Economia

Os desafios de empreender no Litoral

A persistência é essencial para quem quer obter êxito em uma microempresa

As delícias da Padaria Tia Ica, que faziam sucesso com os consumidores. Foto: Arquivo Pessoal/ Marlise Oliveira de Freitas

As delícias da Padaria Tia Ica, que fazem sucesso com os consumidores. Foto: Arquivo Pessoal/ Marlise Oliveira de Freitas

O anseio pelo negócio próprio é um ideal partilhado por muitas pessoas, porém o caminho até o sucesso por vezes se mostra desafiador e tortuoso. De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), conduzida pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), com apoio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Sul (SEBRAE) , 45 milhões de brasileiros são empreendedores. Os dados mostram ainda que, 6,7 milhões, ou seja, 35,1% estão na região sul. Compondo este índice estão Marlise de Freitas, 29 anos, e seu marido Vladimir dos Santos, 33 anos, que aprenderam com os obstáculos que persistir é a chave para o sucesso.

Vladimir além de ser padeiro se especializou em confeitaria, já a esposa Marlise atuava como sua auxiliar. A microempresária conta que foi quando eles residiram em Porto Alegre que tiveram a primeira oportunidade de negócio. Abriram um barzinho na Escola Estadual de Ensino Médio Padre Reus, na zona sul, onde comercializavam doces e salgados fabricados em casa.

Entretanto, o sonho do casal sempre foi o de ter um estabelecimento próprio onde pudessem colocar em prática tudo aquilo que sabiam da arte de fazer pães e doces. “No bar juntamos uma boa quantia em dinheiro, pois nosso objetivo era abrir uma padaria. Com o montante compramos maquinários usados e decidimos que abriríamos o nosso comércio na praia”, recorda Marlise.

A cidade escolhida para empreender foi Capão da Canoa, localizada a 138 km da capital. A cidade litorânea é uma das que tem a maior população no Litoral Norte gaúcho, estimada em 47.148 mil habitantes, segundo pesquisa do Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para o casal, o cenário econômico do local seria favorável e promissor, principalmente pelo grande número de turistas que recebe no verão.

A vivência no litoral 

Ao migrarem para o município, ainda sem conhecer nada, o bairro Centro os acolheu e foi onde eles decidiram tentar a sua segunda empreitada. Alugaram uma loja para o período de veraneio e lá estabeleceram a Padaria e Confeitaria Tia Ica. Já no primeiro ano os resultados apareceram, o negócio gerou bons lucros. Contudo, finalizada a temporada de verão o comércio perdeu força.

Uma explicação para isso, segundo o secretário executivo da Associação Comercial e Industrial de Capão da Canoa (ACICC), Mário Santos, seria que na baixa temporada, ou seja, de março a novembro, o movimento dos comércios do local reduz cerca de 20 a 30%, dependendo do segmento. Atualmente, o município possui cerca de três mil comerciários.

Com a diminuição da demanda, Marlise e Vladimir optaram por trocar de ponto. Acabaram escolhendo alugar uma loja em um bairro de intensa circulação de pessoas, principalmente no inverno. O local escolhido foi a Rua General Osório, próximo a comércios varejistas. Outra vez o sucesso e batia a porta do casal, a padaria vinha obtendo êxito até a saúde da microempresária se tornar uma preocupação.

Diagnosticada com depressão, as coisas mudaram de curso. Ela teve que se afastar do trabalho, iniciar um tratamento e deixar o marido assumir o controle dos negócios. A auxiliar de confeitaria conta que através da religião conseguiu se recuperar. Em contrapartida, sua padaria começou a ruir. O movimento de antes já não existia mais. “Minha doença atrapalhou nossos rendimentos e meu marido ficou muito abalado. Nos descuidamos e decidimos que era hora de fechar a padaria”, lamenta.

