Cultura

PERFIL: Maria Zilles Knorst e a dedicação às danças alemãs

Professora preserva a cultura na comunidade de Pinhal Alto, em Nova Petrópolis

Ao abrir a porta do local de ensaio, é possível ver o sorriso largo no rosto das crianças ao verem a “Tia Maria”. Nomeada assim pelos seus alunos, Maria Zilles Knorst, de 70 anos, é professora de danças há exatos 39 anos.

Maria é natural de Dois Irmãos, mas viveu grande parte de sua vida em Nova Petrópolis. Criada em uma família humilde de oito irmãos, se destacava pelas altas notas no colégio e por ser uma menina que gostava de ajudar os outros.

Por conta dessa aptidão, foi convidada a lecionar algumas matérias no colégio onde estudava, o que lhe deu motivação para prosseguir nos estudos. Cursou magistério e três anos de licenciatura em língua portuguesa e inglesa numa faculdade de férias. Quando terminou o curso, ainda não estava feliz. Queria novos desafios. No ano de 1977, quando tinha 31 anos, matriculou-se no curso de licenciatura plena em Letras na Universidade de Caxias do Sul (UCS), onde passou quatro anos finalizando seus estudos.

Na mesma época que iniciava seus estudos na UCS, a então professora de magistério na Escola Fundamental São José, da comunidade do Pinhal Alto (interior de Nova Petrópolis), não se sentia completamente realizada em somente aplicar matéria para os seus alunos do primeiro ao quarto ano, e passou também a dar aulas de coral, teatro e principalmente dança gauchesca. “Sentia-me bem em poder oferecer algo a mais para os meus alunos”, ressalta a orientadora.

Maria explica que suas pesquisas para as aulas de dança vieram de um pequeno curso de dança gauchesca que ela havia feito no mesmo ano. “Eu aprendia no curso e passava para os meus alunos. A gente se virava com o que tinha, seja com música ou com os trajes para as apresentações. A dificuldade financeira na época era grande”, esclarece.

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Em meados de 1977, em uma das primeiras apresentações do grupo. Foto: Arquivo Maria Z. Knorst

Porém, com o decorrer do tempo, os alunos questionavam-se em relação aos seus traços étnicos, e almejavam integrar uma cultura com que se identificassem. Assim em março de 1980, Maria fundou o Volkstanzgruppe Tannenwald (Grupo de Danças Alemãs do Pinhal Alto), que não era mais praticado na escola, mas considerado uma atividade de contra turno. Os alunos, assim como a professora, não entendiam nada em relação às danças alemãs. Mas a vontade de conhecer e divulgar a sua cultura era o que os movia.

No decorrer dos anos, o grupo foi inventando os próprios passos de dança. Mas em 1983, Maria foi buscar maior conhecimento dos imigrantes alemães da Região Hunsrück. Participou do primeiro curso de danças folclóricas, onde segundo a professora o “mundo virou às avessas”, pois praticamente tudo que era ensaiado ou apresentado por ela estava errado. “Eu aprendi muito naquele curso, não somente a dança alemã, mas também os costumes, os trajes, etc. Mudamos muitas coisas a partir dali. Houve divisão de categorias, obtivemos mais apresentações, buscamos ajuda financeira para trajes, organizamos eventos”, explica.

Após 31 anos de sala de aula, a “Tia Maria” abandonou o posto de professora no quadro-negro, mas continuou a se dedicar ao grupo de danças, teatro e canto coral. Atualmente, Maria atende mais de 55 alunos e dedica cinco horas por semana para os ensaios, mais algumas horas na sua casa para adquirir conhecimento das danças e tradições germânicas. Ela repassa esse conhecimento para as quatro categorias que ensina: mirim, infantil, infanto-juvenil e adulto. A educadora contabiliza 216 pessoas que passaram por ela na categoria adulto.

Fotos: Néia Dutra

A professora acredita que a arte faz as crianças e adolescentes se ocuparem com algo sadio. Já levou vários dançarinos a intercâmbios culturais, permitindo-lhes conhecer outros municípios, estados e até outros países. Ela diz que o Volkstangruppe Tannenwald é um filho que ela concebeu com ajuda de várias pessoas e o cria com muito amor até hoje. “É meu apostolado. Sempre tenho como pensamento assim: a vida se torna mais feliz e tem mais sentido se você abraça uma causa em prol de uma humanidade melhor. Essa é a minha maneira de contribuir para comunidade e para o mundo. Muitos já passaram por mim e também levam esses ensinamentos adiante”, declara.

Maria crê que ainda existe um longo caminho pela frente na difusão da cultura. Para ela, dançar e atuar representa sua vida. “É disciplina, é respeito, socialização, convivência. Sou recompensada ao ver a alegria das crianças. No dia que eu tiver que largar tudo isso, acredito que vou ficar dançando sozinha”, conclui a professora.

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