Política

Palavras de ordem e lembranças de 1964

No aniversário do golpe militar, manifestantes se mobilizam contra o impeachment de Dilma Rousseff

Hilda Nunes, 81 anos, participou do ato contra o impeachment. (foto: Rebecca Rosa)

Hilda Nunes, 81 anos, participou do ato contra o impeachment. (foto: Rebecca Rosa)

“Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil!” foi uma das palavras de ordem entoadas no movimento das Diretas Já, que em 1984 pedia eleições para presidente. No mesmo local, na quinta-feira (31), em situações completamente distintas, o grito que impulsionava Hilda Nunes, 81 anos, cinco filhas mulheres e dois filhos homens, era “Não vai ter golpe, vai ter luta”, gritado pelos jovens que ela acredita serem a salvação do país. Para ela, momentos diferentes, mas uma luta parecida.

Eram 17h quando a movimentação começou a tomar corpo na junção da Rua dos Andradas com a Avenida Borges de Medeiros. Jussara Cony (PCdoB), vereadora na Capital, subiu no carro de som e lembrou de 1964, quando a trindade tanque-cavalaria-militares dominava a realidade e o imaginário popular em Porto Alegre. Entre camisetas estampadas com imagens de Che Guevara e de Dilma Rousseff, podia-se perceber integrantes de diversos movimentos sociais manifestando-se a favor do governo federal e contra o que chamavam de “golpe jurídico e midiático”.

Pessoas de diversas cores, credos, idades e orientação sexual, os manifestantes eram secundaristas, trabalhadores, universitários e aposentados. Via-se também integrantes das mais diversas agremiações, representadas em siglas como CUT, MLB, UNEGRO e MTD, além de federações como a dos sociólogos e a dos jornalistas engrossando o protesto que repetia como mantra “Não vai ter golpe, vai ter luta”.

 

(fotos: Rebecca Rosa)

 

Às 18h30, o cair da noite em Porto Alegre trouxe, além de torcedores do Internacional rumo ao Beira-Rio, os discursos do caminhão de som, dizendo ao público que, em matéria de “pedalada”, o governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori (PMDB), era mestre.

Por volta de 20h, com muita gente vestindo vermelho como cor preferencial, a marcha partiu em direção à Avenida Borges de Medeiros, carregando sorrisos, cantos, batucadas, crianças e idosos. Houve manifestações de orientação política diferente durante a caminhada até o largo Zumbi dos Palmares. Porém, a cada expressão antagônica à passeata, sinais de coração eram feitos com as mãos. Quando a expressão de oposição era mais dura, um pedido de entendimento era apresentado. Houve quem incitasse pessoas contrárias à manifestação a descerem de suas sacadas como quem aguarda o confronto físico? Sim, mas logo foram reprimidas por outros participantes da manifestação, que lembravam a todo instante que esse não era o melhor caminho e que, além disso, o direito de expressão deveria ser respeitado.

Em 1964, Hilda só contava com o rádio como meio de comunicação para saber o que acontecia no país. De Veranópolis, sua terra natal, acompanhou a partida para o exílio de Leonel Brizola e, por muito tempo, esperou a volta do ex-governador. Hoje, Hilda não tem dúvida: a juventude fará a diferença e nunca mais viveremos os tempos sombrios que ela viveu. “Não podemos retroceder, não devemos abandonar a democracia e nem deixar que alguém passe por cima dela”, são os ensinamentos de uma senhora de 81 anos que sentiu a ditadura na pele e temeu pelo bem de sua família. “Vocês jovens são o futuro. Lutem, não abaixem a cabeça. A minha felicidade hoje é essa.”

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