Cultura

Os bares e a cena musical independente

Apesar de poucos lugares ainda abrirem espaço para as bandas independentes, alguns bares se mantém fiéis na luta por essa cena

A cena musical independente de Porto Alegre sempre foi muito representativa e já revelou grandes músicos. Antigamente havia bastante apoio, começando pelas rádios, passando pelos bares, produtores, até chegar no público. O público apoiava a cena, dava força e comparecia aos shows. As rádios divulgavam, tocavam o material das bandas, os locais abriam suas portas, e e as pessoas compareciam em peso. Infelizmente esse panorama mudou completamente. As rádios já quase não existem, as pessoas já não comparecem aos shows como antes e, consequentemente, muitas casas fecharam suas portas para essa classe de artistas. Mas ainda há lugares que abrem suas portas para os músicos independentes. Pessoas que viram a necessidade de se apoiar um nicho musical para que ele não desaparecesse.

Nesta Reportagem, a Beta Redação apresenta um panorama da cena musical em Porto Alegre.

 

Gravador Pub

Inaugurado em março de 2016, é um bar que se encontra mais afastado da maioria que costuma ficar na Cidade Baixa. O Gravador se encontra na Rua Conde de Porto Alegre, no Bairro São Geraldo. É um local que recebe músicos dos mais variados estilos: blues, rock e MPB. Apesar de ser um local que abre espaço para grupos independentes, não se restringe somente ao underground. Bandas e músicos com certo renome também tocam lá, um dos únicos requisitos é que sejam independentes. A casa comporta confortavelmente 75 pessoas, tem uma decoração incrível, com quadros de Rock e instrumentos musicais pendurados nas paredes. Possui um palco impecável, onde os músicos têm um bom espaço para poder tocar. Tem um ambiente externo, que é muito utilizado em dias quentes.

 

Palco do Gravador Pub

Palco do Gravador Pub. Foto: Fernando Eifler/Beta Redação

 

O local tem uma ótima relação com as bandas: o dono convive no meio desde os 12 anos, por causa de seus pais; com isso, já tem um pensamento voltado mais para o lado do artista. Isso o ajudou muito no momento em que decidiu abrir um bar voltando para essa cena. Por já ter relação com alguns músicos, foi um pouco mais fácil começar; uma parte dos artistas que se apresentam na casa são amigos, e os que não são, acabam se tornando.

A grande maioria das bandas procura o bar para tocar. Somente quando está chegando perto de alguma data que não tenha sido preenchida é que a casa entra em contato com alguns músicos. Dessa forma a agenda fica geralmente fechada, e sempre tem shows para atrair o público.

 

Quadros no Gravador Pub

Quadros no Gravador Pub. Foto: Fernando Eifler/Beta Redação

Os ingressos custam em média R$ 20, mas isso varia de acordo com a banda que está tocando. Como o bar também abre espaço para músicos que já fizeram seu nome, apesar de serem independentes, isso por vezes, encarece o valor da entrada -casos do Alemão Ronaldo e de Wander Wildner.

A divulgação deveria ser feita por ambas as partes, tanto banda, quanto o bar. Porém, segundo Gabriel Vieira Salomão, dono do Gravador, poucas fazem sua parte. Nesse tempo em que ele tem o bar, viu apenas duas realmente ajudarem na divulgação. “Eu crio os eventos no Facebook, divulgo e mando para as bandas, aí é com elas ajudar a divulgar o próprio trabalho”, conclui. A antecedência da divulgação também varia de acordo com o artista, Adriana Deffenti, por exemplo, começou 45 dias antes de seu show.

Na opinião de Gabriel, existem muitas bandas de qualidade tocando pela cidade, mas, falta um mecanismo que centralize essas bandas. Falta abrir mais bares que tenham a vontade de dar suporte a essas bandas. “Tem muita gente boa na cena independente, seguidamente recebo músicos aqui, que querem conhecer o bar, e acabam me trazendo CDs, mas o problema é que falta apoio. Eu faço o que posso para ajudar”, comenta.

