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OPINIÃO: Temos muito a perder

Insegurança na capital é refletida nos números

Se não fosse a chuva forte que transformou o dia 13 de setembro em noite logo às 7h, eu os teria visto antes. Dois homens esperavam o ônibus na parada em que, todos os dias, pego a condução para o trabalho, em Porto Alegre. Pareciam inofensivos e até reclamaram comigo quando um carro passou e nos molhou com a água empoçada. Ingênuo, nem imaginava que os dois caras me colocariam na estatística que, só no primeiro semestre deste ano, fez 17.691 vítimas, conforme a Secretaria da Segurança Pública (SSP) do Estado.

Tinha terminado de pagar meu celular fazia um mês. Foram 10 parcelinhas de 100 pilas um tanto quanto sofridas para um estagiário de Jornalismo. Mas a demora que levei para poder chamar o telefone de meu foi inversamente proporcional ao tempo em que os dois caras me cercaram.

O que estava na minha frente pediu o telefone. Do bolso, puxou algo prateado. Não deu para ver com certeza o que era, poderia ser uma colher que não faria muita diferença. “Não tenho nada a perder, mano”, disse ele. Parecia não ter, de fato, nada a perder. Se fosse mesmo uma faca, eu teria.

De acordo com a SSP, o número de roubos em Porto Alegre – excluindo o de veículos – no primeiro semestre de 2016 passou da metade do índice de todo o ano passado, quando chegou a 30.960. O aumento, no caso dos celulares, em tese, não faz sentido, uma vez que o Rio Grande do Sul aderiu, no início do ano, às mudanças da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que permite que a vítima faça o bloqueio do aparelho apenas informando o número à operadora. A medida busca coibir a principal motivação dos crimes, que é a “revenda” dos aparelhos. Pelo visto, não deu certo.

A facilidade que os criminosos encontram para revender os aparelhos é o principal atrativo para o roubo. O sistema parece estabelecer funções para os envolvidos. Há quem roube, há quem faça a mediação entre ladrão e vendedor, que anuncia os celulares em pleno centro da Capital. É provável que eu, se tivesse dado meia-volta e caminhado pelas ruas movimentadas por uns minutos, pegasse o meu de volta gastando menos do que gastaria com um novo. Há que se concordar com a ideia de que a violência parece mais organizada do que o Governo quando se trata de garantir a segurança de seu contribuinte.

A sensação de insegurança na capital gaúcha é constante e avassaladora. Sente-se o peso da violência em caminhadas pelas ruas, por sinal, quase sem policiamento. Em um Estado que calcula o número de mortes violentas em 7,5 por dia, segundo a SSP, não é para menos. Falta efetivo da polícia, sim, é fato, mas aos olhos de quem sofre com o medo diariamente fica cada vez mais difícil engolir essa justificativa. Temos muito a perder, muito mais do que qualquer aparelho telefônico, carteira ou documento. Só não podemos perder a luta contra esses índices. Não podemos perder a nossa cidade para a violência, seja ela de qualquer tipo.

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