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OPINIÃO: Sociedade, a culpa é sua!

Pesquisa aponta que 33% da população brasileira acredita que a culpa do estupro é da mulher

Sou homem. Estudante de 27 anos. Confesso que nunca fui julgado pelo tamanho de minha vestimenta, tampouco senti medo de passar em um local por receio de ser assediado. Não tenho a mínima competência e experiência para falar dos problemas que as mulheres passam diariamente em todo o lugar, até mesmo dentro de suas casas. Mas a questão da cultura do machismo chegou a um ponto que o silêncio e a inoperância tendem a piorar a situação da violência contra a mulher.

Há pouco mais de dois anos, muitos ficaram perplexos ao ver os resultados da pesquisa encomendada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o estupro no Brasil. Na ocasião, a pesquisa apontava que 26% dos brasileiros concordavam com a ideia de que mulheres que usam roupas que mostram o corpo mereciam ser atacadas. Mesmo depois de tantas ações, protestos e reações contrárias ao resultado, percebemos que parte da população ainda mantém o mesmo discurso sobre o tema.

Na semana passada, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgou uma pesquisa semelhante. No entanto, a análise aponta que 33% da população brasileira acredita que, nos casos de estupro, a culpa é da mulher. Entre os homens, o pensamento ainda é mais comum, pois 42% deles dizem que mulheres que se dão ao respeito não são estupradas. Um número estarrecedor que nos faz refletir sobre quais os motivos que leva parte da sociedade a culpar a vítima. Por que não culpam os governantes que não tomam atitudes resolutivas na área da segurança pública? Por que não culpam o machismo que, apesar de mascarado, segue enraizado na mente de boa parte da população?

A impressão é que a sociedade está tão acostumada com a incompetência de seus representantes que não faz questão de fazer uma análise geral da situação e sai em busca de culpados para tentar explicar a causa de um problema sério e, até o momento, sem solução. Culpar a vítima é mais fácil. É mais fácil ditar como uma mulher deve se vestir do que acabar com o machismo que está impregnado, há anos, na cultura brasileira. É mais fácil dizer que a mulher deve se valorizar sendo que a própria sociedade não a valoriza. Elas continuam ganhando menos, sendo preteridas no mercado de trabalho, sendo agredidas dentro de suas próprias casas, sendo vítimas de uma cultura que presume que tenham de servir e ser submissas ao sexo masculino.

Culpe o estuprador, o governo, a sociedade, o machismo. Mas não culpe a vítima. A mulher pode se vestir, se comportar e fazer o que ela bem entender sem precisar ser julgada ou agredida. Assim como o homem, ela pode e deve usar o seu direito de ir e vir. A mulher deve, necessariamente, possuir os mesmos direitos que nós, homens, possuímos dentro do mercado de trabalho, das instituições ou na rua mesmo, sem precisar ser bela, recatada ou do lar.

Aliás, em uma sociedade que se diz igualitária, é inadmissível que a função “do lar” seja exclusiva das mulheres. Por muito tempo, a palavra “servir” esteve ligada ao sexo feminino. A sociedade é culpada por aceitar que esse tipo de cultura permaneça. A sociedade. Ela mesma. Não a vítima.

Foto: Camila Souza/Segunda Chamada

Foto: Camila Souza/Segunda Chamada

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