 

Instrumentos como decoração

Instrumentos como decoração. Foto: Fernando Eifler/Beta Redação

 

Endereço: Rua. Conde de Porto Alegre, 22 – São Geraldo, Porto Alegre – RS

Horário de Funcionamento:

Quartas e Quintas, das 19h à 0h

Sextas e Sábados, das 19h à 1h

Capacidade: 75 pessoas sentadas

Preço médio: R$ 20

 

Espaço Cultural 512

Localizado na Rua João Alfredo, o Espaço Cultural 512 foi fundado, em 1999, por um grupo de artistas que se conheceu em um Ateliê Livre. Tem como objetivo a valorização da arte em geral, seja na música, na dança, nas artes cênicas. A ideia é abrir espaço para que todos possam demonstrar seu trabalho. O ambiente é grande, espaçoso e bem iluminado. Possui uma decoração com bastantes quadros espalhados por todas as paredes da casa, e um bar centralizado com grande variedade de bebidas expostas, o que chama atenção e dá um charme para o local. Passou por reformas recentemente, nas quais houve um grande investimento em termos de palco, equipamento, e iluminação. Isso resultou em um grande e belo palco, que acomoda as bandas com todo o conforto que elas merecem.

 

Fachada do Espaço Cultural 512

Fachada do Espaço Cultural 512. Foto: Liane Oliveira/Beta Redação

 

Há uma grande demanda para se apresentar no local, cada vez mais as bandas que se interessam em tocar entram em contato para agendar um show. Com isso, foi criada a produtora Outros 500, que serve para cuidar justamente da programação cultural, da agenda, não só musical, mas, também do espaço expositivo e de outros eventos que são trabalhados no Espaço 512. Em dias de shows normalmente há um acordo com as bandas para que recebam uma participação do arrecadado na porta. Porém, algumas vezes consegue-se estipular um cachê fixo para o grupo.

 

Palco do 512

Palco do 512. Foto: Fenando Eifler/Beta Redação

 

A ideia de um bar para a cena independente foi um processo natural desde sua fundação, quando se chamava Ateliê 512. O local sempre abrigou todos os tipos de arte sem fazer nenhum juízo de valor. Guilherme Carlin, sócio administrador, comenta que, quando ele e os sócios foram convidados para assumir a administração do negócio, enxergaram um grande potencial para explorar as artes dentro de um espaço que trazia a gastronomia e a própria questão da boemia. “A valorização do músico, do compositor também faz parte desse processo”, opina.

Nos dias de hoje, as coisas acabam sendo muito instantâneas, efêmeras e comerciais, dessa forma isso abre muito espaço para os produtos da moda, e acaba deixando de lado muito trabalho bem feito.  “Há uma massificação muito grande para o funk e o sertanejo. Isso acaba por deixar as pessoas em sua zona de conforto”, analisa Carlin . O proprietário ainda ressalta que essa zona de conforto impede que as pessoas busquem músicas diferentes. Por consequência, diminuem os espaços que valorizam a música e o trabalho independente e autoral.

Quando a atual administração assumiu, em 2009, a casa possuía apenas 35m², então o relacionamento com o público era bem próximo, bem intimista. Conforme o local foi se expandindo, naturalmente a distância acabou aumentando. Apesar de haver um pequeno distanciamento hoje, a equipe que comanda o 512 tem uma grande preocupação em se comunicar com o seu público, que é muito diverso – vai desde artistas humildes até pessoas das classes sociais mais elevadas. “Não fazemos diferenciação, partimos sempre dos nossos valores primordiais de respeito”, assevera Carlin.

 

Parte Interna do 512

Parte Interna do 512. Foto: Fernando Eifler/Beta Redação

 

O bar possui programação variada e tem desde eventos gratuitos até outros com preço médio de R$ 20. A produtora Outros 500 cuida de toda a produção de shows no Espaço Cultural 512 desde o agendamento até a divulgação. Normalmente em shows, uma parte do que é cobrado na porta, é destinado às bandas, “então obviamente a gente conta muito com a banda como parceiro para a divulgação do seu próprio trabalho” diz o sócio administrador. Porém, mesmo assim, muitas bandas ainda esperam que o bar faça todo o trabalho, e não divulgam seu próprio material da forma correta. Quem o faz, além de atrair mais público, consequentemente consegue um resultado financeiro melhor.

