Cultura

CRÍTICA: Um retrato real do plano

Filme mostra bastidores da implementação da moeda que revitalizou a economia brasileira nos anos 1990

Personagens compõe núcleo duro de FHC no ministério da Fazenda. Foto: Divulgação

Personagens que, no filme, compõem núcleo duro de FHC no Ministério da Fazenda. Foto: Divulgação

Um processo de impeachment recente, três planos econômicos frustrados, inflação galopante e crises internacionais. Com a economia arrasada, era necessária uma urgente mudança de rumos na política econômica nacional. Assim, na metade de 1993, o então presidente Itamar Franco nomeou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda. A missão era formar uma equipe de notáveis capaz de recuperar o crédito do país.

Inspirado no livro 3.000 dias no bunker, de Guilherme Fiuza, o longa Real – O plano por trás da história retrata a elaboração do Plano Real, encomendado por Itamar (interpretado por Bemvindo Siqueira). A perspectiva escolhida pelo diretor é a do economista Gustavo Franco (Emílio Orciollo Netto), um dos homens fortes escolhidos por FHC (Norival Rizzo) e defensor ferrenho do lançamento da nova moeda dentro do Ministério. Arrogante e pragmático, Franco assume o cargo em Brasília após deixar a carreira universitária, convidado por seu antigo professor Pedro Malan (Tato Gabus Mendes), presidente do Banco Central.

Dono de uma audácia incomum, ele não se incomoda em tratar as demandas sociais urgentes como temas de segundo plano ao defender seu ideário liberal para combater a crise econômica – o que o faz obter desafetos dentro do próprio governo. Durante a trama, que tem direção de Rodrigo Bittencourt, Franco substancia sua personalidade forte ao bater de frente com o mercado e com setores políticos na defesa da moeda, que vê como criação própria.

"O momento que o vira lata ganha pedigree: esse é o Real." - Gustavo Franco. Foto: Divulgação

“O momento que o vira lata ganha pedigree: esse é o Real.” – Gustavo Franco. Foto: Divulgação

 

Ao abordar também o uso da conquista da Seleção Brasileira na Copa de 1994 para fazer propaganda do plano – e suas consequências na eleição de Fernando Henrique à presidência no ano seguinte –, Real se apresenta como o resultado de uma política econômica bem aplicada. Cabe ponderar que, ao enaltecer os ganhos, a produção peca ao não mostrar, suficientemente, a resistência à implementação da moeda por outros economistas e por setores da esquerda.

Em termos estruturais, o filme tem boas estratégias para não cansar o espectador. Consegue estabelecer um panorama sobre a gravidade de uma hiperinflação sem exagerar no “economês”. Com uma fotografia que valoriza a cidade de Brasília e dá a dimensão sobre o quanto o momento era importante para o país, a produção também tem cortes precisos, que dão a agilidade necessária para manter o espectador atento.

Certamente, Real – O plano por trás da história não será um sucesso estrondoso de público, até porque não se presta a ser uma obra de apelo popular. Contudo, não deixa de ser um prato cheio para quem se interessa pelas histórias recentes do Brasil. E, de certa forma, ajuda a entender a lógica que permeia até hoje a disputa nacional no ideário político-econômico: a oposição entre desenvolvimentismo – que prega o fomento à indústria nacional, participação do Estado na economia, investimento em infraestrutura e aumento do gasto público – e neoliberalismo – defesa da autorregulação do mercado, redução de impostos, abertura econômica e ajuste fiscal.

 

Real – O plano por trás da história

Direção:  Rodrigo Bittencourt

Elenco: Emílio Orciollo Netto, Bemvindo Sequeira, Norival Rizzo, Tato Gabus Mendes, Mariana Lima, Paolla Oliveira, Cássia Kis, Guilherme Weber, Giulio Lopes, Fernando Eiras, Carlos Meceni.

Gênero: Drama

Duração: 95 min.

Classificação: 12 anos

Origem: Brasil (2017)

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