Esporte

Pedalando por dias melhores

Grupos de ciclismo buscam na coletividade, além de novas relações, segurança para a prática e força para a conscientização por investimentos em mobilidade urbana

Ciclovias, grupos de “pedal” nas redes sociais, BikePoa e até mesmo o fatídico atropelamento do grupo Massa Crítica, em 2011, chamam a atenção para o visível crescimento no número de praticantes do ciclismo no Rio Grande do Sul. Segundo dados do Observatório da Cidade de Porto Alegre – ObservaPOA – fornecidos pela EPTC, o número de acidentes de trânsito envolvendo bicicletas na Capital deu um salto a partir dos anos 2000. O início desta década registrou 149 acidentes, enquanto em 2001 foram 279, no ano seguinte, 411, atingindo o auge em 2003, com 479 acidentes. O dado mais recente, do ano passado, já mostra uma significativa queda, com 214 acidentes.

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Acidentes envolvendo bicicletas em Porto Alegre. Gráfico: ObservaPOA

Esse fato contrasta com o aumento das ciclovias em Porto Alegre. Em 2015, o percentual de quilômetros de ciclovias permanentes em relação ao total de vias da cidade fechou em 1,60%, o equivalente a 44,6 km, enquanto em 2007, dado mais antigo registrado pela EPTC, o indicador apontava 0,05%, o que equivale a 1,2 km de ciclovia.

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Índice de ciclovias exclusivas em Porto Alegre. Gráfico: ObservaPOA

Esse aumento expressivo nas ciclovias é mais percebido na Capital, mas nas demais regiões também acontece, ainda que em passos mais lentos. Os ciclistas afirmam que ainda é preciso evoluir muito para que a prática possa se tornar segura, dentro dos riscos que qualquer esporte naturalmente oferece, e também um estilo de vida, que traz benefícios para a saúde e o meio ambiente e estimula a coletividade.

Patricia Ribeiro Borba, 25 anos, é integrante do Pedal do Vale, grupo de ciclistas de Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre, criado em 2013, que conta atualmente com cerca de 800 participantes em diversos subgrupos que se reúnem ao longo da semana e aos finais de semana também.

MORRO DAS CABRAS SAPUCAIA

Pedalada até o Morro das Cabras, em Sapucaia do Sul. Foto: Pedal do Vale

Ela afirma que há uma ciclovia em boas condições na cidade, mas que fica dentro de um condomínio privado, e que existe outra em construção pela prefeitura, esta pública. Enquanto isso, o grupo pedala pelas ruas – não só de Cachoeirinha – e rodovias, como a Free Way. Segundo Patricia, ainda falta respeito por parte dos motoristas com os ciclistas, e isso gera insegurança para a prática. “Há pouca conscientização. Muita gente não sabe quais são os seus direitos e deveres. Nesse sentido, faltam campanhas de trânsito.”

A moradora de Cachoeirinha deixa claro que essa conscientização também deve partir do outro lado. “Muitos ciclistas têm mania de achar que só têm direitos. Nós temos que respeitar as leis também.” Patricia já foi vítima dessa insegurança quando se envolveu em um acidente com um ônibus. “No ano passado, um ônibus me fechou. Eu tentei subir o cordão da calçada, não consegui e acabei caindo. Machuquei apenas o joelho, pois não estava em uma velocidade alta e usava equipamento, mas já foi o suficiente para ficar com medo de pedalar. Até esse medo passar demorou um pouco.” O motorista viu o que aconteceu, mas não parou para prestar atendimento.

Como se não bastasse a insegurança por pedalar em meio aos demais veículos, as mulheres sofrem com mais um problema: o machismo. Dentro do Pedal do Vale há um grupo só para as mulheres praticarem, batizado de “Brutinhas”, que se reúne nas sextas-feiras, com cerca de 40 participantes. Néia Kraieski, 44 anos, relata que há diferença de tratamento no trânsito quando os homens não estão presentes no grupo. “Tem uma discriminação. Já aconteceu de nos mandarem ir pra casa lavar a louça, por exemplo. Mas a gente segue firme, quebrando esse tabu de que mulher só tem que cuidar da casa.”

BRUTINHAS

Integrantes do Brutinhas. Foto: Pedal do Vale

Segundo Luis Nelson Viel Filho, 38 anos, um dos organizadores do Pedal do Vale, para melhorar a estrutura para a prática do ciclismo ainda faltam investimentos em mobilidade urbana, o que inclui a construção de mais ciclovias, além de outros aspectos. “Temos que fazer duas educações: para o pessoal que começa a pedalar e para os motoristas.” Na visão de Nelson, a sociedade também desempenha um papel importante. “A população tinha que se integrar com o ciclismo também. Ainda existe aquela cultura de que o ciclista atrapalha, é um estorvo no trânsito, tem que andar na calçada, mas nós estamos ajudando de várias formas.”

Os praticantes do ciclismo também não escapam da violência urbana e pedem por mais ações de segurança pública. Nelson relata que o maior risco acontece no deslocamento de casa até o ponto de encontro do grupo e no retorno, quando a maioria dos participantes está sozinho. Integrantes já tiveram suas bicicletas roubadas nesse trajeto.