Endereço: Rua. João Alfredo, 512 – Cidade Baixa, Porto Alegre – RS

Horário de Funcionamento:

Segunda à Sexta, das 11h30 às 14h30

Terças, Quartas e Domingos, das 19h à 0h

Quintas, das 19h à 1h

Sextas, das 19h às 2h

Sábados, das 20h às 2h

Capacidade do local: 200 pessoas

Preço Médio: de R$ 15 a R$ 20

 

OCulto Pub

OCulto é outro bar que pode ser encontrado na Cidade Baixa, na Avenida José do Patrocínio. Foi criado por Edner Pizarro com o intuito de ser um local feito de músico para músico: pretendia alavancar uma cena e valorizar a música independente autoral. O proprietário comenta que o pub é que para quem gosta de tirar o ouvido da zona de conforto. “Venham ouvir de tudo aqui”, diz o slogan da casa. O lugar é espaçoso e aconchegante, possui uma temática Rock n’ Roll e funciona numa espécie de meia luz, o que dá um clima bem intimista . No segundo andar há um palco onde as bandas se apresentam. Cede alguns instrumentos em caso de necessidade.

O local tem uma relação muito boa com as bandas, sempre procurando tratá-las com todo o respeito necessário. Pelo fato de o dono ser músico, não é qualquer um que consegue tocar lá. Ele ouve as bandas e filtra: as que julga terem boa qualidade são chamadas para se apresentar. Outro motivo de haver esse filtro é pelo próprio público, que é bastante exigente, e reclama se uma banda considerada ruim está tocando.

 

Fachada do OCulto Pub

 

 

“Os bares não costumam se preocupar tanto com as bandas, como é um negócio, muitos querem apenas ganhar dinheiro, então é preferível colocar uma banda que vá lotar o local, mesmo que seja uma banda cover, do que por uma banda independente e autoral que ainda não criou seu próprio público”, avalia Edner. E completa: “Outro ponto é que nem todos os bares têm uma noção músical. Como sou músico, consigo ver se a banda é boa ou não, e se for ruim eu já limo na hora, e digo que eles precisam dar mais uma ensaiada para depois poder voltar”.

 

Palco do OCulto Pub

Palco do OCulto Pub. Foto: Fernando Eifler/Beta Redação

 

Para o proprietário do espaço, deveria haver uma maior união entre as bandas; eles esquecem que poderiam ajudar a criar uma cena local que poderia beneficiar muito mais grupos. Pizarro comenta que ele vê isso por experiência própria, pois, ele tinha uma banda de metal quando mais novo, e os públicos eram muito ruins. Com isso, as bandas se uniam para criar festivais e assim chamar um público maior. “Hoje em dia é cada um por si”, resume.

Em grande parte, a casa cobra pela entrada das pessoas e repassa uma parte do dinheiro para a banda. Mas já tem ocorrido shows onde há venda de ingressos antecipados. E a tendência é que isso siga e que o local funcione somente nesse modelo em dias de shows. Edner diz que essa mudança se deve ao fato de que muitas pessoas andam preferindo beber na rua; portanto, é necessário remodelar o modo como se dá essa relação do bar com o público.

 

Parte Interna OCulto Pub

Parte Interna OCulto Pub. Foto: Fernando Eifler/Beta Redação

 

A divulgação dos shows é feita tanto pelas bandas quanto pelo bar, mas totalmente pela internet. Normalmente a casa trabalha com agendamento prévio de cerca de 2 meses, para sempre ter alguma atração marcada. Quando a data do show vai ser aproximando, a banda cria o evento no Facebook e o bar compartilha na página. Dependendo do show, há também o pagamento para promover o anúncio, para que ela atinja um público maior.

