Cultura

Ospa vence problemas técnicos em Carmina Burana

Cerca de 2 mil pessoas acompanharam a apresentação no Auditório Araújo Vianna

Solista Flávio Leite teve sua apresentação prejudicada por conta de falha técnica. Foto: Adriana Marchiori

Solista Flávio Leite encantou o Araújo Vianna, mesmo tendo sua apresentação prejudicada por conta de falha técnica. Foto: Adriana Marchiori

As luzes se apagam, o silêncio toma conta do ambiente, o maestro toma posição e ao balançar da batuta ecoam os primeiros versos de O Fortuna. Escutar essa composição ao vivo, sendo executada por uma orquestra, é uma experiência única. A forma gradativa com que os instrumentos vão ganhando espaço e a força com que o coro adentra a peça provocam uma sensação incomum. A atenção é prendida e, a partir daquele momento, sabe-se que um grande espetáculo está por vir. No último sábado (03/12), a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em parceria com a Cia Municipal de Dança, reproduziram no palco do Araújo Vianna a cantata cênica Carmina Burana, do alemão Carl Orff, para aproximadamente duas mil pessoas.

Em meio a aplausos de um público leigo, seguidos por pedidos de silêncio vindos da própria plateia, o maestro Evandro Matté conduziu as mais de 200 pessoas no palco com segurança. O espetáculo estava bem ensaiado, embora por vezes a Cia Municipal de Dança parecesse um pouco perdida, sobretudo pelo fato de muitas das canções de Carl Orff soarem parecidas (em ritmo e andamento). Retirando este fato, a execução do espetáculo foi encaminhada com sucesso, o único porém ficou com relação à parte visual e técnica, sobre as quais faço uma série de observações a seguir.

Sabe-se que o Araújo Vianna não é o espaço mais adequado para este tipo de espetáculo (aliás, para muitos outros tipos ele não é adequado), entretanto não temos em Porto Alegre uma sala sinfônica ou outro espaço propício a receber música orquestrada. A tão falada sala da Ospa segue sem previsão de inauguração, obrigando a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre a se adaptar a espaços inadequados. A acústica do Araújo Vianna não permite que a apresentação seja feita sem microfones, o que demanda um alto custo em equipamentos de som e um grande conhecimento de engenharia, para que não haja equívocos.

Mesmo sentado na sétima fileira encontrei alguma dificuldade para ouvir os solistas do espetáculo. As apresentações do tenor Flávio Leite e da soprano Gabriella Pace foram prejudicadas em função da péssima microfonação. No caso de Flávio, o que era para ser uma bela voz, acabou se tornando dissonância. O coro também enfrentou problemas técnicos, por muitas vezes pareceu extremamente baixo em relação à música, fato que já havia incomodado o maestro Evandro Matté no ensaio da noite anterior. Havia claramente problemas de retorno, os músicos não escutavam o coro e vice-versa. Entretanto, a experiência de todos garantiu o andamento do espetáculo.

Ao fundo do palco, no centro, um telão chamava atenção por seu tamanho e sua resolução. Poderia ter sido mais bem explorado, as projeções se limitaram a imagens em loop. Duas câmeras filmavam o espetáculo, poderiam ter sido aproveitadas para transmitir no telão imagens da apresentação, afinal o local é grande e quem senta na parte alta do Araújo Vianna vê os músicos em miniatura. A quantidade de estruturas metálicas Q30 aparentes no palco é algo que também me incomodou. Visualmente é sempre melhor tapá-las com panos pretos, procedimento bastante simples. O coro parecia cantar em cima de uma arquibancada de futebol. A iluminação deixou a desejar, pela quantidade de equipamentos disponíveis, ela poderia ter sido mais bem aproveitada nas coreografias, daria outro aspecto. O iluminador claramente não conhecia o espetáculo no qual estava operando, limitou-se ao básico (e o básico, em um espetáculo desta magnitude, é inaceitável).

Ao término da apresentação, três minutos de contínuos aplausos. Fica a sensação incrível de ter visto uma montagem tão minuciosa ao vivo, com músicos de extrema qualidade vencendo as limitações técnicas que lhes foram impostas. Resta, porém, o sentimento de tristeza por conta de Porto Alegre, uma das capitais que mais consome cultura no Brasil, não ter um espaço adequado para apresentações deste tipo (e, ao que parece, não ter equipamentos suficientes de sonorização com empresas locais). Fica também o enorme desconforto físico, por conta das duras, pequenas, barulhentas e inconvenientes cadeiras de madeira do Araújo Vianna (me recuso chamá-las de poltronas).

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