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Aborto: 64% acreditam que as mulheres devem decidir

Realizado pelo IBOPE Inteligência, estudo foi encomendado pela ONG Católicas pelo Direito de Decidir (CDD)

Uma pesquisa encomendada pela ONG Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), grupo que trabalha pela aprovação e efetiva implementação de leis, políticas públicas e serviços necessários à plena cidadania das mulheres, jovens, LGBTs, negras e negros, mostra que 64% dos entrevistados acreditam que o direito de decidir sobre o aborto deve ser da própria mulher. Isso representa um aumento de 3% em relação a mesma pesquisa realizada em 2010. “Precisamos tirar da discussão que o povo é contra o aborto”, afirma Rosângela Talib, coordenadora da CDD.

O estudo, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), foi realizado em 2017, entrevistou 2.002 pessoas, entre homens e mulheres, de 16 à 65 anos, em mais de 140 cidades brasileiras. A pergunta levantada aos participantes foi: Quem nesta lista o(a) sr(a) acha que deve decidir se uma mulher pode ou não interromper uma gravidez não planejada?

Gráfico divulgado pelo IBOPE Inteligência.

Gráfico divulgado pelo IBOPE Inteligência.

Por trás dos dados

 

Para a pesquisadora e professora no Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Daniela Riva Knauth, ainda há um imaginário social de que as pessoas são contrárias ao aborto. “Este é um imaginário reforçado por religiosos e políticos, mas que não corresponde à realidade do pensamento dos brasileiros”, opina. Ela destaca que há anos já existe um conceito diferenciado. “Já em 2010, as pesquisas informavam que os brasileiros consideravam que não era do Estado a competência de regular a prática do aborto, mas, sim, deixar esta decisão para as mulheres interessadas, de forma que possibilite que, aquelas que decidirem pela interrupção de uma gravidez, possam o fazer – do mesmo modo de que aquelas que decidirem levar a gravidez a termo têm este direito”, aponta.

Em 2010, 20% dos entrevistados marcaram a opção “nenhum”, referindo que não caberia a ninguém o direito de decidir sobre o aborto. Neste ano, 10% marcaram essa alternativa. Para Daniela, esta diferença se dá devido a uma maior discussão e politização da temática, fazendo com que as pessoas se posicionem a respeito.

“O ‘nenhum’ é reflexo da falta de posicionamento e reflexão. Hoje, parece que há uma demanda social para que as pessoas indiquem qual é a esfera na qual esta decisão deve ser tomada”, comenta.

Outro dado interessante levantado pela pesquisa mostra que 11% das mulheres marcaram “nenhum” e 4% delas marcaram “não sabe/não respondeu”. Mesmo tendo a maioria das mulheres concordando que a decisão é delas (70%), 15% do público feminino entrevistado não soube opinar sobre o assunto. “Embora mais discutido, o tema ainda é um tabu e a prática do aborto ainda é crime. Assim, ainda há um grupo de mulheres que, por alguma situação – seja violência, educação, religião, falta de escolaridade -, não consegue se posicionar a respeito do tema. A possibilidade de se posicionar favorável ao aborto depende, sem dúvida, das mulheres estarem em uma situação de maior igualdade, de menor vulnerabilidade social”, ressalta Daniela.

As observações levantadas pela professora também são reafirmadas pela pesquisa. Quanto maior a escolaridade, maior salário e entre moradores de capitais, a porcentagem é maior quanto à decisão do aborto ser da mulher (Ensino Superior, 76%; salário mais alto 70%; e moradores de capitais, 71%).

Entre a faixa etária, 70% dos jovens (de 16 a 24 anos) acreditam que a decisão sobre aborto é da mulher, porém, essa porcentagem decai nas outras idades. Daniela comenta que os jovens têm mais acesso à informação que os grupos etários de maior idade. “Isso acontece, pois os mais novos vivem em uma realidade na qual há uma maior discussão na mídia, nas redes sociais e novelas, sobre as questões de gênero, sexualidade e reprodução”, avalia. Para a pesquisadora, os depoimentos na internet e na mídia, especialmente sobre pessoas que fizeram aborto e que se posicionam favoráveis à prática, pode ser outro elemento que faz com que os jovens se identifiquem com o tema e atribuam a decisão à própria mulher. “Sem esquecer da nova onda de feminismo trazida pelas jovens que buscam outras formas de organização que fogem ao padrão do tradicional movimento social”, acrescenta.

Daniela aponta que está cada vez mais evidente que a criminalização do aborto no Brasil responde apenas a alguns nichos específicos. “Esse pensamento vêm de interesses de um grupo bastante minoritário da população brasileira, particularmente de parlamentares pertencentes à chamada ‘bancada religiosa’ e algumas lideranças católicas.”

Pesquisas de opinião, como a do IBOPE, mostram que os brasileiros, mesmo aqueles que se declaram pertencer a alguma designação religiosa, consideram que a decisão pelo aborto compete particularmente às mulheres. “Isto significa que não deve ser imposta pelo Estado, especialmente por um Estado que se proclama laico”, lembra a professora e pesquisadora da UFRGS.

“A manutenção desta prática na ilegalidade [aborto] e os obstáculos colocados a sua realização nas situações permitidas por lei pelo Congresso continuam a interessar nossos políticos que, ao contrário do movimento observado na esfera do judiciário, continuam não ouvindo a opinião da população brasileira e cegando para o conjunto de complicações e mortes evitáveis entre as mulheres”, finaliza Daniela Knauth.

Mais informações sobre a pesquisa

“Contratamos o IBOPE Inteligência, por ser uma instituição conhecida e renomada. Esse é um tema pendente em nossa sociedade e precisamos mostrar qual a opinião pública sobre o assunto”, diz Rosângela Talib, coordenadora da CDD.  Para ela, é importante discutir sobre o tema.

“No Brasil, ocorrem mais de um milhão de abortos. Falta discussão, e, com um parlamento conservador, que tenta tornar o aborto um crime hediondo, precisamos mostrar que a população pensa diferente”, comenta.

Rosângela aponta que é há um receio por parte das mulheres se posicionarem quanto ao aborto por ele ainda ser um crime. “A mulher é criminalizada por abortar, pode ir para a prisão. Isso é um peso significativo e faz com que algumas mulheres não se posicionem”, argumenta. O artigo 124 do Código Penal prevê prisão de um a três anos para quem aborta de propósito. O aborto é permitido apenas em três casos: quando não há outro meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo.

Quanto à religião dos entrevistados, 65% dos católicos e 58% dos evangélicos acreditam que a decisão do aborto é da mulher.”A pesquisa só reafirmou o que já sabíamos”, comenta a coordenadora.

Para Rosângela, a ONG Católicas pelo Direito de Decidir mostra que é possível ser católico e divergir de princípios da igreja. “Queremos um revisão do posicionamento da igreja sobre a sexualidade”, reforça.

Além de os dados terem sido encaminhados aos Ministros do Supremo Tribunal Federal e ao Parlamento, Rosângela Talib também comenta que eles podem auxiliar pesquisadoras: “Os dados são públicos e podem ser utilizados em artigos e pesquisas científicas.”

Todos os dados da pesquisa podem ser conferidos por este link.

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