Uma pesquisa feita em 10 capitais brasileiras pela Associação Transporte Ativo, do Rio de Janeiro, para traçar o perfil dos ciclistas urbanos no Brasil, reflete os anseios do organizador do Pedal do Vale em relação ao que deve ser melhorado. Entre os principais aspectos, estão a construção de mais ciclovias, mais segurança no trânsito e mais segurança contra assaltos.

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Pesquisa busca revelar o perfil do ciclista brasileiro. Gráfico: Transporte Ativo

Em maio do ano passado, o Pedal do Vale, em parceria com a Associação Transporte Ativo, realizou uma contagem de ciclistas no cruzamento entre as avenidas Flores da Cunha e José Brambila, na parada 59, uma das mais movimentadas de Cachoeirinha, com o objetivo de auxiliar na construção de um plano de mobilidade urbana para a cidade, além de promover melhorias na infraestrutura. Clicando aqui você pode conferir o resultado desse trabalho.

POLÍTICAS PÚBLICAS

Dentro do Detran do Rio Grande do Sul há um grupo de trabalho para tratar ações referentes ao ciclismo no Estado. Dele participam a Associação de Ciclistas de Porto Alegre (ACPA), o Laboratório de Políticas Públicas e Sociais (Lappus), a Associação Mobicidade e o projeto Gramado de Bicicleta, da Serra gaúcha. Uma das ações discutidas pelo grupo é a liberação da circulação de bicicletas no acostamento da Free Way.

A BR-290 é considerada a melhor rodovia para a prática do ciclismo de longa distância no Estado e é frequentemente utilizada, porém, o trânsito de bicicletas é proibido desde 2011 pelas autoridades com circunscrição na via. O argumento dos ciclistas é que não há nenhuma lei que impeça essa prática, que já é uma realidade constante.

Conforme a coordenadora do grupo de trabalho e chefe da Divisão de Educação do Detran, Lais Silveira, atualmente o Detran aguarda o encaminhamento de um estudo, a ser realizado pelas entidades integrantes do grupo de trabalho, sobre horários e locais seguros para circulação na rodovia, além de um pedido de adequação das placas de sinalização. Após a conclusão desse trabalho, o Detran irá enviar uma proposição à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Outra iniciativa do grupo de trabalho gerou uma mudança na fiscalização de trânsito em todo o Rio Grande do Sul recentemente. Os integrantes encaminharam ao Conselho Estadual de Trânsito um pedido – que foi aprovado –  para que os agentes de trânsito que flagrassem condutores dirigindo a menos de 1,5m de distância do ciclista fossem autuados no Artigo 201 do Código de Trânsito Brasileiro, e não no Artigo 175, como era de costume, com o objetivo de tornar claro ao condutor qual foi a sua infração e assim atingir o caráter educativo da multa, promovendo o respeito aos ciclistas.

“O condutor tem que entender que a bicicleta também é um veículo e ela não tem que andar na calçada. A calçada é lugar de pedestre. Às vezes ela anda na calçada porque é tão arriscado andar na via pública que é preferível o ciclista andar em um trecho na calçada”, ressalta a coordenadora da Divisão de Educação do Detran.

ARTIGOS 175 E 201

Artigos 175 e 201 do Código de Trânsito Brasileiro. Imagem: CTB Digital – Perkons

Segundo Lais, com o Artigo 175, por ser muito amplo e vago, os condutores não sabiam exatamente o que haviam cometido de errado e isso também abria margem para que eles entrassem com recursos.

Dentro das ações de educação, o Detran/RS também oferece cursos de capacitação para gestores públicos (“Bicicleta na Cidade”) e ciclistas (“Bike na Rua”) em todo o Rio Grande do Sul. Fora da Capital, as prefeituras devem encaminhar uma solicitação. Para mais informações, acesse o site da Escola Pública de Trânsito.

AMOR PELO PEDAL

Mesmo com as dificuldades, os adeptos do ciclismo seguem firmes na sua prática, tendo como ponto principal a coletividade. Eles encontram na união a segurança, alegria e motivação que não têm quando a pedalada é silenciosa, sozinha. O Pedal do Vale é como uma grande família. Em alguns momentos a bicicleta fica de lado e dá lugar para churrascos e rodas de chimarrão, que estreitam ainda mais os laços de amizade feitos sobre rodas.

Todos que chegam são acolhidos e incentivados a seguir no esporte, sabendo seus direitos e deveres. A prática, como todo esporte, também traz benefícios para a saúde. Claudio Kraieski, 46 anos, marido de Néia, após deixar o vício do cigarro também resolveu abandonar o sedentarismo e viu sua saúde melhorar bastante. “Decidi: vou parar de fumar e vou comprar uma bicicleta, mas uma bicicleta que me leve longe. Melhorou tudo, minha respiração, paladar, olfato.”

Néia define o esporte com uma frase: “Amor à primeira pedalada”. “Você pedala pela primeira vez e não quer parar nunca mais. Quem chega no grupo agora também sente isso, desde crianças até idosos. É muito empolgante”, completa.

Conheça as principais atividades feitas pelo grupo em 2016:

 

*Imagens produzidas e cedidas pelo Pedal do Vale.
Para mais informações, acesse: https://www.facebook.com/pedaldovale

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