Endereço: Rua. José do Patrocínio, 632 – Cidade Baixa, Porto Alegre – RS

Horário de Funcionamento:

Quartas e Quinta, das 19h à 0h

Sextas e Sábados, das 19h à 2h

Capacidade do local: 150 pessoas

Preço Médio: de R$ 15

Agenda:

12/05 – Lista de Lilly, participação Baby Budas

20/05 – Bacamartes e Birutéricos

17/06 – As Aventuras

 

Signos Pub Rock

Situado no Bairro Cidade Baixa, o Signos é mais um dos poucos bares que abrem espaço para a cena independente autoral de Porto Alegre. É um local pequeno e acolhedor e possui uma decoração simples, com quadros de bandas e de personagens do cinema. A casa cede alguns instrumentos para as bandas que precisam, mas muitas optam por levar seus próprios. O palco fica quase no nível do público, o que causa uma sensação de proximidade entre banda e público.

 

Fachada Signos Pub Rock

Fachada do Signos Pub Rock. Foto: Liane Oliveira/Beta Redação

 

Ele abre as portas para todo tipo de banda de rock, sem fazer distinções de gêneros. Mas a proposta difere um pouco dos outros de mesmo estilo, pois as bandas que tocam lá não são apenas independentes, a grande maioria é iniciante também. E são exatamente esses músicos que mais precisam de apoio, pois, os primeiros shows são sempre os mais difíceis. Com isso, a relação entre os donos e as bandas acaba se tornando excelente, pois, por darem espaço para quem está começando, muitas das bandas levam seus amigos, colegas e familiares para acompanhar os shows. O clima, por isso, é intimista.

 

Decoração Signos

Decoração Signos. Foto: Fernando Eifler/Beta Redação

 

A contratação de bandas funciona de forma variada, ainda que na maioria das vezes as bandas que procurem o bar para tocar. Com isso, é feito um acordo entre a casa e os integrantes: uma data é vendida, e os músicos ficam encarregados de convidar mais duas bandas, ao menos, do mesmo estilo para tocar junto. Dessa forma, não há risco de gerar algum problema por estarem tocando bandas de diferentes estilos na mesma noite. Outra forma de contratação se dá por meio de um produtor que faz shows na casa duas vezes por mês. Ele agenda as datas, escolhe as bandas, e as leva para tocar. E, caso haja uma data em aberto, a casa entra em contato com as bandas para tocar. Assim, eles procuram ter sempre a agenda fechada para pelo menos trinta dias.

A casa cobra entrada, que depois é repassada para as bandas. Os valores costumam ficar entra R$ 10 e R$ 15. “A gente cobra esse preço pro pessoal vir beber mesmo, para trazer a galera. Tem gente que vem só pra prestigiar e ajudar a banda”, conta Clair Mangini, dona do Signos.

 

Banda se apresentando no Signos

Banda se apresentando no Signos. Foto: Divulgação

De acordo com o proprietário, atualmente é bastante complicado manter um local nesses moldes funcionando, pois o retorno é muito baixo; essas bandas possuem um público limitado. Outra dificuldade enfrentada é o novo horário de fechamento de bares noturnos, que agora, em finais de semana, não pode passar das 2 horas da manhã. O público estava acostumado a chegar mais para o final da noite, por volta das 23 horas e ficava até de manhã consumindo. Mas mesmo com essa mudança, o público ainda não se adaptou e segue chegando tarde, o que diminui consideravelmente as vendas da casa e consequentemente seus lucros. “Com o atual horário, muitas pessoas que vinham da região metropolitana para curtir os shows e esperavam até o amanhecer para voltar para casa de ônibus e trem, agora não vêm mais”, comenta Laudemir Figueiredo, proprietário do Signos. Com isso, as vendas diminuíram drasticamente, e o bar passou a ter um lucro suficiente apenas para se manter aberto. A família precisa trabalhar durante a semana para se sustentar, enquanto o pub funciona muito na base da paixão, pois os donos gostam muito do que fazem: não é a toa que o Signos está em funcionamento há 9 anos.

Endereço: Rua. Joaquim Nabuco, 272 – Cidade Baixa, Porto Alegre – RS

Horário de Funcionamento: Sextas e Sábados: das 19h às 2h

Capacidade do local: 60 pessoas

Preço Médio: de R$ 10 a R$ 15

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