Cultura

José Padilha, do Ônibus 174 à Lava-Jato

A polêmica por trás da mais nova superprodução do diretor brasileiro

O diretor, roteirista e produtor carioca José Padilha é uma figura que levanta debates quando seu nome é mencionado. Responsável por produções como Ônibus 174 (2002), Tropa de Elite (2007), Tropa de Elite 2 (2010), Robocop (2014) e Narcos (2015), o cineasta fechou recentemente uma nova parceria com a Netflix para produzir uma série baseada na Operação Lava Jato, que deve ser lançada em 2017.

Não há dúvidas de que o Brasil vive um momento sociopolítico delicado. Independentemente da ideologia política, o povo cobra mudanças. Atualmente estamos presenciando o desenvolvimento da maior investigação sobre corrupção conduzida no país: a Operação Lava Jato iniciou com a apuração das movimentações de doleiros (pessoas que negociam dólares no mercado paralelo) e acabou por descobrir um grande esquema de propinas na Petrobras, com envolvimento de políticos de diversos partidos e das maiores empreiteiras do Brasil.

Tamanha repercussão midiática e social inspirou o jornalista Vladimir Neto a escrever um livro sobre o andamento da investigação. A obra, ainda não publicada, despertou o interesse de Padilha. Tal aproximação com a narrativa de acontecimentos verídicos e complexos do cenário brasileiro (e mundial), que geram opiniões opostas, já faz parte da experiência do diretor.

 

Narrativas complexas e questionadoras

O coordenador do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos, Milton do Prado, afirma que, como espectador atento e professor de cinema, acredita que Padilha apresenta pelo menos três vieses em suas produções: o caráter social, o despertar do questionamento do público sobre problemas no Brasil e América Latina e a produção “hollywoodiana”.

Prado afirma que o cineasta pensa muito em assuntos de grande repercussão, gosta de falar e expor suas opiniões e é bastante articulado. “Os filmes do Padilha, desde o Ônibus 174, são tecnicamente muito bem feitos e preocupados com a agilidade da narrativa. Não dá pra negar que ele domina isso. É um documentário muito envolvente, que te pega pelo pé. O Tropa de Elite também”, analisa.

 

 

Para Thiago Köche, bacharel em Realização Audiovisual pela Unisinos, o cineasta tem, acima de tudo, um dom bastante evidente para narrar uma história. “Como bom dominante de todas as áreas do audiovisual, ele sabe muito bem o que quer de cada setor (fotografia, edição, som) e, claro, escolhe excelentemente profissionais que o cercam”, afirma.

Segundo Köche, é impossível ficar entediado ao assistir suas obras e, quando se percebe, ela acaba. “Lembro direitinho dessa sensação quando vi o Tropa de Elite pela primeira vez. E depois, conhecendo a obra dele, tive o prazer de notar os mesmos traços em Ônibus 174, Tropa de Elite 2, a série Narcos… Acima de tudo, o José Padilha é um excelente storyteller”, completa.

De acordo com Prado, tal característica de Padilha é parte de sua pretensão como profissional. “Eu admiro essa qualidade de provocar questionamentos nas pessoas acerca desses temas. Mas, por outro lado, o fato de pensar grandes assuntos pode acabar levando para posições muito assertivas ou diretivas”, observa.

Prado ainda menciona que, pelo ponto de vista fílmico, sempre é possível aprendermos com as produções de Padilha, mas não necessariamente com as mensagens passadas por ele em seus filmes. “Os melhores, pra mim, são aqueles que me ensinam a ver as coisas de outras maneiras. Pode ser muito proveitoso. Mas ainda assim, desconfio muito de filmes com grandes temas, penso que eles já querem te dar uma lição”, aponta.

A partir do ponto de vista de Flávia Seligman, professora da disciplina de História do Cinema Brasileiro no curso de Realização Audiovisual da Unisinos, Padilha é um cineasta que não vê problema em fazer produtos comerciais. “Basicamente dá para dizer que o Tropa de Elite agradou todo mundo, afinal é o filme brasileiro com uma das maiores bilheterias do nosso cinema. Ele chega no público muito rápido”, descreve.

 

Trailer de Tropa de Elite (2007):

 

 

A professora atribui o sucesso de Padilha à facilidade e ao domínio de comunicação, que, ela ressalta, já ocorria muito antes de Tropa de Elite. “É claro que ele é polêmico, mas também acredito que até hoje tem um pouco de ‘ranço’ no cinema brasileiro, onde um filme de grande público teria que ser de baixa qualidade. Padilha faz o contrário disso. Parte para a massa e com alta qualidade, e isso é uma das coisas mais importantes nele”, aponta.

 

O que esperar de uma série baseada na Operação Lava-Jato

Apesar de Padilha apresentar grande qualidade e cuidado com as narrativas de suas obras, um questionamento surge em relação ao rumo que a história da maior operação contra a corrupção no Brasil pode levar. Afinal, os fatos ainda estão em curso, e a previsão de lançamento da série é para 2017.

Em entrevista ao jornal O Globo, o cineasta revelou que sua maior preocupação é produzir um conteúdo baseado em uma memória não encerrada. O fato de fazer parte de um processo histórico atual, que provavelmente estará em resolução à medida que a produção dos episódios acontece, é um dos desafios do carioca.

