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OPINIÃO: Todo dia era dia de índio (morto)

Há oito meses protagonizamos o maior desastre ambiental dos últimos 100 anos, em Mariana. Mas em 2015 o Brasil já acumulava posições de destaque nos rankings mundiais de assassinatos a ambientalistas e jornalistas

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

 

Usina hidrelétrica de Belo Monte, massacre de Guaranis Kaiowás no Mato Grosso do Sul, desastre ambiental em Mariana. Tudo bobagem. Puro papo de ecochato. Aliás, se você for um ecochato, melhor nem ler este texto, que foi escrito para os verdadeiros brasileiros, fortes, resilientes e defensores do progresso industrial. Para construir uma sociedade calcada no desenvolvimento econômico e respeitada no exterior, o mais importante é investir nas empresas que incrementam o PIB. Precisamos apoiar as mineradoras, custe o que custar. Ainda há diversos rios intocados no Brasil, portanto, precisamos construir mais hidrelétricas. Precisamos defender o agronegócio. Precisamos construir mais prédios. Árvores, além de ocuparem muito espaço, sujam a calçada o ano todo com frutas podres e folhas secas. Entrave? Qual outro poderia ser, senão, justamente, os ecochatos?

Outro dia noticiaram que o Brasil liderou o ranking de mortes de ambientalistas em 2015.  A informação veio de uma tal de Global Witness, uma dessas ONG’s que manipulam pesquisas, tipo o Datafolha, sabe. Imagine que cometeram o ascinte de calcular um total de 185 assassinatos de ativistas ao redor do mundo. Segundo eles, o maior índice já registrado. Dessa quantidade, 50 mortes teriam ocorrido só no Brasil. Uma média de 3 pessoas mortas por semana enquanto defendiam o meio ambiente. Mas cá entre nós, convenhamos, ninguém morre por acaso. A polícia e os fazendeiros não atiram em inocentes. Quem procura, acha. Em 2014, vieram com essa mesma conversinha. Disseram que foram  29 ativistas mortos no Brasil e 116 no total, dos 17 países analisados. Distorções dos fatos, com certeza. Aposto que os ativistas mereceram: afinal, eles nada mais são do que um bando de baderneiros.

Se você leu este texto até aqui e discordou de cada sílaba, na verdade, é para você que ele foi escrito. Os argumentos distópicos e controversos acima, obviamente não correspondem à opinião deste que vos escreve. Mas não se anime, pois eles correspondem à visão de uma considerável parcela da sociedade brasileira. Não me refiro apenas ao cidadão médio, aquele que acorda às cinco da manhã para trabalhar e se retroalimenta apenas com as notícias dos telejornais vespertinos. Refiro-me especialmente à classe política, incluindo alguns partidos que se dizem de esquerda, mas apoiam incondicionalmente o agronegócio e, por conseguinte, os massacres contra indigenistas e quilombolas.

O guarani kaiowá Simeão Vilhalva, de 24 anos, foi assassinado por fazendeiros em agosto de 2015 no município de Antônio João, em Mato Grosso do Sul. O motivo? O de sempre, a Casa Grande se sentiu contrariada e resolveu expulsar à bala os nativos que ocuparam uma extensão rural pertencente à Terra Indígena Nhanderu Marangatu. A terra foi homologada em 2005 pelo governo federal, mas o decreto foi suspenso e os índios aguardam decisão final do Supremo Tribunal Federal em terra provisória. No entanto, não são apenas os indígenas e ativistas ambientais que são hostilizados e assassinados nessas cruzadas. No último dia 17 de junho, durante uma operação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, em Novo Progresso, no Pará, a equipe de fiscalização foi atacada a tiros em uma emboscada que levou à morte o sargento da Polícia Militar João Luiz de Maria Pereira. Mais um corpo no chão, mais uma vida ceifada que vira estatística.

Foto: Fabio Braga/ Folhapress

Foto: Fabio Braga/ Folhapress

Não esqueçamos de Mariana. Dia cinco de julho completam-se oito meses do rompimento da barragem de Fundão, que danificou também a barragem de Santarém, ambas localizadas no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35km do centro da cidade mineira de Mariana. O desastre arrastou 35 milhões de m³ de lama e rejeitos de minério, destruindo 1,5 mil hectares de vegetação entre Mariana (MG) e Linhares (ES), matando 17 pessoas – entre moradores e funcionários da empresa Samarco, mineradora pertencente ao grupo Vale, que atua em parceria com a companhia anglo-australiana BHP Billiton, responsável pela barragem. A mordaça do governo mediante ao poderio da classe empresarial é tamanha que a própria Samarco – causadora desta que foi  a maior tragédia mundial envolvendo barragens dos últimos 100 anos -, foi quem comandou as operações de resgate e credenciamento de jornalistas durante a cobertura. As 126 famílias do povo Krenak, que vivem às margens do Rio Doce, hoje não têm de onde tirar água nem alimentos. Outras 329 famílias foram realocadas provisoriamente em casas alugadas, porém, sem trabalho, sem suas memórias e sem perspectivas para o futuro. Uma violência incomensurável contra a natureza, contra a população e sobretudo, contra a vida.

Não esqueçamos também, que o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de países mais perigosos para jornalistas – atrás apenas de Síria, Iraque, México e França, conforme o levantamento da ONG Press Emblem Campaign. Segundo o relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) divulgado no dia 22 de fevereiro, só em 2015 o Brasil teve oito jornalistas mortos e 64 agredidos no exercício da profissão.

Ao que tudo indica, denunciar irregularidades e lutar pela preservação do meio ambiente significam assinar um atestado de óbito prévio. Mas essas mortes curiosamente não despertam grande comoção na sociedade. Afinal, denunciar extração irregular de madeira, exigir a demarcação dos territórios indígenas ou lutar pela fiscalização de empresas que poluem o meio ambiente são coisas de ecochato e parecem não dizer respeito a todos nós. E talvez nossa postura mediante tais situações é que torne possível esta afirmação.  As vozes que destoam do coro conduzido unicamente pelos interesses econômicos aos poucos vão sendo silenciadas, soterradas e esquecidas. Aos poucos, as promessas de campanha vão sendo deixadas de lado para, quem sabe, servirem de mote em algum pleito futuro. A dúvida que causa inquietação, que incomoda e que não quer calar é sempre a mesma: até quando?

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