Cultura

OPINIÃO: Tempos difíceis para a economia e mais ainda para a cultura

Há três meses sem salários, artistas pedem alimentos não perecíveis em rede nacional

Dia 09 de junho pela manhã: liguei a TV para assistir a Fátima Bernardes enquanto comia alguma coisa no café da manhã. Na tela, dois bailarinos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresentavam um trecho de “Carmina Burana”, espetáculo que a companhia estrearia naquela semana. Eu estranhei ligar a televisão naquele momento e assistir um trecho de espetáculo de dança. É no mínimo curioso perceber que eu assisti a apresentação esperando a história triste que viria depois: “um dos bailarinos vinha da periferia e hoje é um dos mais importantes profissionais do mundo, ou alguma coisa do tipo”, pensei eu, preconceituoso e acostumado a só ver cultura na TV aberta como pano de fundo para uma outra grande história. A arte não é exibida na TV aberta à toa, sempre há de ter um interesse por trás, uma ponta que o apresentador irá amarrar assim que o espetáculo acabar, afinal a arte nunca será o produto principal de um programa de auditório.

Dito e feito: findada a apresentação, Fátima explicou que o tal espetáculo estava em cartaz para angariar dinheiro e ALIMENTOS NÃO PERECÍVEIS (em caixa alta, tamanho absurdo) para os funcionários do Municipal, que estavam há dois (agora há três) meses sem receber salário. Nem mesmo 13º salário de 2016 foi pago. Tava aí o fio solto, a história por trás da arte “grátis” no horário nobre matutino. Só de lembrar os artistas pedindo doação de alimentos eu sinto como se uma mão três vezes maior que meu pescoço desse um nó em minha garganta. Mesmo sem receber salário, os funcionários do Municipal seguiam montando espetáculos e proporcionado arte aos seus espectadores. Oras, a culpa é da crise! O governo não tem dinheiro para pagar os artistas. Não temos dinheiro para proporcionar arte, para dar oportunidade das pessoas mudarem suas vidas através da música, da dança, das artes cênicas. Não podemos fazer nada! Ou podemos: ir ao Municipal, doar alguns quilos de alimentos não perecíveis para que as famílias dos artistas não passem fome e bola pra frente.

O programa foi para o intervalo e na volta um dos jovenzinhos tatuados que dão as notícias do G1 entraram no ar e noticiaram alguma coisa sobre a prisão do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Esse que foi acusado e condenado por roubar e transformar dinheiro público em jóias e obras de arte, criando uma fortuna para sua família. Enquanto familiares do ex-governador do Rio de Janeiro acumulam riquezas e vivem muito bem em algum condomínio carioca, as famílias dos funcionários do Theatro Municipal passam necessidades. O bailarinoque foi no programa havia virado Uber semanas antes. Que país é este em que um artista precisa virar motorista de aplicativo para sobreviver? Quantos músicos tocam nos bares e casas noturnas desse brasilzão por menos de R$ 50, sonhando com o dia em que poderão largar seus empregos de salário mínimo para viver da música? Quando é que nós vamos deixar de achar tão estranho assistir “arte grátis” na televisão? Quando é que alguém com poder vai entender que, sem educação, sem cultura, não há futuro? O que esperar do governo de um presidente que em seu primeiro dia de mandato interino extinguiu o Ministério da Cultura (restaurado somente sob pressão pública)?

Ainda espero o dia em que ao ligar a televisão e me deparar com “arte grátis” ela não seja oferecida junto com uma história triste ou de superação, porque qualquer um poderá trabalhar com o que quer, usar seu talento para atuar, dançar, recitar, tocar, cantar e encantar. Espero o dia em que governadores governem porque querem ajudar a construir um país melhor, e não uma fortuna maior. Desejo que chegue o dia em que a cena deprimente e humilhante como a dos artistas do gabarito do Theatro Municipal seja só uma lembrança que contarei ao meu filho para mostrar os tempos difíceis que vivemos, igualzinho às histórias sobre a ditadura militar que ouvimos hoje. Esse dia ainda vai chegar, vamos ter fé.

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