Ele explicou também de que forma está trabalhando com a questão de abertura e fechamento do enredo de acordo com o livro de Neto. “Estamos lendo enquanto ele escreve e organizando a história e seus personagens. Acho que ela ainda é mal compreendida pela população. Como funciona? O que faz cada um dos personagens e instituições envolvidos? Quais são as atribuições da Polícia Federal e dos procuradores? O que faz o Sérgio Moro? (…) Em suma, é revelar as engrenagens, ajudar a clareza, mas sobretudo mostrar o que as pessoas não podem ver, não têm acesso ao noticiário”, declarou o diretor.

Prado acredita que Padilha trouxe para o Brasil um outro modo de fazer filme, um tipo que chama de “entretenimento reflexivo”. Para ele, a série baseada na Operação Lava-Jato precisará se sustentar por si própria. Como exemplo, cita a possibilidade de haver personagens que estão no livro e não estarão na produção e vice-versa. “É preciso ter uma historinha que percorra toda série e outra que percorra cada capítulo. Um arco dramático que precisa ser pensado. Se as filmagens já tiverem iniciado, não há muito o que fazer caso ocorra uma mudança de fatos. A preocupação dele não é de ser fiel a todos os acontecimentos”, destaca.

Para o coordenador, a equipe de roteiristas já está falando sobre essa possibilidade a todo momento. Outra estratégia nova que pode ser usada, segundo Prado, é deixar claro que os fatos nos quais foram baseados o roteiro têm um limite de tempo. “Tem muita gente acusando ele de ser de direita. Isso porque ele andou dando declarações bastante polêmicas nos últimos dois anos, sobre morar fora do país porque não suporta mais o Brasil. É muito fácil o cara que fez filme em Hollywood falar assim, por isso acho que é preciso um certo cuidado”, ressalta.

Ele lembra que o Brasil está polarizado, dividido entre “esquerda e direita”, “é golpe e não é golpe”, “impeachment já e não ao impeachment”, “petralhas e coxinhas”. “Acredito que ele é oportunista, mas também é preciso aproveitar esses assuntos, mesmo que seja muito difícil falar de fatos que não estão acabados”, comenta.

Como exemplo de polêmica, mas com a qualidade de produção de Padilha em assuntos sociopolíticos, o coordenador cita Tropa de Elite e sua continuação: “É uma história das mais curiosas do cinema brasileiro. Dizem que o filme é fascista por causa do personagem do Capitão Nascimento. O personagem é, mas o filme não é. Assim como o Tropa já teve uma reação assim, o da série da Lava-Jato também vai ter. Enquanto uns enxergam o oportunismo por parte de Padilha, eu enxergo o risco de levar essa história adiante”, pontua. 

Seligman acredita que é bastante oportuno, mercadologicamente falando, produzir e lançar uma série baseada na operação da Polícia Federal, uma vez que o assunto não sai dos noticiários e das redes sociais. “Vivemos em um momento de polarização, de contra e a favor, ou tu ama ou tu odeia. Não se preocupa em nenhum momento em ser politicamente correto. Não estou tão polarizada, mas acredito que será interessante acompanhar esse processo do Padilha”, opina.

Para Köche, Padilha é uma pessoa que apoia a direita da política brasileira, o que faz muitos questionarem sua qualidade profissional por suas posições. Segundo o videomaker, é um erro pensar de tal maneira, pois Padilha não imprime isso em seus filmes. Assim como Prado, ele cita que muitas pessoas acusam o Tropa de Elite de ser um filme de direita.

“Discordo frontalmente. Capitão Nascimento é um fascista (ofensa extrema usada para uma pessoa de direita). O filme, não. O debate que o filme propõe é muito maior do que ser de direita ou de esquerda. Há, no filme, a visão da direita e da esquerda – e os fatos. Não se põe em xeque ‘o bem e o mal’, mas sim a realidade. O julgamento fica a critério do público”, explica.

Segundo Köche, porém, fazer uma série sobre a Operação Lava Jato enquanto o país ainda vive este momento crucial para a jovem e frágil democracia brasileira é um oportunismo financeiro declarado. “Um desserviço para uma sociedade em colapso pautada por uma grande mídia que desinforma e prega o discurso do ódio. A nação está dividida, a economia está congelada e não avançamos em nada por tudo isso. Há atos de violência, agressões, brigas, tudo por causa dessa dicotomia ideológica que o país vive. Aproveitar-se disso puramente pela popularidade e pelo lucro é um ato pequeno para um realizador audiovisual tão grande”, destaca.

De acordo com ele, se Padilha realmente quisesse expor a importância dessa operação que, querendo ou não, mudou o Brasil pra sempre, deixaria os fatos esfriarem e, claro, encerrarem-se, pois ainda estamos vivendo tudo isso. “José Padilha fez o filme mais popular da história do Brasil. Fez também o personagem mais famoso do país. Fez também o jargão mais popular do cinema nacional! Ele faz o que mais me admira em um cineasta: conseguir entreter e provocar o debate. Um filme que diverte mas acrescenta. Com certeza está no hall dos maiores realizadores audiovisuais brasileiros da história”, pondera.

Köche admira obras que trazem e levam para a realidade alternativa que Padilha quer contar, tanto no documentário como na ficção. “É um cara que conseguiu se dar bem financeiramente num ramo difícil no nosso país. Tanto que hoje produz mais no exterior do que aqui. Além de tudo, ganhou o principal prêmio de cinema (fora o circuito pop do Oscar) do mundo, pela direção de Tropa de Elite, o Urso de Ouro do Festival de Berlim. É uma referência e o principal nome do nosso cinema atualmente”, relata.

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