comemorar uma guerra perdida

 

dsc06743“As guerras se ganham ou se perdem, muito mais pelas ideias do que pelas armas. Tudo o que os farroupilhas defenderam entre 1835 e 1845 acabou por acontecer no Brasil em 1889. Os farroupilhas não tiveram forças para impor suas ideias durante a Revolução, mas viram seu ideal acontecer 50 anos depois. Para mim, não houve ‘guerra perdida’, o que houve foi um atraso de 50 anos para o Brasil entender que os farrapos tinham razão.” Manoelito Carlos Savaris, ex- presidente do MTG e Historiador.

juremir“Até quando teremos que tapar o sol com a peneira para não ferir as suscetibilidades dos que homenageiam anualmente uma ‘revolução’ que desconhecem? Até quando teremos de aliviar as críticas para não ofender os que, por não terem estudado História, acreditam que os farroupilhas foram idealistas, abolicionistas e republicanos desde sempre? Os gaúchos comemoram por acharem que ganhamos. É uma ilusão alimentada ano a ano.”  Juremir Machado, jornalista e historiador.

 

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