Cultura

Plataformas de streaming ainda estão desatualizadas no Brasil

Livro “Imitação do Excesso: Televisão, Streaming e o Brasil” traz olhar acerca do tema

Não é novidade que os serviços de streaming vêm crescendo em cenário nacional. Bons exemplos disso são a Netflix, o Youtube e, mais recentemente, a Amazon Prime. Doutor em Sociologia, comunicador social e professor de Jornalismo da Unisinos, João Damasceno Martins Ladeira realizou, no último dia 7, o lançamento online do livro Imitação do Excesso: Televisão, Streaming e o Brasil. No dia 25 de março, ocorrerá o lançamento presencial na Livraria Bamboletras, em Porto Alegre, às 18h.

Interessado desde 2010 pelo tema, Ladeira começou a perceber entre os anos de 2011 e 2012 as promessas que estavam sendo feitas no que se refere a produções audiovisuais. “A televisão é um negócio curioso, porque ela sempre prometeu que estaria em todo lugar, que seria um meio de comunicação que não conheceria fronteiras. E, de fato, foi isso. Por mais que a televisão prometesse isso, havia uma dificuldade intrínseca para lidar com esse mundo sem fronteiras que ela própria prometeu”, relata. Ao perceber que aquilo que a televisão prometia estava sendo feito por meio do streaming (nessa troca entre a apropriação da internet com a televisão e vice-versa), pesquisar sobre isso despertou o interesse do comunicador.

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Foto: Divulgação/Facebook

Afinal, o que é um serviço de streaming?

Streaming é a maneira pela qual se desenvolveu a transmissão instantânea de dados por meio da internet. Com a rede, é possível ter acesso a conteúdo online sem a necessidade de fazer download, tornando prática a interação dos usuários com os programas que podem acessar por esse tipo de plataforma. Os principais exemplos desse tipo de serviço no Brasil são Youtube, uma rede de vídeos; Netflix, de filmes e séries; e Spotify, de música.

Como ele funciona no Brasil?

O Brasil não pensa muito sobre streaming. Conforme Ladeira, o Estado poderia oferecer um suporte, como foi no caso dos Estados Unidos com Barack Obama, mas aqui nunca se pensou nisso e, na situação política atual, é menos pensado ainda. De acordo com o comunicador, a Globosat é a única que tenta usufruir desse tipo de serviço de alguma forma, mesmo que timidamente. Por exemplo, liberando conteúdos da televisão antecipadamente para usuários que possuem assinatura. Grandes emissoras do Brasil como o SBT, a Band e a Record não fazem absolutamente nada no que se refere a streaming e estão desatualizadas em relação ao tema. Para ele, o streaming no Brasil é a apropriação de alguma coisa que está acontecendo mundo afora.

Recordando o que aborda no livro, Ladeira diz que a obra está em torno do que acontece no Brasil em relação ao serviço, mas faz a comparação com os EUA no que se refere ao streaming. Sobre isso, revela: “O lance é que, fora do Brasil, a gente observa uma quantidade absurda de pessoas criando imagem e tentando inventar maneiras de distribuir conteúdo que já existem fora das redes, na internet. No Brasil essa miríade de gente fazendo coisas não é tão perceptível, por isso o nome do livro ‘A Imitação do Excesso'”, explica o autor.  “Eu brinco como se a história do Brasil fosse a história de uma cópia. Cópia é meio forte, mas é uma tentativa de fazer igual o que outras pessoas fazem em outros lugares, copiar de certa maneira e se apropriar dessa expansão. Só que é uma coisa que acontece dentro de uma certa trajetória brasileira, que em alguns momentos é decepcionante”, complementa.

Como o usuário enxerga o streaming?

O estudante do 6º semestre de Jornalismo Artur Cardoso Colombo, que há tempos tem interesse por cinema e pesquisa em torno da cinematografia, conta que atualmente não assiste nada vinculado à televisão aberta e dificilmente acompanha algo na TV a cabo – mesmo possuindo assinatura em casa. Porém, quando se trata de streaming, o aluno revela usufruir diariamente dos serviços, principalmente da Netflix e da Amazon Prime.

Questionado sobre o porquê de deixar de lado os serviços da televisão tradicional e se integrar quase que exclusivamente ao streaming, Colombo revela: “Migrei dos serviços de TV a cabo para o streaming porque a TV a cabo não me dava a liberdade de escolha que eu gostaria de ter com o conteúdo que consumo”. Ele ressalta que “no momento em que consegui essa liberdade com a Netflix, comecei a olhar para o próprio conteúdo oferecido e percebi que outros serviços de streaming me ofereciam a mesma liberdade por produtos diferentes, por um valor monetário diferente”.

Pensando nas expectativas sobre os serviços de streaming e televisão, o estudante, mesmo ponderando ser uma utopia, acredita que o ideal é possuir conteúdo de qualidade, barato, e com a livre escolha sobre o que assistir. Artur revela que atualmente os serviços de streaming realizam suas “exigências”, mas diz que não tem nenhum tipo de problema com a televisão e espera que ela – tanto aberta quanto a cabo – possa se adequar e atender a esse tipo de expectativa que a Netflix proporciona atualmente, por exemplo.

Netflix: Streaming de maior destaque em cenário nacional

Sempre citada quando entramos no assunto streaming, a Netflix se declara, de acordo com informações do site, como um serviço de transmissão online que permite aos clientes assistir a uma ampla variedade de séries de TV, filmes e documentários premiados em milhares de aparelhos conectados à internet. “Com a Netflix, você tem acesso ilimitado ao nosso conteúdo, sempre sem comerciais. Aqui você sempre encontra novidades. A cada mês, adicionamos novas séries de TV e filmes”, diz o site oficial da empresa.

Inicialmente funcionando como uma locadora de filmes, a partir de 2007 começou a utilizar os serviços de streaming, tornando-se uma rede global de televisão. Atualmente, a plataforma só não está presente em quatro países do mundo: China, Coreia do Norte, Crimeia e Síria, todos devido a questões políticas e/ou problemas de relacionamento com os Estados Unidos. O professor João Ladeira, que usa a Netflix como um dos objetos de sua obra, lembra da “segunda primeira” produção original da empresa, que ganhou destaque mundial e já possui quatro temporadas: a série House Of Cards. Pensada em 2011 e lançada oficialmente em 2013, é a série mais assistida entre as  produções da empresa.

Vale lembrar que no ano passado, em parceria com a produtora de São Paulo Boutique Filmes, a Netflix lançou a primeira série brasileira. 3% se baseia em uma divisão entre dois lados – o ruim, onde vivem 97% da população, e o bom, no qual habitam os outros 3% restantes. Para mudar de lado, cada pessoa tem apenas uma chance, a partir de um processo seletivo rigoroso. A discussão em torno da “meritocracia” é a base central da série.

Ladeira lembra que a Netflix conseguiu se tornar uma empresa mundial de maneira muito mais prática do que uma televisão, já que não precisa perguntar para alguém se o dono do material autoriza que isso ocorra. Ele compara com a dificuldade em conseguir apenas uma licença para exibir na televisão. Enquanto a Netflix se espalha pelo mundo, no ambiente televisivo seriam necessárias várias concessões para a exibição de programas em alguns países.

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