Esporte

Por que corremos?

A motivação para a corrida de rua

Para calçar o tênis e sair as ruas é preciso um componente pessoal, é preciso algo que nos faça responder a nós mesmos: porque corremos?

Ela era obesa, pesava 100 kg e começava a ter problemas de saúde. Consultou dois médicos, um lhe indicou uma cirurgia bariátrica, o outro, sugeriu a prática de exercícios físicos e a reeducação alimentar. Ela escolheu a segunda opção e após dois anos, com 40 kg a menos, tinha adquirido um hobbie que nunca imaginara: a corrida de rua.

O tempo passou e a professora e empresária Claudia Mombach, não precisaria mais praticar corridas para perder peso. Apenas a academia que já realizava lhe traria o corpo saudável do qual necessitava. Ela não desistiu e hoje, corre de 3 a 4 dias na semana. Então o que motiva Claudia e outras tantas pessoas a praticar uma das atividades físicas mais simples e populares que existe? Afinal de contas o que nos motiva a correr e continuar correndo?

A saúde

A história de Claudia é o retrato do que estimula muitas pessoas a começar a correr. A necessidade de realizar atividades físicas para melhorar a saúde. Com 32 anos e um estilo de vida amparado no trabalho e no sedentarismo já acumulava problemas de saúde. “Eu tinha problemas sérios de gastrite, estava iniciando uma hérnia de hiato e o médico da clinica que eu ia recomendou que eu colocasse um balão gástrico, explicando que tudo o que eu tinha era em função do sobrepeso”, relata.

A professora não se conformou com a ideia e decidiu seguir o conselho de outro médico: passou a praticar a caminhada e depois correr. No começo as passadas foram lentas, mas o ritmo aumentou e, em poucos meses ela já conseguia alcançar um nível maior na corrida. O ápice veio quando completou o primeiro quilometro correndo no parque próximo de casa. “A primeira vez que eu consegui dar uma volta inteira correndo, foi uma sensação imensa, uma sensação de superar os meus limites, mesmo a pista no parque só tendo um quilometro”, comenta.

 

Claudïa Mombach antes do treino de corrida - Foto Thiago dos Santos

Claudïa Mombach antes do treino com grupo de corrida (Foto: Thiago dos Santos)

 

Do esporte a profissão

Para o preparador físico Cléber Farias, a corrida tem um significado a mais. “Quando era pequeno, sempre me envolvi com o futebol. Só que no tempo de escolinha, de guri, a pior coisa era correr. Fazia inúmeras estripulias pra não correr, evitava de qualquer jeito. Mas com 13 para 14 anos percebi que a questão física poderia me ajudar a ir melhor nos jogos. Então comecei a treinar a corrida”.

O que começou como treino, logo virou rotina e na hora da escolha da faculdade, Cléber não teve dúvidas. “Eu fiz a educação física porque vi que o esporte estava inerente dentro de mim e eu tinha aptidão para aquilo. Foi uma coisa assim…a profissão que me escolheu. E a corrida foi fundamental nisso”, ressalta.

Ao se formar Cléber começou  a atuar como preparador físico, tanto em academias, como de forma particular. Além das instruções, o profissional sempre buscou incentivar seus alunos a treinamentos funcionais, como a prática da corrida em paralelo com a musculação. E foi com essa postura que logo surgiu um novo projeto, o grupo de corrida. “Eu trabalhava com alguns alunos particulares e um desses meus alunos, logo no começo das aulas disse que estava enjoado de musculação. Como eu gostava da corrida, propus para ele começar um grupo de corrida. E assim montei nosso primeiro grupo de corrida de rua”, explica.

O grupo de corrida de Cléber hoje conta com mais de 40 alunos, entre eles a professora Claudia. E quando questionado sobre o esporte, Cléber é direto: “A corrida é um esporte individual, mas que pra mim funciona como uma terapia. A corrida salva vidas, a Claudia é um caso. Pode pegar uma pessoa depressiva ou estressada e, colocar a correr, então verá que a atividade a transforma.

 

Cléber em um evento de corrida. Além de preparador físico e instrutor no grupo de corrida, o profissional também corre em alguns eventos. Foto de arquivo pessoal

Cléber em um evento de corrida. Além de preparador físico e instrutor no grupo de corrida, o profissional também corre em alguns eventos. (Foto: Arquivo pessoal)

 

A motivação

Cléber e Claudia ainda nem eram nascidos quando Adão Camões começou a correr profissionalmente. A prática foi impulsionada através do futebol. E logo, o corredor começou a chamar atenção pela velocidade e desempenho nas pistas.

Mas, foi em 1981 que, Adão conseguiu seu maior titulo no esporte, o primeiro lugar na primeira maratona de Porto Alegre. “Ganhei a primeira maratona de Porto Alegre meio que sem querer. Eu corria 10 quilômetros por dia na época e me chamaram para correr a maratona mais para representar.  E eu fui. 46 quilômetros. Chegou uma hora e os caras disseram, tu tá ‘pontiando’. E assim ganhei”, conta.

Apesar da humildade, Camões fez história como corredor de rua. Além da primeira maratona de Porto Alegre, participou de inúmeras competições nacionais e internacionais durante sua carreira, chegando a correr ao lado do queniano Paul Tergat, vencedor de duas medalhas de prata nos jogos olímpicos.

E mesmo hoje, após a aposentadoria das pistas, Adão continua envolvido com o esporte, seja com treinamento ou apoio psicológico. Sua dedicação é voluntária e seu objetivo é claro: utilizar a corrida como forma de motivação. “A corrida é uma coisa mais democrática, é mais barata, você pega um tênis e vai correr. E agora eu to treinando quatro atletas, um deles, está com problema de escolaridade. Acho que a gente pode recuperar ele com a corrida. Esse esporte é uma máquina de recuperar pessoas”, comenta.

 

Adão Camões em cerimonia de premiação ao lado de Paul Target Foto de arquivo pessoal

Adão Camões em cerimônia de premiação ao lado de Paul Target. (Foto: Arquivo pessoal)

 

Em movimento

No livro “Do que eu falo quando falo de corrida” o autor Japonês Haruki Murakami, tenta explicar o que o motiva a correr e continuar correndo.

A conclusão de Murakami é que não há um esclarecimento de porque corremos. A motivação, a fagulha que nos faz calçar os tênis e sair, faça chuva ou sol, perambulando pela rua, é algo tão pessoal que simplesmente não há explicações para isso.

Se tem algo que qualquer corredor compartilha, seja o Cleber, a Claudia, o Adão ou tantos outros, é que a corrida é um dos esportes mais simples, práticos e democráticos do mundo. Mas a meta é sua, o desafio é seu. E a vontade de supera-lo tem que vir de dentro de você. E esse é o seu motivo. E esse é o seu porque de correr. Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença.

 

Grupo de corrida criado por Cléber em parceria com academia de musculação de Sapucaia do Sul - Foto Thiago dos Santos

Grupo de corrida criado por Cléber em parceria com academia de musculação de Sapucaia do Sul. (Foto: Thiago dos Santos)

 

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