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A pele em que habito: o perfil de uma mulher travesti

Caracterizado como ruim, o termo travesti é ainda uma pecha evitada por muitas mulheres transicionadas, mas que pode ser uma alavanca de luta social

O termo travesti ainda é muito marginalizado pela sociedade, que não aceita as mulheres transicionadas da periferia

O termo travesti ainda é muito marginalizado pela sociedade, que não aceita as mulheres transicionadas da periferia (imagem: iStock)

 

Cabelo comprido, pernas grossas, feições dos rostos delicadas podem ser descritivos de qualquer mulher. Para quem vive à margem de uma construção social baseada em tabus rigorosos de gênero e sexualidade, essas descrições ficam ainda mais complexas e a intolerância começa a mostrar suas garras. Questões como identificação e até mesmo o próprio conceito de gênero acabam por perder forças quando a história real é bem mais contraditória do que a teoria. Foi assim com Carla Vargas, 25 anos, que, mesmo tendo certeza de quem era, enfrentou as barreiras impostas por uma sociedade heteronormativa que escolhe marcadores que, muitas vezes, não atendem a boa parte da parcela da população. “Para mim eu era uma mina. Eu não entendia bem o que aquilo significava, e muitas vezes me questionava porque para as pessoas isso era tão difícil de entender. Mas ainda assim, mesmo que outras pessoas não soubessem e eu nunca mais falasse sobre isso, eu sabia. E pra mim bastava”, relata a jovem que começou a assumir sua identidade de mulher travesti com 17 anos.

Para a leitura biológica construída socialmente, Carla é considerada intersexo, pois possui um útero, mas, por falta de conhecimento da família, teve que repor hormônio masculino no início da puberdade, pois não havia desenvolvido características consideradas masculinas, como barba, ombros largos e voz grossa. Quando começou a transicionar e utilizar hormônios femininos é que a notícia de que a facilidade para desenvolver um físico de mulher cisgênero não era apenas sorte, mas uma parte biológica que já vinha demonstrando seus sinais. “Se eu tivesse reposto hormônios masculinos – dos quais eu não precisava – talvez eu nem tivesse utilizado hormônio feminino”, explica. Ela ainda salienta que a transição foi somente uma parte do processo, e, mesmo após fazer cirurgia para a retirada do falo, a identificação como travesti é muito maior do que realizar uma leitura trans de si mesma. “Eu sou isso e ponto. Ninguém me ensinou a ser assim, eu sempre fui assim. E não é um lance interior, é tanto ou mais exterior”, afirma.

“A sociedade é higienizada e não aceita as travestis”

Com 20 anos, Carla conheceu o movimento feminista e passou a ter contato com meninas cisgênero e transexuais que auxiliaram no processo de entendimento do que era uma transição de gênero. “Eu não sabia o que era uma transição. As travestis da periferia não tomam remédios caros, optam por deixar o cabelo crescer, colocam silicone e eu sempre tive uma visão de que eu era uma mulher travesti, mesmo sem entender bem o conceito da palavra”, conta. Também foi através do movimento que ela pôde entender mais seu papel social como mulher travesti, pois, segundo ela, é uma questão identitária da América Latina, mas que produz seus reflexos quando marginaliza as que estão na periferia e só aceita as mulheres trans higienizadas. “É uma questão de classe. Eu sou da vila, então sou travesti. Se eu tivesse grana, poderia me denominar como trans, mas nem eu quero isso”, salienta. Para ela, a questão está em demonizar uma categoria inteira de pessoas por conta de uma palavra mal utilizada pela nossa língua, o que afasta, de fato, essas mulheres da luta por seus direitos.

“A gente é desumanizada e ‘dessignificada’. E muito desmoralizada também. Somos um corpo sem moral, subalterno, que a sociedade não consegue controlar. E isso pode ser utilizado como força de luta”, ela salienta. Carla acredita que ao não utilizar o termo travesti, acaba por excluir muitas mulheres que já são constantemente marginalizadas pela sociedade e que o empoderamento de aceitar essa nomenclatura também faz parte do processo de luta dessas mulheres. São elas as mulheres travestis periféricas, que são assassinadas, maltratadas e subjugadas por uma sociedade que insiste em colocar o comportamento humano em caixas catalogadas.

“Eu não vou me sentir livre enquanto ainda tiver mulheres travestis nas esquinas precisando se prostituir”

Como figura feminina materna e principalmente por uma proximidade emocional maior, Carla confiou à mãe o segredo de decidir assumir o que uma sociedade inteira quer esconder, mas o retorno não foi o esperado. Ela foi expulsa de casa e viveu em situação de rua por cerca de dois meses. “O pior de morar na rua não é a fome, como muita gente pensa. É o frio, que não só maltrata o corpo mas também dá uma sensação de abandono”, ela conta. Para Carla, que na época tinha apenas 13 anos, morar na rua foi viver um momento de grande aprendizado sobre a vida e que constitui boa parte de quem ela é hoje. Na rua, Carla não sofria com a transfobia, era tratada como “Guria” e foi acolhida por uma população que muitas vezes não tem o mínimo de informação, mas que muito entende sobre as dificuldades e complexidades de viver à margem da sociedade. “A rua é plural e eu tive que aprender isso. Mesmo eu tendo uma leitura como homem cisgênero, era simples para aquelas pessoas me tratar como eu me coloquei”. O que ainda choca, para ela, é a forma com que as pessoas em situação de rua se tornam invisíveis para a sociedade. “São corpos indignos, como se a gente não tivesse o direito de existir”, completa.

“Eu tinha uma carreira”

Carla é Designer e chegou a gerir contas de multinacionais conhecidas no Brasil em diversas agências de publicidade,  mas a partir do momento que decidiu assumir que é travesti, as portas se fecharam. Desenvolvedora de jogos e designer freelancer, ela acreditava que a solidez de sua carreira jamais faria com que Carla passasse o que muitas mulheres travestis passam, com a falta de oportunidades e o preconceito das empresas em contratar pessoas fora do padrão estabelecido pela ditadura da heteronormatividade. “Eu tinha uma carreira sólida, já trabalhava desde muito jovem na área de criação, e acreditava que me assumir não afetaria diretamente no meu trabalho, mas infelizmente afetou, e muito”, declara.

Para ela, a luta de afirmação da identidade travesti perpassa muitas questões, mas a principal delas é ser catalogada socialmente mais pela sua condição de gênero do que pelas atividades que exerce no cotidiano. Como moradora da periferia de São Leopoldo, ela sente que é o lugar em que se pode andar na rua sem medo de sofrer com a violência transfóbica de uma cidade cujo machismo é enraizado por uma cultura eurocêntrica. “Aqui na vila eu ando tranquila, não tenho medo. Não posso dizer que sou aceita como sou, porque isso não seria real, mas também não possuo o mesmo medo do que andar no centro da cidade”, ela completa.

Para Carla, o problema todo está na forma com que nos relacionamos com a questão de gênero, pois somente o embate real é que faz com que o mundo possa mudar. “Não quero que a sociedade passe a me aceitar por higienização de uma imagem. Gosto de chocar, porque a rua é isso. É ser tachada de suja, de transgressora e de subalterna. Mas são essas questões que dão o poder para a mulher travesti buscar sua afirmação nos espaços de luta”, reafirma.

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