Esporte

Peitando o rugby

Entenda como as mulheres estão inseridas em um esporte considerado como "masculino"

Esporte ainda pouco reconhecido no Brasil, o rugby, aos poucos, vem conquistando adeptos. Originário da Inglaterra no século XIX, a prática nasceu com grande influência do futebol (e há confusão em como funcionam os dois esportes até hoje). Sendo uma atividade de evasão e possuindo muito contato físico, muitos associam o rugby a um esporte violento, mesmo que essa não seja a realidade. Diferentemente de esportes tradicionais como o futebol, o rugby possui valores e princípios, e o primeiro deles é o respeito.

Por ainda ser assimilado a algo violento, e, consequentemente, a algo masculino de acordo com a cultura de nossa sociedade, mulheres que praticam o esporte precisam quebrar tabus no que se refere à feminilidade e aos estereótipos criados em torno do corpo feminino. Já é sabido que vivemos em uma sociedade machista que oprime diariamente o gênero feminino, e entender como ele se porta em uma categoria que, pelo pensamento hegemônico de séculos passados, não deveria fazer parte, é o que buscamos compreender.

De acordo com o presidente da Federação Gaúcha de Rugby Fabiano Galatti Ferrari, as atividades femininas são difundidas em clubes e pela confederação. Para ele, a seleção brasileira feminina conquistar resultados mais satisfatórios que a masculina, está ligado ao fato de a feminina possuir maior equilíbrio comparada ao outro gênero.

Já no que se refere aos investimentos à prática de mulheres, Ferrari ressalta que se deve melhorar, mas que os investimentos atuais são suficientes para a prática e suporte da categoria. Ainda, o presidente acredita que os homens ganham mais devido à maior visibilidade e renda para as marcas, o que acarreta maior pagamento aos atletas.

Como profissionais de rugby veem o esporte?

Ex-atleta da seleção brasileira e técnica de rugby, Lucia Beatriz Ferreira teve contato com o esporte em 2003. Em 2005, passou pela seletiva da seleção e jogou o campeonato sul-americano em São Paulo. Já em 2007, se aventurou na Europa e jogou na Irlanda. Em 2008, se machucou representando a seleção e voltou a jogar no fim de 2009 pelo Charrua, no Rio Grande do Sul. Voltou também à seleção e nos dois anos seguintes começou seus trabalhos como técnica no Charrua. Com uma nova lesão, afastou-se da carreira como jogadora. Em 2013, foi convidada para integrar a comissão técnica da seleção, mas em 2014 optou por não se mudar paraa São Paulo e se envolveu com a seleção gaúcha de rugby. Atualmente, auxilia o clube feminino do Charrua.

A ex-atleta acredita que há muita diferença no que se refere aos gêneros masculino e feminino no rugby. Ela relata que, com as novas políticas adotadas pela Confederação Brasileira de Rugby (CBRU), o apoio de marketing ao esporte praticados por homens é muito maior que o por mulheres. Ainda, ressalta que ser técnica não é fácil. “Ser treinadora e líder é uma coisa que ainda precisa ser trabalhada junto a todos para que as mulheres consigam ocupar cada vez mais esses espaços”, revela.

Quando perguntada sobre a possível diferença na remuneração para mulheres no esporte, conta: “Primeiro precisa ter remuneração para a remuneração ser diferente”. E acrescenta: “Se há diferenças em termos de salário? Acho que há diferenças em termos de oportunidades. Mulher não é contratada pra trabalhar com rugby, diferentemente dos homens”.

Árbitra de rugby e ex-jogadora, Ana Paula Kutscher Ripoll iniciou contato com o esporte em 2009, por meio de uma amiga. Entre 2012 e 2014 atuou pelo time San Diego, até que decidiu ser exclusivamente árbitra do esporte, no que se mantém até hoje. Ripoll acredita que o principal problema no rugby feminino é a falta de incentivo. “Mulher no esporte, em geral, não tem cultura de esporte. Quando a gente é pequena, aprende a brincar com uma boneca, não a jogar com uma bola ou ter noção de como funciona uma gestão de esporte”, conta.

Ela relata que já sofreu casos de machismo, principalmente no interior do estado, no qual as pessoas estão muito habituadas com o futebol e exercem os mesmos preconceitos. Contudo, diz que não costuma ter problemas devido ao seu gênero de maneira geral. Para homens e mulheres árbitros o salário é igual, já que o preço é fixado pela confederação. A árbitra tem como expectativa que, por meio da missão e os valores que o rugby prega, seja possível difundir o esporte o máximo possível, mesmo que a divulgação do esporte feminino esteja muito abaixo do masculino devido às verbas maiores deste.

Respeito, discriminação, incentivo e profissionalização. A prática esportiva do rugby pelas mulheres levanta diversas questões. No podcast abaixo, a árbitra Ana Paula Ripoll e a a técnica Lúcia Beatriz Ferreira debatem essas questões:

*Produção, narração e edição do podcast: Dyessica Abadi

Atletas de rugby feminino

Jogadora da seleção brasileira, Luiza Gonzales da Costa Campos joga profissionalmente há cinco anos. Iniciou em 2010 no clube Charrua, aos 20 anos, e teve como principal dificuldade inicial a falta de torneios para competir em alto nível e os custos serem quitados exclusivamente pelas atletas, sem apoio da confederação.

Para Gonzales, ainda não há investimento suficiente para alto rendimento no Brasil. Sobre ser mulher e representar o Brasil na seleção, ela revela: “Ser mulher no Brasil ainda é complicado, pois temos muita discriminação dentro do esporte e na sociedade. E por ser uma mulher forte jogando um esporte de muito contato, eu me sinto muito orgulhosa e empoderada por ajudar a criar outra ideia sobre a mulher brasileira e  acrescentar à visão de que somos mais fortes, guerreiras e capazes”.

Atleta e componente da direção administrativa do Minuano Rugby Clube, de Canoas, Fernanda Capra conta que iniciou seu contato com o rugby em 2015.  Pra ela, o rugby é uma alternativa a pessoas que não se encaixam em outros esportes. “Cada esporte geralmente tem uma característica que confere vantagem (como ser alto, ser veloz, ser ágil, etc) e predomina na maioria de seus praticantes. O rugby é muito democrático nesse sentido, pois tem lugar para todos os tipos de pessoas, então isso pode servir como uma ‘saída’ para as pessoas que querem praticar algum esporte, mas não sentem que ‘têm lugar’ entre os mais populares”, revela.

Fernanda explica que o esporte é simples, diferentemente do que muitos pensam, e explica: “É um esporte de evasão em que o objetivo é pontuar atravessando o campo adversário e apoiando a bola no solo. A bola só pode ser passada para trás e a pessoa que está com a bola pode ser levada ao chão com um ‘tackle’”.

Como maior dificuldade, a atleta acredita que há várias, mas taxa como principal a falta de participantes, já que o esporte ainda não é muito conhecido e difundido no país, além de também ser difícil conseguir apoio financeiro. Isso não impede que a atleta adore o esporte, já que ele é extremamente coletivo e tem bastante contato físico.

Numa chuvosa tarde de sábado, as atletas do Minuano Rugby Clube mantiveram-se aquecidas pulando, correndo e flexionando. A força destas meninas de 13 a 26 anos é visível tanto em suas expressões faciais, quanto na rigidez de seus músculos. Olhares determinados e sorrisos divertidos: o rugby pode ser um esporte de contato intenso, mas a intensidade destas meninas sobrepõe-se a qualquer outra coisa.

*Ensaio fotográfico e foto de capa: Dyessica Abadi

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