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Ciência e arte nos aproximam do “Planeta Vermelho”

Anúncio feito pela NASA animou esperançosos em encontrar vida em Marte, que é tema do novo filme de Ridley Scott

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Riscos formados em montanhas seriam, de fato, marcas de água escorrendo / Foto: NASA

O anúncio de que a NASA traria grandes notícias na última segunda-feira (28) gerou um clima de suspense digno dos maiores thrillers do cinema. O grand finale chegou com a informação de que foi encontrada evidência de água no planeta Marte. A novidade é a confirmação de uma suspeita existente desde que foram divulgadas fotos de montanhas marcianas com riscos que teriam sido formados por água salgada escorrendo.

De acordo com o anúncio, os pesquisadores que operam a sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) trabalharam nas imagens de baixa resolução feitas no planeta vermelho até conseguirem obter as informações necessárias – no caso, as diferentes sequências de luz – para tentar alcançar os dados sobre a composição das substâncias. A hipótese que foi reforçada é de que os veios deixados na superfície do planeta são formados por cristais de sal que absorvem umidade, notados através da separação da luz nas imagens. Resta saber de onde a substância capta a água: da atmosfera ou do solo.

Apaixonado por astronomia desde criança, quando observava as estrelas com a mãe e tinha contato com fascículos sobre o tema lançados por jornais, Carlos Rossa, 28 anos, acompanhou a novidade com entusiasmo. “Ainda que a água encontrada seja muito fria e salgada, poxa vida, é água correndo na superfície!”, vibra o doutorando em Energia Solar pela Universidade Politécnica de Madrid. Rossa lembra que o anúncio é um passo a mais para a descoberta de existências fora da Terra. “Ainda que possa haver formas de vida que dependam de quaisquer outros elementos, no momento o que temos por quimicamente mais provável é: para que a vida ecloda, dependemos de água ”, afirma.

Mestre em Física pela UFRGS, Luiz Augusto Leitão da Silva confirma o fato. “A Nasa vem procurando vida fora do planeta há muito tempo. E eles procuram formas de vida como as que conhecemos aqui na Terra, para as quais a água é indispensável”, conta. “A água seria, com certeza, uma peça vital nessa descoberta. É um passo gigantesco para descobrirmos se o planeta já teve vida no passado, ou talvez se ainda tem, mesmo que microorganismos”, afirma.

Otimista após o anúncio, Rossa acredita que a presença de água em grandes quantidades em Marte, se confirmada, também facilitará a elaboração de uma missão tripulada ao planeta. “Isso facilitaria muito uma estadia de humanos por lá a longo prazo. Pensemos em formas de se extrair e purificar a água para consumo”, comenta. “Ainda que estejamos por confirmar, é bem provável que a premissa ‘onde há água e sol suficiente, há vida’ seja verdadeira”, lembra ele.

Agora, resta a todos esperar mais novidades no desenrolar da história. “Acredito que o próximo passo seja realizar um levantamento abrangente dos dados, ir atrás de microfósseis, pesquisar nas calotas polares, no gelo. Talvez até recolher essas amostras e trazer para a Terra, se possível. Esse seria o planejamento a médio e longo prazo”, projeta Silva.

Para Rossa, as descobertas futuras sobre o planeta podem revolucionar a ciência. “Será mais uma quebra de paradigma e reposicionamento nosso no universo, iniciado de forma contundente com Copérnico, Kepler e Galileu a nos tirar do centro, passando por Hubble, que nos relegou a moradores de apenas mais uma galáxia. Podemos ainda olhar para fora de casa e entender o que há por aí, se autocompreender e criar a noção de responsabilidade com nosso lar”, diz.

O fascínio pelo Planeta Vermelho

Milton do Prado, coordenador do curso de Realização Audiovisual da Unisinos, lembra que o termo “marciano” existe há um bom tempo. “Minha mãe diria ‘vi um marciano’. Os termos ‘ET’ e ‘alienígena’ só pegaram depois de filmes como E.T. – O Extraterrestre e Alien”, comenta. Apesar de voltar ao foco com estreias como Perdido em Marte, de Ridley Scott, que chega aos cinemas em outubro, a apropriação do tema pela literatura e pelo cinema vem de muitas décadas. “O gênero de ficção científica faz justamente a abordagem de possibilidades a partir do que é levantado pela ciência”, explica Prado. “Viagem à Lua, de Georges Méliès, por exemplo, mostra que a lua ocupava um local no imaginário que já não ocupa mais”, conta.

Segundo Milton, a visão de Marte como uma ameaça à Terra ganhou corpo durante a Guerra Fria. “Eles traziam a imagem de Marte, o Planeta Vermelho. Óbvio que o vermelho não era à toa”, brinca. A exploração do tema em “filmes B”, populares, ainda que não levados tão a sério, cresceu na década de 80, mas vem de antes. A Guerra dos Mundos transmitida por Orson Welles em 1938 foi pintada como uma invasão marciana. Ray Bradbury, autor do clássico Fahrenheit 451, lançou em 1950 o livro Crônicas Marcianas, contando histórias de uma expedição para Marte. “Acho que foi uma das primeiras visões de Marte como um planeta colonizável”, afirma Milton.

Apesar de o gênero de ficção científica existir há décadas, o professor acredita que atualmente há uma relação mais complexa – ou uma complexidade mais evidente – entre a ciência e a arte. “Um livro como 2001 – Uma odisseia no espaço foi adaptado levantando não apenas questões científicas, mas filosóficas. Hoje em dia nós estamos, de certa forma, no futuro. Isso mostra essa necessidade de explorar possibilidades como forma de denúncia, mostrando o que pode dar errado, nos fazendo pensar”, comenta.

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