O administrador da prefeitura de Capão da Canoa Fabrício De Souza Pereira observa que há três passos fundamentais para manter um comércio de portas abertas e faturando. “Primeiro é preciso fazer uma análise de mercado, avaliando o terreno à volta. Segundo, ter noção dos seus recursos, avaliar quanto dinheiro você pode investir. Terceiro, buscar uma localização estratégica, um ponto com grande fluxo de pessoas diariamente”, comenta.

Fabrício acredita que erros são inevitáveis, porém ajudam no crescimento e amadurecimento profissional. “Os grandes empresários de hoje já fracassaram pelo menos duas vezes no passado. O comerciante aprende com o erro”, analisa.

Sem a padaria – fonte de renda do casal, eles ficaram sem rumo e tiveram que buscar a persistência do início para recomeçar. Em meio às dificuldades, vislumbraram uma nova chance, vender lanches na rua. No primeiro momento, Marlise relata que foi resistente e tinha vergonha de ir para a rua, pois já tinha sido dona de padaria. Superando o próprio orgulho, pediu forças e começou a trabalhar.

 

Marlise mostra orgulhosa os seus lanches. Foto: Júlia Bozzetto

Marlise mostra, orgulhosa,  seus lanches. Foto: Júlia Bozzetto

A microempresária revela que as vendas pelas localidades da cidade são oriundas de um direcionamento novo que Deus deu a ela e ao marido e, com ele, conseguiram se reerguer. Com a dinheiro das vendas, o casal reabriu a Padaria e Confeitaria Tia Ica, no primeiro ponto, o Centro de Capão da Canoa. Os empreendedores se surpreenderam com o retorno financeiro conquistado na última temporada. “Reabrimos a padaria neste verão e para nossa alegria o movimento superou nossas expectativas”, avalia Marlise.

 

Fachada da padaria, localizada no Centro de Capão da Canoa.

Fachada da padaria, localizada no Centro de Capão da Canoa. Foto: Arquivo Pessoal/ Marlise Oliveira de Freitas

Conforme o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Sul (Sebrae), no Estado há 1,2 milhão de empresas de micro e pequeno porte. Esses empreendimentos representam 95% do total de empresas do Brasil, sendo 99,1% no RS. Quanto aos impactos na economia brasileira, as MPEs são responsáveis por 52% dos empregos formais no País, 40% da massa salarial e 27% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para o contador Jonas Dalpiaz, comércios administrados por casais possuem maiores possibilidades de crescimento e potencial para driblar possíveis crises, pois um ampara o outro. “Dentre todos os clientes para quem presto consultoria, os ramos mais bem sucedidos são aqueles que o casal trabalha junto”, observa.

Novas escolhas

Ao fim do verão, o casal optou por fechar a nova padaria, entretanto mantiveram o espaço alugado, pensando na sua reabertura na temporada 2017/2018 (novembro a março). Quanto às vendas na rua, continuam um sucesso. Marlise vende seus salgados e doces em vários pontos da cidade, em comércios, na prefeitura e para mais três escolas. Seu sorriso e determinação contagiam a todos, prova disso é a fidelidade dos seus clientes.

O servidor público da prefeitura de Capão da Canoa Gilson Quintana diz que deixa de comprar de outros dois comerciantes, que passam mais cedo, para comprar de Marlise, devido à qualidade e a simpatia com que ela trata os consumidores. Agora a meta do casal de empreendedores é desenvolver ainda mais o negócio e torná-lo referência na cidade litorânea. Contudo, afirmam que aprenderam a lição e que a cautela não é esquecida. “Estamos dando um passo de cada vez, para que no futuro, e se o Senhor Jesus quiser, a Padaria e Confeitaria Tia Ica seja uma das mais fortes da localidade”, idealiza Marlise.

Os apetitosos quitutes dos empreendedores. Foto: Júlia Bozzetto

A faceirice da empreendedora com os seus quitutes.  Foto: Júlia Bozzetto

 

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